“Eu defendo a literatura como um direito humano”, afirmou José Falero

Escritor participou do Festival de Ideias na Fábrica Literária no dia 30/4




O concerto de viola de 12 cordas do maestro e compositor José Gustavo Julião de Camargo trouxe à noite de sábado (30/4) do “Revolução Poética na Fábrica Literária” um requinte de sonoridades. O encontro com o músico levou a plateia a momentos de introspecção e sensibilidade, possibilitando novos conhecimentos que transitaram entre a música e a literatura. No repertório: composições de Tom Jobim, Vinícius de Moraes, músicos estrangeiros e autorais. Em seguida, o público esteve frente a frente com o escritor José Falero - que trouxe uma narrativa inspiradora às plateias presencial e virtual do festival.


Logo no início da roda de conversa, o autor foi questionado pelo produtor cultural, Eliezer Pereira, com a pergunta: “em que mundo tu vive”? – uma referência direta ao seu mais recente livro. José Falero usou um trocadilho para responder: “é mais fácil dizer colocando em contraste com o mundo que não vivo. Sou um cara de Porto Alegre, não temos acesso ao Rio Guaíba; não há asfalto nas ruas; quando chega o verão, às vezes falta água semanas a fio – é muita precarização. O Estado não chega lá com educação, cultura e lazer, mas chega com a polícia. Esse é o mundo em que vivo”.


Falero contou que seu primeiro contato com o livro aconteceu apenas aos 20 anos. Apesar de tardiamente, a leitura fez uma revolução em sua vida. “Foi minha irmã que me incentivou a ler”. Na avaliação dele, a oportunidade só surgiu por conta dos fatos que sua família vivenciou, como a separação dos pais. “Ela foi morar com meu pai e por conta do bairro teve mais oportunidades de estudo. Quando vinha nos visitar, sempre insistia que eu deveria ler”, lembra.


A leitura foi trazendo novas inquietações ao jovem Falero, até ele perceber que podia escrever, expressar suas dores, reflexões e, definitivamente, ganhar um espaço reconhecido pelo coletivo: de ex-servente de pedreiro, supridor de gôndola de supermercado, hoje ele é um dos nomes citados como referência na nova literatura brasileira, tendo a sua obra “Os supridores” (Todavia, 2020) entre as finalistas do prêmio Jabuti. É também autor dos contos de “Vila Sapo” (Venas Abiertas, 2019) Sua mais recente obra é formada por crônicas que dão voz ao povo e ao universo que o rodeiam, “Mas em que mundo tu vive?” (Todavia, 2021).


Durante o bate-papo, Falero lembrou como foi possível abandonar as suas atividades profissionais até se tornar exclusivamente escritor – tal como continua até hoje. Segundo ele, a drástica mudança profissional sempre causa surpresa nas pessoas.


Lugar no mundo

Para definir seu estilo de escrita, José Falero disse que começou a carreira de escritor usando uma expressão mais formal. “Eu era um preconceituoso linguístico. Meu processo de escrita era absolutamente elitizado. Eu via as coisas de uma maneira que hoje considero equivocada. Tudo o que eu escrevia era afastado da oralidade”, expôs. Depois, lembrou que conversava com outros escritores pelas redes sociais que tentavam o convencer para trazer o coloquial para os livros, mas no início ele se recusava. Só com o tempo e a prática, Falero percebeu a força deste caminho, o que na sua ótica, foi determinante para seu desenvolvimento na literatura brasileira.


O autor se definiu como uma pessoa bastante curiosa, daí sua ligação com várias manifestações de expressão artística. Também confessou que a escola era hostil com ele e a luta contra todas as adversidades o levou para a literatura. “Sou um cara inquieto, sempre remoendo mil coisas e para mim, escrita é filosofia aplicada ao meu processo”.


O escritor admitiu que nos tempos de escola detestava o Português e garantiu: hoje é apaixonado pelo idioma e sua gramática. “Quando comecei a escrever estava trabalhando em obra, meus colegas não podiam descobrir, eu tinha que esconder”. Depois que assumiu seu lugar no mundo, não desviou mais da rota literária. “Eu me sinto feliz quando termino um texto, muitas vezes eu choro e me curo. Me faz bem”, concluiu.


A roda de conversa com José Falero pode ser acompanhada na íntegra neste link.

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