A intensidade de Clarice Lispector na jovem produção literária brasileira

Conversa com a escritora cuiabana Ryane Leão movimentou o último dia do evento Revolução Poética com falas potentes, questionamentos incisivos e muita poesia

A segunda edição do festival de ideias Revolução Poética na Fábrica de Ideias terminou no dia 3/5, em alta temperatura, com debates inspirados nas obras de Clarice Lispector e Paulo Leminsk, dois dos autores mais intrigantes da história da literatura brasileira. A proposta do evento em celebrar o Dia da Literatura Brasileira teve, com a participação de Ryane Leão, mais um grande momento de realização desse objetivo. A poeta cuiabana abriu a agenda do último dia do evento, conversando com a jornalista, professora e escritora Carmem Cagno; com o músico, compositor e arranjador Jorge Nascimento; e com o produtor audiovisual, roteirista e fotógrafo Matheus Vieira, que produziu o vídeo “Coração em (r) excesso”, sobre Clarice Lispector, especialmente para esse encontro.


Muito intensa, combinando com o primeiro tema em debate da noite, Ryane Leão trouxe ao público presente ao auditório do espaço A Fábrica e à plateia que acompanhou o debate online, um generoso compartilhamento sobre sua vida, o encontro com a poesia, a descoberta da produção poética profissional, seus processos criativos, a cura que encontra na literatura e seus projetos futuros.


Autora dos livros “Tudo nela brilha e queima” e “Jamais peço desculpas por me derramar”, Ryane contou que apesar do interesse pela escrita ter se manifestado ainda na infância, a mudança de Cuiabá para São Paulo, aos 19 anos, foi um marco divisor para sua entrada integral no universo literário de forma intencional e direcionada. “Inicialmente, São Paulo me engoliu e a palavra se tornou minha maneira de estar viva naquele espaço maluco”, conta a poeta, que adotou o hábito de anotar num caderninho tudo o que lia e via nos muros da cidade.


Sem pudores para afirmar que o tempo todo concorda e discorda com Clarice Lispector, Ryane Leão acredita nos impactos e nas alterações que a produção literária pode causar na vida das pessoas. “Não trilho o caminho da arte pela arte. Sempre tenho um objetivo e escrever profissionalmente é uma conquista”, disse a escritora que também é professora.


Entre os pontos onde se sente próxima da autora de “Paixão Segundo GH” e “A Hora da Estrela”, Ryane não economizou na segurança: “Somos duas pessoas extremamente corajosas no que se diz e no que não se diz. Clarice Lispector não buscava e eu também não busco explicações para os meus poemas. Procuro ser e estar na literatura da forma em que me sinto confortável”, disse a poeta. Ela também incentivou o público a “enegrecer as estantes”. “As escritas negras são sempre escritas de possibilidades. Ampliem o conhecimento sobre autores negros”, pontuou.


No início da carreira, publicando textos em blogues e redes sociais ao reconhecimento atual, Ryane festeja o momento que vive como escritora. “Quanto mais escrevo, mais revolucionária me torno. E quanto mais escrevo, mais me afasto da obrigatoriedade da revolução diária. A literatura me permite dialogar com diversos sentimentos e, a partir disso, chegar em algum ponto de cura”, arrematou, antes de finalizar sua participação com a leitura do poema “Depressão”.


A agenda do Revolução Poética na Fábrica Literária trouxe oficinas, conversas literárias, debates e atividades artísticas. O evento celebrou o Dia da Literatura Brasileira, comemorado em 1º de Maio, com a proposta de revolucionar a poesia na contemporaneidade, reunindo artistas da atualidade a partir de seis poetas significativos da história da literatura brasileira: Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Cora Coralina, Ferreira Gullar, Manoel de Barros e Paulo Leminski. Foram cinco dias de atividade intensa e gratuita, com a participação de 14 autores e programações artísticas variadas.


A conversa com Ryane Leão pode ser acompanhada na íntegra neste link.


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