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Debates sobre violência doméstica, biodiversidade, desafios geracionais e de educação movimentaram a sexta-feira na FIL

  • há 7 horas
  • 8 min de leitura

As jornalistas Ana Paula Araújo, Maria Zulmira de Souza, Paulina Chamorro e Thalita Rebouças, e a deputada estadual e escritora Marina Helou participaram de diferentes encontros com o público

A jornalista Ana Paula Araújo esteve sexta-feira (4/9) reunida com o público da 25ª FIL - Feira Internacional do Livro de Ribeirão Preto, para uma conversa sobre violência doméstica e violência contra a mulher, temas que balizam seus livros-reportagem “Abuso: A cultura do estupro no Brasil” e “Agressão: A escalada da violência doméstica no Brasil”. No encontro, que aconteceu na sala principal do Theatro Pedro II, Ana Paula falou sobre o processo de escrita dos livros, resgatou algumas histórias que ouviu durante o trabalho de pesquisa e coleta de depoimentos, e reforçou a importância do pedido de ajuda, do acolhimento e do cumprimento das leis.


A jornalista, que possui mais de 30 anos de carreira, se dedicou por uma década à pesquisa sobre violência contra a mulher e violência doméstica, colhendo depoimentos de vítimas, entendendo a dinâmica desses comportamentos. “Mesmo que eu esteja familiarizada com a entrega de notícias dessa natureza, a experiência de produção dos livros foi bastante pesada para mim. Ouvi histórias e relatos muito fortes e doloridos e vi como o medo ainda rege a vida das mulheres, mesmo que ele não nos proteja de tudo”.

 

No decorrer da conversa, Ana Paula Araújo reforçou a importância do entendimento sobre as diversas formas de violência contra a mulher para além da física, e destacou a violência psicológica como uma das mais cruéis. “Em muitos casos, o homem nunca encostou um dedo na mulher, no entanto, a agride com palavras grosseiras e de demérito, com cerceamento de sua liberdade, com controle financeiro, com descrédito de suas competências profissionais etc. Embora o Brasil já tenha anotado casos de condenação para agressores com esse perfil, ainda é muito difícil de lidar com essas situações porque não há provas materiais”, explicou a jornalista.

 

A jornalista encerrou sua participação na FIL reforçando a importância do acolhimento às vítimas de violências sexual e doméstica. “Sair da situação de violência é o momento mais perigoso para a vítima, mas ela não pode desistir de pedir ajuda. No entanto, o Brasil ainda carece de atendimentos mais humanizados, seja nas delegacias, especializadas ou comuns, nos hospitais, no Judiciário, onde o aborto legal para vítimas de estupro ainda é muito difícil de ser autorizado. Mas é preciso que a lei seja cumprida”, sublinhou Ana Paula Araújo.

 

Caminhos e descaminhos do planeta


Na Tenda Sesc, o começo da noite foi com conversa sobre biodiversidade. A partir do tema “Para entender (quase) tudo sobre biodiversidade” - título homônimo do livro organizado pelos franceses Philippe Grandcolas e Claire Marc e lançado no Brasil pela Edições Sesc São Paulo - as jornalistas e ativistas ambientas Maria Zulmira de Sousa e Paulina Chamorro compartilharam histórias da vida e do cotidiano que estão ligadas à biodiversidade. Criadora e apresentadora do podcast Vozes do Planeta, Paulina iniciou o encontro conceituando a temática central. “A biodiversidade trata a natureza e toda a interdependência que há entre todos os seres vivos e espécies, desde o menor e mais invisível micro-organismo. É uma interdependência intrínseca e pede de nós um pouco mais de amor com nosso planeta”, destacou Chamorro.

 

Especialista em questões ambientais dentro do jornalismo, Maria Zulmira de Souza - que iniciou sua carreira há mais de 30 anos, no Repórter Eco, na TV Cultura -, lembrou que, em meio aos problemas abarcados pelo tema da palestra, há a importância de pensar os territórios e de mapear o que tem sido feito de bom e as pessoas que estão trabalhando com soluções para melhorar a vida das cidades. “Ribeirão Preto, por exemplo, era mata atlântica e hoje é um mar de cana, com ilhas de biodiversidade. Mas cabe a nós a ativação dos nossos super poderes do coletivo no enfrentamento dessa realidade e suas consequências. As soluções existem e certamente há por aqui iniciativas boas nesse cenário e é preciso conhece-las, apoiá-las, potencializá-las”, disse Zulmira.

 

Paulina Chamorro reforçou que “a natureza nos traz a possibilidade de sonhar e o sonho nos traz uma possibilidade de esperança. É um processo que nos define como humanos”. As palestrantes também abordaram as questões do antropoceno, que traz a atividade humana como principal força de transformação do clima dos ecossistemas e da superfície da Terra; a perde de conexões importantes com os extremos climáticos, redução da biodiversidade e poluição; e o novo desenho da natureza, agora composta por fauna, flora e funga (comunidades de fungos de um local).

 

Telas: desafio constante

No auditório da Biblioteca Sinhá Junqueira, a deputada estadual e escritora Marina Helou recebeu o público da FIL para a palestra “Quem está formando nossos filhos? - manifesto por uma infância e adolescência livres de telas”, título também de seu primeiro livro. Nome parlamentar à frente do projeto que proíbe o uso de celular em escolas de Ensino Fundamental e Médio, Marina atualizou os participantes sobre os patamares das discussões legislativas no Estado de São Paulo sobre esse tema e afirmou que, após um ano e meio da vigência da lei, os impactos positivos são altos, especialmente em relação à redução da violência no ambiente escolar e aumento efetivo da aprendizagem.

 

O medo que pais e mães têm de negar o celular às crianças e adolescentes em embate direto com a negligência de presença com os filhos conduziu o restante da conversa. “Geralmente, os fatores que levam os pais a permitir o acesso livre às telas são a otimização de seu próprio tempo, a ideia de que se todo mundo tem celular, o filho não pode ser excluído desse universo”, enfatizou Marina Helou. Promover mais contato dos filhos com a natureza, ainda que seja na pracinha ao lado de casa, estimular a leitura para a geração que historicamente é a que menos lê, e inserir os filhos na rotina doméstica, estimulando o desenvolvimento da autonomia das crianças e adolescentes, são, de acordo com a deputada, ações possíveis e que faz bem às crianças e adolescentes, tanto em tempo real, como para a vida futura deles. “Nenhum diretor de big techs de tecnologia deixa seus filhos ter celular porque eles sabem o mal que faz. As telas fritam o cérebro da criança e do adolescente, que está em processo de formação”, alertou Marina.

 

A deputada também abordou a equação presença dos pais x pais presentes. “Vivemos um tempo em que os pais precisam retomar seu papel de adulto nas relações com filhos crianças e adolescentes e recuperar seu espaço de educadores, hoje ocupado pelo celular. E o melhor caminho para isso é o pai e a mãe serem intencionais na importância do vínculo, na relação de responsividade, no cultivo de conexão. O melhor professor sempre é o exemplo”, destacou. Embora estudos recomendem a liberação de celular somente a partir de 14 anos e de redes sociais a partir de 16 anos, Marina reconhece o desafio que os pais têm diante de si, de não deixar os filhos por fora das tecnologias, com o cuidado de não permitir que isso seja prejudicial a eles. “É preciso um esforço coletivo nesse sentido”, disse a palestrante, citando o exemplo da escola onde os seus próprios filhos estudam, em que todos os pais e mães assinaram o pacto de não permissão do uso de celular também em casa.

 

Todos mundo é desafiado

Na oficina Gera-Lab: produtos para as gerações, o tema central da 25ª FIL - X, Y, Z, Alpha, Beta: Gerações Literárias -, ganhou lugar de destaque. As professoras Graziela Viana e Amanda Campos, do Senac, coordenaram a atividade que propôs aos participantes a dinâmica de mapear os desafios enfrentados por cada geração e encontrar as soluções possíveis para eles. “A ideia é de um intercâmbio entre as realidades de cada grupo geracional, otimizando a empatia e o senso coletivo”, salientou Graziela.

 

Combinando Palavras


A programação do Combinando Palavras desta sexta-feira reuniu cerca de 950 estudantes de 12 escolas da rede estadual de ensino de Ribeirão Preto e da região para um encontro com o poeta Sérgio Vaz no palco principal do Theatro Pedro II. Referência da literatura periférica brasileira, o escritor foi recebido com apresentações preparadas pelas escolas e participou de uma manhã marcada pela poesia, pela música e pela troca de experiências com os jovens.  Emocionado com a recepção, Sérgio definiu o encontro como um dos momentos mais marcantes da sua trajetória. “A primeira palavra que vem é gratidão. Esses jovens, com essa resposta ao meu trabalho, esse é um Prêmio Nobel da Literatura para mim”.

 

O poeta destacou o envolvimento dos estudantes com sua obra e atribuiu esse resultado ao trabalho desenvolvido por professores e escolas antes da atividade. “O jovem é um urânio enriquecido. A gente precisa trabalhar essa potência”. Durante a conversa, Vaz reforçou o papel da escola como espaço de transformação social e de acesso à literatura. Para o escritor, a educação é o caminho para que os jovens descubram sua própria voz e construam seus projetos de vida. “A escola é um grande caminho para que a gente possa atingir os nossos objetivos”, afirmou.


No encerramento, o poeta recitou um texto em tom de manifesto, incentivando os estudantes a acreditarem em si mesmos, cultivarem os seus sonhos e enfrentarem as dificuldades com a coragem. Entre versos e conselhos, deixou uma mensagem de resistência e esperança. “As manhãs de sol são lindas, mas é preciso também trabalhar nos dias de chuva. Abra os braços, segure na mão de quem estiver na frente e puxe a mão de quem estiver atrás e não confunda a briga com luta. Briga tem hora para acabar e luta é para uma vida inteira”, concluiu o escritor.


O Combinando Palavras continuou às 10h, no Auditório Meira Junior, com educandos da Adevirp – Associação de Deficientes Visuais de Ribeirão Preto. Eles homenagearam a escritora Aline Neli, com apresentações de teatro, música e literatura, todas inspiradas na outra da autora, além da entrega de um livro tátil produzido pelos participantes a partir das suas histórias, reforçando a proposta de tornar a leitura uma experiência acessível e coletiva.


Thalita Rebouças


No início da tarde, o palco principal do Theatro Pedro II recebeu mais uma sessão do Combinando Palavras, desta vez, com a participação da escritora Thalita Rebouças. Cerca de 1.200 alunos da rede estadual de ensino participaram do encontro, que reuniu leituras, dança, teatro e conversas inspiradas na trajetória e nas obras de uma das autoras mais lidas pelo público jovem no Brasil.

 

Na Escola Estadual Hélio Lourenço de Oliveira, o trabalho envolveu diferentes linguagens. A professora de Arte Maria Luciene dos Santos Iona, que participou do projeto pelo segundo ano consecutivo, acompanhou de perto esse processo. “Foi maravilhoso. A maioria deles já tinha lido as obras, e a criação da apresentação foi toda deles - tanto o vestido quanto os outros elementos. Esse projeto traz um crescimento muito grande para eles como jovens. Os livros mostram a importância de ser parceiro, de ser amigo, e essa união de todos foi uma das coisas mais bonitas que o Combinando Palavras trouxe para eles”.

 

A experiência também ganhou um significado especial para os estudantes que já conheciam a obra da autora. Aos 15 anos, Rafaela Souza Lima participou da criação artística da homenagem apresentada durante o encontro. Ela foi responsável, entre outras produções, por um autorretrato da escritora. “Sempre li os livros dela e já conhecia várias obras. Participar do projeto foi muito emocionante. Foram dias de trabalho. Fiquei responsável pela parte artística, pelo quadro e também por outros elementos da apresentação. Foi a primeira vez que consegui desenhar uma pessoa dessa forma e fiquei muito feliz com o resultado. Ainda estou tremendo”, contou.

 

Para as estudantes Kemili Brasil e Francine Ribeiro Chagas, ambas com 15 anos, a oportunidade de apresentar uma criação inspirada na escritora tornou a experiência ainda mais marcante. O grupo construiu coletivamente o texto apresentado no palco, a partir das próprias percepções e sentimentos. “Foi tudo muito mágico. Quando chegou a hora de entrar, bateu um nervosismo, mas foi muito bom. Cada um colocou no texto aquilo que imaginava e aquilo que estava sentindo. A gente falou o que estava no coração”, disseram. As adolescentes também destacaram a presença das obras de Thalita Rebouças em um período marcado por tantas transformações. “A adolescência é uma fase em que muitas vezes a gente acha que ninguém entende o que está acontecendo. E os livros dela estavam ali, mostrando essas fases, as dúvidas e as mudanças que a gente vive”, comentou Francine.

 

Ao conversar com os jovens, Thalita Rebouças também dedicou parte de sua participação aos professores. A escritora fez a leitura de um poema e falou sobre a importância dos educadores na trajetória dos estudantes. “Eu costumo dizer que pais, mães e professores gostam mais de mim que os adolescentes, porque eu boto eles para sair do celular, do YouTube. Então, eu sou muito grata a vocês. Eu queria muito que todos vocês lessem 'Fala Sério, Professor'. A gente não costuma dar valor aos professores. Muitas vezes, só percebe a importância deles quando sente saudade lá na vida adulta. Então, deem valor a essa galera, porque eles são muito importantes”, disse.


Fotos:

@stefranteschi

@eubabifotografa

@vikkafaustini

 
 
 

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