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“Até hoje nos cobram deveres e esquecem que somos detentores de direitos”, afirmou Renata Sangoranti



Em parceria com a Fundação do Livro e Leitura de Ribeirão Preto, fundadores e integrantes do Centro Cultural Orunmila (CCO), como Renata, participaram de encontro online realizado no dia 6 de novembro durante a 40tena Cultural. Live tratou de assuntos como cultura e resistência negra


Ribeirão Preto (SP), 9 de novembro de 2020 – A Fundação do Livro e Leitura de Ribeirão Preto promoveu um encontro, na última sexta-feira (6/11), em parceria com o Centro Cultural Orunmila (CCO), em mais uma atividade do projeto “40tena Cultural”. Transmitida a partir das 19h, pelo aplicativo Zoom e também pelo site oficial da Fundação, a conversa foi mediada pela presidente interina da instituição, Adriana Silva, e teve como convidados Babá Paulo Ifatide Ifamoroti, Mãe Neide, Renata Sangoranti, Silas Nogueira e Rudah Felipe. O bate-papo abriu as portas para um debate sobre resistência, movimento negro, transformação, ancestralidade, expressões culturais diversas e muito mais.


O Centro Cultural Orunmila foi fundado em Ribeirão Preto em 1994, tendo suas raízes na comunidade religiosa Egbe Awo Ase Iya Mesan Orun (Culto à tradição mãe dos nove mundos), que já existia desde 1983. Ele nasceu da necessidade da preservação e promoção da cultura negra, e atua como um instrumento de combate ao racismo ao promover a cidadania das populações negras e periféricas. Nestes 26 anos de atuação ininterrupta, oferece oficinas, seminários e cursos de formação, teóricos e práticos – como percussão, dança afro, culinária, indumentárias, capoeira, hip hop, construção de tambores, história, cultura e idioma yorubá – e é também o criador e mantenedor do Afoxé Omo Orùnmilá e da Biblioteca Temática Ile Lati Ede Dudu.

Babá Paulo Ifatide Ifamoroti, que estava presente na conversa online, é estudioso da língua yorubá e fundador do Centro, tendo acompanhado a iniciativa desde que ela deu seus primeiros passos. Ele contou que a ideia do Centro sempre esteve muito atrelada à valorização da cultura negra e ao combate ao racismo. “Eu sempre fui ativista do movimento negro e sempre tive a percepção da importância de fazer o combate ao racismo através da cultura”, afirmou. Babá Paulo (ou “Pai Paulo”, como também é chamado) concebe o movimento negro em duas partes: a luta por ações afirmativas e o combate ao racismo.

Abordando a questão do racismo, logo no início da conversa, ele disse que é importante entender no que consiste essa forma de discriminação e de que forma ela foi construída. “O racismo existe desde 1454, quando o Papa Nicolau V, através de uma bula, autorizou o tráfico de africanos para as Américas, gerando um desconforto na Igreja Católica. Os europeus passaram a se perguntar então como iam escravizar negros? A resposta que encontraram foi coisificar essas pessoas. Mas como é que se coisifica um portador de cultura?”, questiona.

Babá Paulo afirmou que a violência dessa lógica ainda perpassa os dias de hoje e traz dados que o comprovam: no Brasil, morre um jovem negro a cada 23 minutos, assassinado majoritariamente pelas forças policiais. “Por causa dessa realidade, nós decidimos fundar o Centro como combate ao racismo, contra essa visão hegemônica. Não era fácil e não é fácil até hoje, porque somos taxados como violentos: não percebem a violência que vem de falas que ofendem profundamente os negros. Orunmila tem se prestado a isso: a falar sobre, denunciar e ser coerente com a nossa proposta”.


Para manter um centro por tantos anos, Babá Paulo diz que foi preciso muita resiliência na luta e que muitas parcerias foram traçadas Brasil afora. “Orunmila é uma entidade reconhecida nacionalmente hoje graças a um trabalho que fizemos no Conselho Nacional de Cultura e em várias instituições pelo país”, conta.