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Da ancestralidade ao teatro, FIL reúne diferentes gerações

5 de set.
8 min de leitura

Programação desta quinta-feira (3) começou com Kaká Werá no Combinando Palavras, percorreu debates sobre literatura, juventude e memória e terminou com o Grupo Galpão conduzindo a plateia do Theatro Pedro II à Esplanada


Combinando Palavras com Kaká Werá Jacupé
Combinando Palavras com Kaká Werá Jacupé

Mais de 950 estudantes da rede estadual de ensino de Ribeirão Preto e região abriram a programação desta quinta-feira (3) da 25ª FIL – Feira Internacional do Livro de Ribeirão Preto em uma conversa com o escritor e pensador indígena Kaká Werá Jecupé. Ao longo do dia, literatura, educação, tecnologia, sustentabilidade, memória e questões sociais atravessaram os diversos espaços do evento. À noite, o Grupo Galpão levou a encenação para além da Sala Principal do Theatro Pedro II e conduziu a plateia até uma Esplanada lotada.

 

No Combinando Palavras, os trabalhos preparados pelas escolas transformaram temas presentes nos livros de Kaká Werá em leituras, performances e manifestações artísticas relacionadas à cultura indígena, à natureza e às relações humanas. Em resposta à recepção, o autor conduziu um canto em referência à Terra e definiu o momento como uma vivência que ultrapassou o contato com sua obra.

 

“O primeiro impacto é o impacto no coração, da emoção de ver jovens das mais diversas escolas manifestando não só um aprendizado, mas uma sensibilidade muito grande com relação aos temas que costumo trabalhar”, afirmou.

 

O escritor chamou as escolas de “espaços-aldeia”, por considerá-las ambientes de formação, acolhimento e construção coletiva do conhecimento. Para ele, a maneira como os alunos se apropriaram das leituras renovou sua confiança nas novas gerações. “Isso me dá cada vez mais esperança de esperar, mas a esperança de esperançar, de confiar nas gerações futuras”, disse.

 

Literatura e pensamento crítico


A filósofa, escritora e professora Márcia Tiburi
A filósofa, escritora e professora Márcia Tiburi

À tarde, a Biblioteca Sinhá Junqueira recebeu a filósofa, escritora e professora Márcia Tiburi, com mediação de Nayara Kobori. Integrante do Viagem Literária 2026, projeto do Sistema Estadual de Bibliotecas Públicas de São Paulo, a conversa abordou a representação da violência contra as mulheres na literatura e na cultura ocidental.

 

A partir de referências que passaram pelas tragédias gregas, por Boccaccio e Edgar Allan Poe, Tiburi analisou como a figura da mulher morta foi convertida em objeto estético ao longo da história. “A matança é masculina, infelizmente. Os homens foram subjetivados e autorizados a praticar a violência, e refletir sobre isso é importante para que ela deixe de existir”, afirmou.

 

A autora também comentou os romances A Ninfa Morta e Com os Sapatos Aniquilados, Helena Avança na Neve, além de discutir feminismo, estruturas patriarcais e discursos de ódio. “Feminismo é uma posição política em relação ao seu gênero”, definiu.

 

Para a bibliotecária Marina Gonçalves de Souza, que acompanhou o bate-papo, a FIL permite aos moradores do interior acessar escritores e discussões muitas vezes concentrados nas capitais. Ela também ressaltou o acesso gratuito: “A gratuidade é muito importante, pois ela faz a gente pensar a cultura de uma forma acessível”.

 

Educação e tecnologia estiveram entre os assuntos da tarde. Na Tenda Sesc Senac, a professora Marta Roberta Pinheiro Garcia Teles apresentou ferramentas de inteligência artificial e discutiu seus usos no ensino, no trabalho e na produção de conhecimento.

 

“O aprendizado da máquina hoje é feito por nós mesmos. Somos nós que treinamos esses modelos todos os dias, de graça”, afirmou. Ao relacionar o tema à leitura e à escrita, Marta ressaltou as possibilidades abertas pela tecnologia, mas alertou para a preservação do protagonismo humano. “A questão é o quanto nós estamos delegando para a IA, em vez de assumirmos o controle”, concluiu.

 

Cesar Nunes discute ansiedade e futuro


O educador, escritor e professor Cesar Nunes
O educador, escritor e professor Cesar Nunes

Os dilemas enfrentados pelos jovens estiveram no centro da palestra “Juventude Brasileira: entre ansiedade e futuro”, apresentada pelo educador, escritor e professor Cesar Nunes no Theatro Pedro II. Ele relacionou o sofrimento emocional às mudanças tecnológicas, à desigualdade econômica, à crise climática, às transformações do trabalho e ao enfraquecimento dos espaços de convivência.

 

Nunes recorreu à imagem da Esfinge para representar uma sociedade que exige a capacidade de interpretar contradições cada vez mais complexas. “A sociedade na qual vivemos parece humana, mas tem o corpo do leão. Ela é mais violenta que o leão e mais traiçoeira que a águia. E a Esfinge diz para todo mundo, muito mais para os jovens e para as crianças: decifre-me ou eu te devoro”, afirmou.

 

Para o educador, a formação não pode se limitar à preparação para provas, vestibulares e mercado de trabalho. A escola, segundo ele, também deve transmitir a herança construída pela humanidade por meio da arte, da literatura, da filosofia, da cultura e das relações sociais.

 

“A maior e mais difícil missão da humanidade é educar, porque educar consiste em inserir em cada criança, em cada adolescente, a humanidade inteira e plenamente. Educar é produzir significado humano”, declarou.

 

Ao tratar das redes sociais, Nunes alertou para a substituição da vivência pela busca de aprovação virtual. Também defendeu a recuperação de práticas cotidianas, como conversar, brincar e compartilhar refeições sem a mediação permanente das telas. “É na mesa que se nutrem os projetos comuns e se digerem os sofrimentos coletivos”, disse.

 

Na avaliação do professor, o diálogo entre diferentes faixas etárias precisa ser reconstruído com escuta e acolhimento, especialmente diante de situações de ansiedade e depressão. “Não temos mais canais. A gente não abre uma conversa franca e, às vezes, em vez de criar canais afetivos e emocionais, cria canais de julgamento”, observou.

 

Ao concluir, Nunes retomou a responsabilidade dos adultos diante das crianças e dos adolescentes. “A primeira coisa que uma geração tem que produzir para a outra é a herança ética, estética e cultural, e não a cobrança”, declarou.

 

Sustentabilidade, música e identidade

 

Na Biblioteca Sinhá Junqueira, o Fórum ESG 360º reuniu Adriana Caldana, Anayra Giacomelli Lamas Alcantara e Paola Miorim para discutir caminhos para um futuro sustentável. A conversa passou por educação ambiental, ansiedade climática, consumo, formação de lideranças e participação dos jovens nos espaços de decisão.

 

Ao defender que a preocupação ambiental seja acompanhada por atitudes concretas, Adriana afirmou: “Se a gente está aqui, se a gente está vivo, se tem algo que possamos fazer, vamos fazer”. Anayra apresentou iniciativas de aproximação entre crianças, jovens e o ambiente natural, enquanto Paola chamou a atenção para a distância entre consciência e mudança de comportamento. “Estamos preocupados, mas o que estamos fazendo?, questionou.

 

Na Tenda Sesc Senac, o bate-papo “Elza: insurreição na garganta” reuniu a jornalista e escritora Lígia Morelli e a cantora e pesquisadora Fabiana Cozza, com mediação de Adriana Ferreira Silva. A trajetória artística e política de Elza Soares foi revisitada das primeiras décadas da carreira ao álbum A Mulher do Fim do Mundo.

 

Fabiana analisou como o racismo condicionou os espaços destinados aos artistas negros no mercado musical brasileiro. “O enquadramento é o racismo”, afirmou. Para a pesquisadora, essas vozes não podem ser separadas da realidade social. “Não tem como o canto não ser político. Política é a maneira como a gente vai para a vida, os ideais que a gente defende e a relação que se estabelece entre as pessoas dentro de uma sociedade”, declarou.

 

A agenda contou ainda com uma conversa com o escritor ucraniano Lyubko Deresh, mediada por José Manuel Lourenço, além da entrega do Prêmio Electro Bonini. Oficinas, intervenções, contações de histórias, exibições de cinema, dança e música completaram o dia.

 

Daniela Penha transforma lembranças em memória coletiva


À noite, a autora local homenageada Daniela Penha lançou o segundo volume de Força Italiana – Histórias de Família, durante a quarta edição do Museu Literário, realizada na Casa da Memória Italiana. Construída a partir de pesquisas, entrevistas e relatos, a obra reúne trajetórias de famílias italianas de Ribeirão Preto e região.

 

Para Daniela, as experiências particulares ajudam a recompor capítulos da formação da cidade. “Eu vejo o projeto Força Italiana, como um projeto essencial para resgatar e registrar as memórias - que são memórias de cada família, claro, mas que também são memórias coletivas, porque elas falam da história de construção de Ribeirão Preto”, explicou.

 

Entre os relatos presentes no novo volume está o do artista ribeirão-pretano Arie Delazari. Embora já tivesse sua trajetória artística reconhecida, ele desejava preservar também a lembrança dos pais, da casa com fogão a lenha e da vida em uma região da cidade conhecida como Brejo.

 

“Eu, como artista, tive a minha valorização, mas eu quero que a minha família seja valorizada. Eu quero que os meus pais, que tinham aquela vida simples, aquela casa de fogão a lenha, que viviam numa região aqui de Ribeirão Preto, que era chamada de Brejo - eu quero essa história valorizada”, relatou Daniela ao recuperar o depoimento.

 

O livro mostra a presença italiana na culinária, nas artes, na construção civil, no cultivo da terra e em outras áreas ligadas ao desenvolvimento regional. Mais do que compilar informações, a autora defende a escuta daqueles que vivenciaram esses processos. “A gente precisa ouvir quem sabe.Ter esse acesso, ouvir quem viveu. Eu acho que essa é a forma mais bonita de se resgatar uma história com afeto”, afirmou.

 

Daniela resume o vínculo estabelecido com os entrevistados em uma frase: “Eu cuido de pessoas, de histórias de vida”. A expectativa é dar continuidade ao projeto. “Eu espero muito que ela aconteça sim, que venha o terceiro, o quarto, o quinto, que venham muitos livros. A força italiana precisa ser valorizada e registrada”, disse.

 

Teatro rompe os limites do palco

 

A programação terminou com a apresentação de (Um) Ensaio sobre a Cegueira, do Grupo Galpão, na Sala Principal do Theatro Pedro II. Inspirada no romance de José Saramago, a montagem parte de uma epidemia de “cegueira branca” para investigar o colapso dos referenciais de convivência e colocar em tensão valores como ética, solidariedade e responsabilidade coletiva.


Com luz, sons e objetos manipulados diante dos espectadores, a encenação assumiu a estrutura de um ensaio em permanente construção. Parte da plateia foi levada ao palco, desfazendo a separação convencional entre artistas e espectadores. A paisagem sonora executada ao vivo intensificou a sensação de desorientação, enquanto o desgaste progressivo dos figurinos acompanhou a deterioração das relações entre os personagens confinados.

 

Segundo Eduardo Moreira, ator e um dos fundadores do Grupo Galpão, o espetáculo integra uma pesquisa artística desenvolvida coletivamente ao longo da trajetória da companhia. A proposta, explicou, vai além da montagem de uma peça e busca construir uma linguagem teatral ao longo do tempo.

 

“Acho que o Galpão nasce muito sobre essa ética de um trabalho coletivo, de um trabalho de grupo e com uma proposta de fazer teatro, não só montar uma peça e só, mas também de tentar, através da montagem de peças a médio e longo prazo, desenvolver uma linguagem, uma pesquisa dentro do teatro”, afirmou.

 

Ao final da apresentação, o grito “Estamos livres!” ecoou pela Sala Principal. Os atores deixaram o palco, atravessaram o Theatro Pedro II e seguiram até a Esplanada. A plateia acompanhou o grupo e ocupou o espaço externo até lotá-lo, transformando o percurso em continuidade da peça. 


Para Eduardo, o teatro se realiza na comunicação e na troca estabelecidas entre artistas e espectadores. É do contato entre esses dois imaginários, observou, que surgem a fantasia, a reflexão e a ficção construída no instante da encenação.

 

“O teatro está muito conectado com o público. Acho que isso é uma coisa absolutamente fundamental no teatro: comunicar com as pessoas, trazer uma experiência, trocar uma experiência. O imaginário no teatro se realiza no encontro entre o imaginário do ator e o imaginário do público”, declarou.

 

Na Esplanada lotada, essa concepção ganhou forma. Depois de atravessar a cegueira imaginada por Saramago, elenco e espectadores encerraram juntos o dia da FIL, ocupando a cidade como parte da cena — uma “ficção da presença”, como definiu Eduardo Moreira, construída no presente e no contato com o outro.


Fotos:

@stefranteschi

@eubabifotografa

@vikkafaustini

 
 
 

2 comentários


镇华 莫
15 de set.

What a beautiful event, bringing generations together to share stories and keep memories alive! Navigating our world takes real strategy, kind of like how a Last War guide helps players survive. So glad culture is celebrated like this!

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Abbey Lee
13 de set.

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