“Sou uma mulher preta com a consciência da minha pretitude”, expressou Vilma Piedade

Convidada pela Fundação do Livro e Leitura de Ribeirão Preto, a professora e escritora Vilma Piedade participou de bate-papo online e gratuito sobre o tema “Dororidade, Feminismo e Luta por Direitos”, nesta quarta-feira (18). Um encontro para se discutir o novo conceito de ´Dororidade´, que se refere às dores e lutas de mulheres negras


O projeto 40tena Cultural da Fundação do Livro e Leitura de Ribeirão Preto promoveu nesta quarta-feira (18) o bate-papo com a professora e escritora Vilma Piedade, com o tema “Dororidade, Feminismo e Luta por Direitos”. Pós-graduada em Ciência da Literatura pela UFRJ, Piedade é autora do livro “Dororidade”, lançado pela editora Nós, em 2017. A obra introduz um conceito que ela mesma criou e que batizou sua produção literária. Na live, transmitida pelo Instagram (@fundacaolivrorp) e site oficial da instituição, a autora contou que a dororidade caminha ao lado da sororidade, mas trata mais profundamente das dores das mulheres negras e das lutas travadas por elas.


O encontro contou com a parceria e colaboração do Centro Cultural Orunmila e com a mediação de Paula Oyarinu, que realiza palestras e compõe o Centro.


Piedade iniciou o encontro às 19h saudando sua ancestralidade e contando sobre um dos projetos de que faz parte como economista: o canal Pensar Africanamente, ferramenta de comunicação voltada à promoção da soberania do povo negro e para o enfrentamento ao racismo. Ela revelou que, por ser da área de Letras, sempre trabalhou muito com conceitos – mas todos os teóricos apresentados na Academia sempre eram homens. “Criar conceito também é coisa de mulher”, afirmou a professora.


A escritora explicou que o termo “Dororidade” surgiu de uma inquietude sua em relação à Sororidade – que, apesar de importante para mulheres, muitas vezes não trata das lutas singulares das mulheres negras. “Quando crio esse conceito, eu crio para dialogar com Sororidade. Dororidade fala das sombras, das dores, da ausência causada pelo racismo. É claro que a dor não tem cor, mas nós mulheres pretas ainda temos, para além dessa dor causada pelo machismo, aquela causada pelo racismo”.


A autora contou que até hoje o Google não reconhece o conceito: é preciso pesquisar a palavra “Dororidade” somada à “Vilma Piedade” para obter resultados. Apesar disso, ela disse que sua obra e conceito têm sido muito bem recebidos pela juventude e principalmente pela área do Direito na Academia. “Os conceitos sempre são circulares e sempre carregam muitos significados que pressupõem crítica, discurso, transformação e movimento. A juventude deu uma definição para Dororidade: ‘empatia entre as mulheres pretas gerada pelas dores em comum’. Sempre vejo pessoas transformando o conceito em arte, mural, e até o usando para falar de questões como transição capilar (ou ‘dororidade capilar’). Isso é muito bom, porque transforma a dor em potência”.


Sororidade e Dororidade

A escritora explicou que, enquanto Sororidade tem sua origem etimológica em “Soror” (irmã), Dororidade vem do prefixo latino “Dolor” (dor). “Sororidade não me contemplava. Todo conceito é circular, mas ele não basta a si mesmo. A Dororidade contém a Sororidade, mas nem sempre o contrário acontece”, afirmou.


Piedade explicou que o termo Sororidade foi cunhado pela primeira vez na década de 1970 por uma líder feminista com a finalidade de obter a união social entre as mulheres, sem haver distinção entre raça, classe e gênero. Mas que outras ondas do feminismo surgiram com força depois e criaram o feminismo negro, que no Brasil passou a ser incorporado em 1980 por Lélia Gonzalez. “É a ela que devemos o enegrecimento do feminismo, foi ela que fez parte da fundação do Movimento Negro Unificado (MNU) e que começa a ver que no movimento negro existia muito machismo”.


Piedade contou que Lélia criou o coletivo NZINGA com símbolos ancestrais para representar tanto a luta feminista internacional (com a cor roxa), como o movimento negro (com o amarelo de Oxum). A partir daí, começaram a nascer outros feminismos. “Lélia tinha uma consciência de classe muito grande. Precisamos sempre lembrar: enquanto as mulheres não negras estavam lutando no movimento para trabalhar fora, a gente já trabalhava fora há muito tempo”.

Ela ressaltou que as mulheres negras foram cruciais para a construção do Brasil e que, desde os quilombos, estão na luta por direitos e por equidade. “Fomos silenciadas pela história, pelo racismo e machismo, mas nossa luta ainda está viva. Ainda temos os piores indicadores sociais. A escravidão nos deixou marcas profundas como a da exclusão social”. A professora também lembrou que, embora muitos brasileiros não se entendam racistas, os números mostram o contrário. “Nós, pretos e pretas, temos que deixar de ser exceção e passar a ser regra nas estatísticas boas. Sempre ouvimos falar do ‘único ministro negro’, da ‘única vereadora negra’; mas nas estatísticas ruins nós viramos regra”.


Piedade lembrou que a própria língua traz consigo o racismo presente na sociedade: quando se busca no dicionário o sinônimo de “preto”, ainda se encontra as definições “escravo liberto”, e relacionado com as palavras “lúgubre” e “infeliz”. Ao passo que, para a palavra “branco”, sempre aparecem definições “maravilhosas”. “Isso é muito sério e é uma herança. O racismo é cotidiano e sistêmico: institucional, linguístico e religioso. Quando crio Dororidade, tento criar novos termos e pressupostos para ver se a gente consegue enfrentar essas violências que produzem o não-lugar, o não-pertencimento, o não-ser-sendo”.


Ainda ressaltando a importância de falar sobre racismo e discutir sobre o seu combate, Piedade e Paula lembraram que ele faz mal à saúde, mata, e “somente política pública pode transformar essa dor em potência”, segundo a escritora. “A gente precisa de aliados, de pessoas não negras na luta antirracista. Isso precisa acontecer e está acontecendo (quando alguém oferece sua página nas redes sociais para ocupação de negros, por exemplo)”.


A convidada da 40tena cultural afirmou que, talvez não chegue a ver ela mesma uma transformação profunda em sua geração, mas imagina que talvez na da mediadora Paula as coisas sejam diferentes. “Quando se pensa que estamos aqui na Fundação do Livro e Leitura. Quando vemos que temos o canal Pensar Africanamente com tantos conteúdos e várias pessoas maravilhosas como colunistas, é muito bom. Dá um ‘up’. E a gente deve isso tudo à nossa ancestralidade que vem lutando, batalhando por espaço”.


Para finalizar a live, as duas cantaram uma pequena cantiga iorubá e Vilma leu um de seus textos recentes intitulado “O Tempo e a Esperança”. A escrita fala sobre o momento de pandemia do novo Coronavírus: da dor sentida pela humanidade e em especial pelas mulheres negras que têm empregos informais, muitos filhos em casa e a tarefa de criá-los no isolamento.

Você ainda pode assistir a live que está disponível no nosso canal no YouTube: https://www.youtube.com/watch?v=IJ9-aMg6EqY


40 tena cultural

A Fundação do Livro e Leitura de RIbeirão Preto é a principal responsável pela realização da Feira Internacional do Livro, a segunda maior feira a céu aberto do país. Em decorrência da pandemia do coronavírus, as atividades de sua primeira edição Internacional tiveram de ser adiadas para 2021. Com isso, a Fundação tem propiciado diversos encontros em plataformas digitais para que as atividades culturais não deixem de estar presentes, trazendo o projeto chamado “40tena cultural”.


O projeto também tem como proposta incentivar as pessoas a ficarem em casa durante o período de isolamento social. Semanalmente, são divulgadas atividades que abrangem desde transmissões ao vivo com artistas e convidados, até contação de histórias para crianças, show, dicas e discussões de livros. O cardápio de eventos é bem diversificado e usa tecnologias diferentes, mas todas com acesso fácil.


Para a diretoria da Fundação do Livro e Leitura, em todo este tempo de quarentena, a principal busca tem sido focada na continuidade das atividades promovidas, de maneira a assegurar os valores do DNA da instituição. A 40tena Cultural possibilitou a toda equipe da instituição continuar seu trabalho em home-office, numa operação estruturada dentro dos protocolos da OMS (Organização Mundial de Saúde) e das autoridades brasileiras, em nível federal, estadual e municipal.


Como acessar a agenda cultural

A 40tena Cultural está sendo divulgada semanalmente nas redes sociais da Fundação do Livro e Leitura de Ribeirão Preto. Para participar, basta acessar os endereços online da instituição:

Instagram (@fundacaolivrorp)

Facebook (facebook.com/FundacaodoLivroeLeituraRP)

Linkedin (fundacaolivrorp),

Twitter (@FundacaoLivroRP)

Youtube (FeiraDoLivroRibeirao)

Site www.fundacaodolivroeleiturarp.com


Sobre a Fundação do Livro e Leitura de Ribeirão Preto

A Fundação do Livro e Leitura de Ribeirão Preto é uma entidade de direito privado, sem fins lucrativos. Trata-se de uma evolução da antiga Fundação Feira do Livro, criada em 2004, especialmente para realizar a Feira Nacional do Livro da cidade. Hoje, é considerada a segunda maior feira a céu aberto do país, realizada tradicionalmente no mês de junho. Em 2020, a Feira entraria na 20ª edição e tornaria-se internacional. Por isso recebeu recentemente nova identidade, apresentando-se como FIL (Feira Internacional do Livro de Ribeirão Preto), mas a sua realização foi remarcada para 2021 devido à pandemia de Coronavírus.

Com uma trajetória sólida e projeção nacional, e agora internacional, ao longo de seus 20 anos, a entidade ganhou experiência e, atualmente, além da Feira, realiza muitos outros projetos ligados ao universo do livro e da leitura com calendário de atividade durante todo o ano. A Fundação se mantém com o apoio de mantenedores e patrocinadores, com recursos diretos e advindos das leis de incentivo, em especial do Pronac e do ProAc.

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