“A língua brasileira é fruto de um processo de resistência”, avaliou Eliane Brum na FIL

A Feira Internacional do Livro reuniu muitas atividades artísticas e promoveu encontros com autores, que permitiram reflexões sobre temas como A Língua Portuguesa e suas variantes, o ato da escrita e as referências dos autores, força da ação coletiva nas favelas e as histórias em diferentes formatos

Eliane Brum e Roberta Tavares

Os trajetos do Brasil continental são entrelaçados por uma longa colcha de retalhos com vários ‘Brasis’. Essas influências estão presentes na escrita de Eliane Brum e Roberta Tavares, participantes da “Sessão Mapa Literário: Mulheres de Norte a Sul”, na manhã do sábado, 27/8, durante a 21ª FIL - Feira Internacional do Livro de Ribeirão Preto, no auditório Meira Júnior, no Theatro Pedro II.


Na sessão Mapa Literário: mulheres de Norte a Sul, que abriu as reflexões do dia, a escritora, jornalista e documentarista, Eliane Brum, participou de forma on-line, trazendo sua experiência com as variações da língua - sua ferramenta de trabalho – tanto no jornalismo quanto na literatura. Ela comentou que não mantém o mesmo tipo de escrita em suas obras, se permitindo ficar livre para aflorar as pessoas que ouviu durante os mais de 30 anos de jornalismo. “O ritmo e o tipo do meu texto sobre as pessoas do Norte não pode ser o mesmo sobre as do Sul. Existem diversos Brasis em mim. Eu sou um coletivo”, explicou a jornalista.


A poeta e historiadora afro-amazônica quilombola, Roberta Tavares, que participou da conversa diante da plateia presencial, disse que seu texto vai mudando conforme o tempo passa e se declarou ‘não urbana’, apesar de morar na cidade de Bujaru, no Pará. Nascida em uma fazenda, ela carrega essa origem rural na sua escrita. “Sempre busco colocar os ritmos nos meus textos, sons e sotaques. Cada som carrega um significado. Tudo isso faz o poema acontecer.”, contou.


As duas escritoras concordaram que os brasileiros transformaram a língua portuguesa, vinda dos colonizadores, em uma nova língua: a brasileira. “Temos uma língua própria e ela é nossa, como é nosso esse território. O Ariano [Suassuna] falava que civilizamos essa língua e isso é verdade”, comentou Roberta. “A língua brasileira tem vários ritmos, completamente diferentes do português colonizador. Ela é maravilhosa por conta dessa riqueza imensa, fruto de um processo de resistência, daqueles que foram oprimidos”, emendou Eliane.


O autor Julián Fuks trouxe para a FIL suas experiências com a escrita. “Quando terminamos de escrever um livro, nos sentimos vazios, como se perdêssemos nosso rumo. Por isso, passei a escrever em fragmentos e nunca me sinto só”. Foi assim que Julián Fuks iniciou sua participação na 21ª FIL. O jornalista, escritor e crítico literário participou na “Roda de Conversa – Ausências e Presenças de afetos na literatura brasileira”, no auditório da Biblioteca Sinhá Junqueira.


O escritor relatou que os sentimentos são importantes para a construção de um bom personagem, criando uma identificação com o leitor. “Eu percebi que, na literatura, se você constrói um ‘eu’ marcante, acaba produzindo um vínculo muito mais próximo com o leitor, sendo mais fácil de se aproximar dos sentimentos de cada um”, explicou Fuks.


A programação seguiu durante todo o dia, com muitas atividades gratuitas para todas as idades e interesses. Oficinas, apresentações artísticas, musicais e teatrais, contações de histórias, salões de ideias e conversas roubaram a cena no Quarteirão Paulista de Ribeirão Preto.



Salão de Ideias "Favela e suas potencialidades"

Entre os assuntos escolhidos para trazer o público à reflexão, o salão de ideias: Favela e suas potencialidades foi destaque do dia - com Preto Zezé, empresário, escritor, produtor cultural e presidente nacional da Central Única de Favelas, que veio à Ribeirão Preto para participar da Feira Internacional do Livro e Celso Athayde, fundador da CUFA, no Rio de Janeiro, e hoje empresário reconhecido por prêmios mundiais. Os dois falaram de suas vivências e das múltiplas possibilidades que podem ser implementadas nas favelas brasileiras. De forma on-line, Athayde contou sua experiência com as ruas, a carência na infância e as drogas, por meio de um depoimento incentivador para quem vive em favela. “Os sonhos são iguais para todo mundo, as ferramentas é que são diferentes. Precisamos ver quem vai ver cavalos selados passando”, disse. Os dois deixaram a mensagem de que é preciso criar circunstâncias para vencer as limitações e dificuldades de se morar em uma favela. Celso Athayde recomendou que “é preciso ser autossustentável”, se referindo à Escola de Negócios da CUFA e trouxe suas percepções sobre negócios e mercado de trabalho.


No início da noite, o Estande CUFA (Central Única das Favelas), reuniu lideranças femininas de diferentes favelas de Ribeirão Preto para uma conversa sobre o trabalho das Mulheres da CUFA em suas comunidades. O encontro contou com participação on-line de Patrícia Alencar, presidente nacional das Mulheres da CUFA. “Nosso legado de luta é o de fazer várias coisas no sentido de levar melhorias às mulheres das favelas. A transformação das mulheres a partir da economia, da construção de projetos e do pensar novas estruturas tem sido nosso foco”, explicou Patrícia. “É preciso desmistificar que a favela tem gente suja e bandido. A favela tem gente comum. Talvez, o que muda são as condições financeiras”, pontuou Tica de Paula. Além do bate-papo com o público, o encontro deu posse à Aline de Paula como presidente da CUFA Ribeirão Preto, em substituição ao presidente Rafael de Paula, falecido no início de agosto.



Espetáculo "Meu Reino Por um Cavalo"

Dentro do Theatro Pedro II, o sábado na FIL terminou com o espetáculo “Meu Reino por um Cavalo”, com a Cia Vagalum Tum Tum. Divertida, dinâmica e cheia de sutilezas, a montagem apresentou uma livre adaptação de “Ricardo III”, texto clássico de William Shakespeare. Com exigente trabalho cênico e de interpretação, música, humor, intervenção circense e poesia, a peça coloca em cena temas importantes como ética, respeito pela vida, honestidade, ganância, solidão. A alegria do palco encontrou parceria junto à plateia formada por crianças, adolescentes, jovens e adultos que lotaram a sala principal do Teatro Pedro II. Neste domingo, último dia da Feira Internacional do Livro de Ribeirão Preto, a Cia Vagalum Tum Tum apresenta o espetáculo “Henriques”, também na sala principal do Theatro Pedro II, às 18h. As duas apresentações são uma realização do SESC Ribeirão Preto.

Espetáculo "Meu Reino Por um Cavalo"

Do lado de fora, no Ambient de Leitura, na Esplanada do Theatro Pedro II, o público se reuniu para dançar ao som do grupo de DJs de Ribeirão Preto – Tutu Djs, que desde 2002, desenvolve trabalho de pesquisa e qualidade musical. A temática do repertório da apresentação foi a Água

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Sobre a Feira Internacional do Livro de Ribeirão Preto


A 21ª edição da Feira Internacional do Livro de Ribeirão Preto aconteceu de 20 a 28 de agosto de 2022 e trouxe como proposta de reflexão o tema “Do Caburaí ao Chuí: a força da Literatura Brasileira”. A proposição embasou todas as atividades e debates do evento. A feira consagrou-se como um dos maiores eventos culturais do país: 21 anos de história e 20 edições realizadas. Em 2020, a feira tornou-se internacional e em 2021 realizou sua 20ª edição, pela primeira vez, no formato on-line, devido à pandemia do Coronavírus.

Realização: Ministério do Turismo, Governo do Estado de São Paulo, por meio da Secretaria de Cultura e Economia Criativa, Prefeitura Municipal de Ribeirão Preto, Usina Alta Mogiana, GS Inima Ambient e Fundação do Livro e Leitura apresentam a 21ª Feira Internacional do Livro de Ribeirão Preto (FIL). Patrocínio Diamante: Usina Alta Mogiana e GS Inima Ambient. Patrocínio Ouro: GasBrasiliano e Savegnago. Patrocínio Prata: Passalacqua, Premier Pet, Pedra Agroindustrial, Ribeirãoshopping e Riberfoods, Usina Vertente,Tereos e Vittia. Patrocínio Bronze: Supermercados Gricki, MazaTarraf, Tracan, Santa Helena. Patrocínio: Madeiranit, Usina São Martinho, Tarraf. Instituição Cultural: SESC. Parceria Cultural: Fundação Dom Pedro II – Theatro Pedro II, Alma – Academia Livre de Música e Artes, Biblioteca Sinhá Junqueira, Centro Cultural Palace, Instituto do Livro, CUFA, A Fábrica, IPCCIC – Instituto Paulista de Cidades Criativas e Identidades Culturais, Teatro Municipal de Ribeirão Preto, AbaCare, Associação de Surdos, CAEERP, FADA, Fundação Panda, Ribdown, SOMAR. Apoio: ACIRP, Base Química , Cenourão, Combustran, DTEK, Durati Distribuidora, Lopes Material Rodante,Molyplast, Mialich supermercados, Santa Emília, Transmogiana,Tonin, Vantage – Geo Agro, ViaBrasil, Coderp, Transerp, Guarda Civil Municipal, Polícia Militar, Secretaria de Cultura e Turismo, Secretaria de Educação, Secretaria do Meio Ambiente, Secretaria de Infraestrutura. Apoio Cultural: Convention Bureau, Colégio Marista, Diretoria de Ensino – Região de Ribeirão Preto, ETEC – José Martimiano da Silva, Educandário, SESI, Barão de Mauá, Centro Universitário Moura Lacerda, Unaerp, NW3, Grupo Utam, Monreale Hotéis, Painew, Verbo Nostro Comunicação Planejada e Instituto Unimed.

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