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Bate-papo com Fernando Bonassi é destaque na 40tena Cultural

Convidado pela Fundação do Livro e Leitura de Ribeirão Preto para participar do bate-papo ao vivo com o tema “Ficções que ganham vida”, o roteirista Bonassi falou do papel central do cinema brasileiro em pautar as discussões na sociedade – tal como aconteceu com “Carandiru”, filme de que é co-roteirista


A 40tena Cultural, evento realizado pela Fundação do Livro e Leitura de Ribeirão Preto, trouxe nessa terça-feira (13) o convidado Fernando Bonassi para o centro do bate-papo do tema “A arte de escrever: ficções que ganham vida”. Bonassi é romancista, dramaturgo, cineasta e roteirista premiado, tendo participado como co-roteirista dos filmes “Carandiru” e “Cazuza”. Na live, contou mais sobre seu processo de adaptação de livros para filmes, sobre suas impressões em relação à cultura nacional e também deu dicas a jovens roteiristas.

O encontro foi mediado pela diretora e roteirista Paula Sacchetta, que trabalha com documentários há 10 anos e já dirigiu dois longas: "Precisamos Falar do Assédio" e "Verdade 12.528", além de duas séries de TV: "Eu, Preso" e "Famílias". A transmissão teve início às 19h pelo Instagram e plataforma oficial da Fundação, com acesso livre e gratuito.

Paula abordou o tema “Carandiru” desde o início, obra cinematográfica que marcou Bonassi como co-roteirista. “Essa foi uma experiência política que não vai acontecer de novo na minha vida”, ele afirmou, contando que chegou a ler o livro 36 vezes enquanto escrevia o roteiro em conjunto com Héctor Babenco e Victor Navas. “Como você adapta um livro que já é muito lido?”, ele mesmo questionou e respondeu: “O critério tem de ser encontrar ali entre o que você gosta e entende como relevante. Nós lemos o livro várias vezes, opinando sempre sobre o que era bom ou ruim, o que era repetitivo, sempre contando com a possibilidade de fazer mudanças”.


O filme “Carandiru” (2003), afinal, foi uma adaptação da obra literária “Estação Carandiru” (1999) de Drauzio Varela, que vendeu mais de 400 mil exemplares nas primeiras semanas de sua publicação. Fernando Bonassi afirma que esse foi um trabalho de relevância política inigualável em sua carreira. “Pude presenciar a entrada da periferia na cultura, porque essas histórias nunca tinham valido nada para a literatura e para o cinema até essa época”.


Em seu comentário sobre a implosão do edifício, que foi reinaugurado como Biblioteca de São Paulo (BSP), Bonassi defendeu: “Eu fiz parte de um grupo de pessoas que achava que aquele espaço tinha que virar um memorial, porque o processo todo foi uma covardia. O nome ‘massacre’ é bem dado. Mas esse apagamento é um comportamento histórico do Brasil”. Para ele, é nesse sentido que o cinema brasileiro se ergue como uma arte tão importante. “Talvez o nosso cinema tenha feito mais pelas relações exteriores do Brasil do que a própria diplomacia. Acho que a gente fala de cadeia por causa do Carandiru, a gente fala de favela por causa do Cidade de Deus, e a gente fala de polícia por causa do Tropa de Elite. E o que fazem com o prédio do Carandiru é o que tentam fazer com a democracia brasileira”.


Bonassi contou que, em seu processo de adaptações literárias para filmes, costuma assumir um papel mais ‘desapegado’. “Eu chego frio para fazer esse trabalho, porque eu vou tentar entender o que o diretor quer, e nós vamos ter uma conversa profunda sobre aquilo e a partir disso vamos trabalhar”. Para ele, essa relação com o diretor é fundamental para o bom andamento da obra. “Como roteirista, procuro encontrar a verdade principal daquela obra literária e aquilo que pode ser melhorado”.


Ele também afirma que é importante que o roteirista se mantenha “fora do set”: que seu trabalho esteja pronto e muito claro para que não tenha que participar das etapas seguintes de gravação. “Precisa existir um material de ferro, com as passagens claras. Como roteirista, não gosto de improviso e acho que o que costuma desagregar uma boa obra de arte é ela não ter sido pensada antes”. Além disso, uma dica que dá a jovens roteiristas é sempre atualizarem seu repertório. “Eu leio um livro e vejo um filme por dia para criar repertório. Fora isso, é importante ouvir: abrir os olhos e fechar a boca, sempre entrar absolutamente interessado no que vai acontecer”.


De todas as suas contribuições para o cinema e para a literatura, Fernando Bonassi não sabe definir a que mais o marcou. “Sem dúvida o Carandiru foi o mais intenso, mas, se tem uma coisa bacana na minha área, é que cada trabalho que faço me permite visitar profundamente uma coisa nova”, conclui.