Debates sobre violência doméstica, biodiversidade, desafios geracionais e de educação movimentaram a sexta-feira na FIL
As jornalistas Ana Paula Araújo, Maria Zulmira de Souza, Paulina Chamorro e Thalita Rebouças, e a deputada estadual e escritora Marina Helou participaram de diferentes encontros com o público

A jornalista Ana Paula Araújo esteve sexta-feira (4/9) reunida com o público da 25ª FIL - Feira Internacional do Livro de Ribeirão Preto, para uma conversa sobre violência doméstica e violência contra a mulher, temas que balizam seus livros-reportagem “Abuso: A cultura do estupro no Brasil” e “Agressão: A escalada da violência doméstica no Brasil”. No encontro, que aconteceu na sala principal do Theatro Pedro II, Ana Paula falou sobre o processo de escrita dos livros, resgatou algumas histórias que ouviu durante o trabalho de pesquisa e coleta de depoimentos, e reforçou a importância do pedido de ajuda, do acolhimento e do cumprimento das leis.

A jornalista, que possui mais de 30 anos de carreira, se dedicou por uma década à pesquisa sobre violência contra a mulher e violência doméstica, colhendo depoimentos de vítimas, entendendo a dinâmica desses comportamentos. “Mesmo que eu esteja familiarizada com a entrega de notícias dessa natureza, a experiência de produção dos livros foi bastante pesada para mim. Ouvi histórias e relatos muito fortes e doloridos e vi como o medo ainda rege a vida das mulheres, mesmo que ele não nos proteja de tudo”.
No decorrer da conversa, Ana Paula Araújo reforçou a importância do entendimento sobre as diversas formas de violência contra a mulher para além da física, e destacou a violência psicológica como uma das mais cruéis. “Em muitos casos, o homem nunca encostou um dedo na mulher, no entanto, a agride com palavras grosseiras e de demérito, com cerceamento de sua liberdade, com controle financeiro, com descrédito de suas competências profissionais etc. Embora o Brasil já tenha anotado casos de condenação para agressores com esse perfil, ainda é muito difícil de lidar com essas situações porque não há provas materiais”, explicou a jornalista.
A jornalista encerrou sua participação na FIL reforçando a importância do acolhimento às vítimas de violências sexual e doméstica. “Sair da situação de violência é o momento mais perigoso para a vítima, mas ela não pode desistir de pedir ajuda. No entanto, o Brasil ainda carece de atendimentos mais humanizados, seja nas delegacias, especializadas ou comuns, nos hospitais, no Judiciário, onde o aborto legal para vítimas de estupro ainda é muito difícil de ser autorizado. Mas é preciso que a lei seja cumprida”, sublinhou Ana Paula Araújo.
Caminhos e descaminhos do planeta

Na Tenda Sesc, o começo da noite foi com conversa sobre biodiversidade. A partir do tema “Para entender (quase) tudo sobre biodiversidade” - título homônimo do livro organizado pelos franceses Philippe Grandcolas e Claire Marc e lançado no Brasil pela Edições Sesc São Paulo - as jornalistas e ativistas ambientas Maria Zulmira de Sousa e Paulina Chamorro compartilharam histórias da vida e do cotidiano que estão ligadas à biodiversidade. Criadora e apresentadora do podcast Vozes do Planeta, Paulina iniciou o encontro conceituando a temática central. “A biodiversidade trata a natureza e toda a interdependência que há entre todos os seres vivos e espécies, desde o menor e mais invisível micro-organismo. É uma interdependência intrínseca e pede de nós um pouco mais de amor com nosso planeta”, destacou Chamorro.
Especialista em questões ambientais dentro do jornalismo, Maria Zulmira de Souza - que iniciou sua carreira há mais de 30 anos, no Repórter Eco, na TV Cultura -, lembrou que, em meio aos problemas abarcados pelo tema da palestra, há a importância de pensar os territórios e de mapear o que tem sido feito de bom e as pessoas que estão trabalhando com soluções para melhorar a vida das cidades. “Ribeirão Preto, por exemplo, era mata atlântica e hoje é um mar de cana, com ilhas de biodiversidade. Mas cabe a nós a ativação dos nossos super poderes do coletivo no enfrentamento dessa realidade e suas consequências. As soluções existem e certamente há por aqui iniciativas boas nesse cenário e é preciso conhece-las, apoiá-las, potencializá-las”, disse Zulmira.
Paulina Chamorro reforçou que “a natureza nos traz a possibilidade de sonhar e o sonho nos traz uma possibilidade de esperança. É um processo que nos define como humanos”. As palestrantes também abordaram as questões do antropoceno, que traz a atividade humana como principal força de transformação do clima dos ecossistemas e da superfície da Terra; a perde de conexões importantes com os extremos climáticos, redução da biodiversidade e poluição; e o novo desenho da natureza, agora composta por fauna, flora e funga (comunidades de fungos de um local).
Telas: desafio constante
No auditório da Biblioteca Sinhá Junqueira, a deputada estadual e escritora Marina Helou recebeu o público da FIL para a palestra “Quem está formando nossos filhos? - manifesto por uma infância e adolescência livres de telas”, título também de seu primeiro livro. Nome parlamentar à frente do projeto que proíbe o uso de celular em escolas de Ensino Fundamental e Médio, Marina atualizou os participantes sobre os patamares das discussões legislativas no Estado de São Paulo sobre esse tema e afirmou que, após um ano e meio da vigência da lei, os impactos positivos são altos, especialmente em relação à redução da violência no ambiente escolar e aumento efetivo da aprendizagem.
O medo que pais e mães têm de negar o celular às crianças e adolescentes em embate direto com a negligência de presença com os filhos conduziu o restante da conversa. “Geralmente, os fatores que levam os pais a permitir o acesso livre às telas são a otimização de seu próprio tempo, a ideia de que se todo mundo tem celular, o filho não pode ser excluído desse universo”, enfatizou Marina Helou. Promover mais contato dos filhos com a natureza, ainda que seja na pracinha ao lado de casa, estimular a leitura para a geração que historicamente é a que menos lê, e inserir os filhos na rotina doméstica, estimulando o desenvolvimento da autonomia das crianças e adolescentes, são, de acordo com a deputada, ações possíveis e que faz bem às crianças e adolescentes, tanto em tempo real, como para a vida futura deles. “Nenhum diretor de big techs de tecnologia deixa seus filhos ter celular porque eles sabem o mal que faz. As telas fritam o cérebro da criança e do adolescente, que está em processo de formação”, alertou Marina.
A deputada também abordou a equação presença dos pais x pais presentes. “Vivemos um tempo em que os pais precisam retomar seu papel de adulto nas relações com filhos crianças e adolescentes e recuperar seu espaço de educadores, hoje ocupado pelo celular. E o melhor caminho para isso é o pai e a mãe serem intencionais na importância do vínculo, na relação de responsividade, no cultivo de conexão. O melhor professor sempre é o exemplo”, destacou. Embora estudos recomendem a liberação de celular somente a partir de 14 anos e de redes sociais a partir de 16 anos, Marina reconhece o desafio que os pais têm diante de si, de não deixar os filhos por fora das tecnologias, com o cuidado de não permitir que isso seja prejudicial a eles. “É preciso um esforço coletivo nesse sentido”, disse a palestrante, citando o exemplo da escola onde os seus próprios filhos estudam, em que todos os pais e mães assinaram o pacto de não permissão do uso de celular também em casa.
Todos mundo é desafiado
Na oficina Gera-Lab: produtos para as gerações, o tema central da 25ª FIL - X, Y, Z, Alpha, Beta: Gerações Literárias -, ganhou lugar de destaque. As professoras Graziela Viana e Amanda Campos, do Senac, coordenaram a atividade que propôs aos participantes a dinâmica de mapear os desafios enfrentados por cada geração e encontrar as soluções possíveis para eles. “A ideia é de um intercâmbio entre as realidades de cada grupo geracional, otimizando a empatia e o senso coletivo”, salientou Graziela.
Combinando Palavras

A programação do Combinando Palavras desta sexta-feira reuniu cerca de 950 estudantes de 12 escolas da rede estadual de ensino de Ribeirão Preto e da região para um encontro com o poeta Sérgio Vaz no palco principal do Theatro Pedro II. Referência da literatura periférica brasileira, o escritor foi recebido com apresentações preparadas pelas escolas e participou de uma manhã marcada pela poesia, pela música e pela troca de experiências com os jovens. Emocionado com a recepção, Sérgio definiu o encontro como um dos momentos mais marcantes da sua trajetória. “A primeira palavra que vem é gratidão. Esses jovens, com essa resposta ao meu trabalho, esse é um Prêmio Nobel da Literatura para mim”.
O poeta destacou o envolvimento dos estudantes com sua obra e atribuiu esse resultado ao trabalho desenvolvido por professores e escolas antes da atividade. “O jovem é um urânio enriquecido. A gente precisa trabalhar essa potência”. Durante a conversa, Vaz reforçou o papel da escola como espaço de transformação social e de acesso à literatura. Para o escritor, a educação é o caminho para que os jovens descubram sua própria voz e construam seus projetos de vida. “A escola é um grande caminho para que a gente possa atingir os nossos objetivos”, afirmou.

No encerramento, o poeta recitou um texto em tom de manifesto, incentivando os estudantes a acreditarem em si mesmos, cultivarem os seus sonhos e enfrentarem as dificuldades com a coragem. Entre versos e conselhos, deixou uma mensagem de resistência e esperança. “As manhãs de sol são lindas, mas é preciso também trabalhar nos dias de chuva. Abra os braços, segure na mão de quem estiver na frente e puxe a mão de quem estiver atrás e não confunda a briga com luta. Briga tem hora para acabar e luta é para uma vida inteira”, concluiu o escritor.
O Combinando Palavras continuou às 10h, no Auditório Meira Junior, com educandos da Adevirp – Associação de Deficientes Visuais de Ribeirão Preto. Eles homenagearam a escritora Aline Neli, com apresentações de teatro, música e literatura, todas inspiradas na outra da autora, além da entrega de um livro tátil produzido pelos participantes a partir das suas histórias, reforçando a proposta de tornar a leitura uma experiência acessível e coletiva.
Thalita Rebouças

No início da tarde, o palco principal do Theatro Pedro II recebeu mais uma sessão do Combinando Palavras, desta vez, com a participação da escritora Thalita Rebouças. Cerca de 1.200 alunos da rede estadual de ensino participaram do encontro, que reuniu leituras, dança, teatro e conversas inspiradas na trajetória e nas obras de uma das autoras mais lidas pelo público jovem no Brasil.
Na Escola Estadual Hélio Lourenço de Oliveira, o trabalho envolveu diferentes linguagens. A professora de Arte Maria Luciene dos Santos Iona, que participou do projeto pelo segundo ano consecutivo, acompanhou de perto esse processo. “Foi maravilhoso. A maioria deles já tinha lido as obras, e a criação da apresentação foi toda deles - tanto o vestido quanto os outros elementos. Esse projeto traz um crescimento muito grande para eles como jovens. Os livros mostram a importância de ser parceiro, de ser amigo, e essa união de todos foi uma das coisas mais bonitas que o Combinando Palavras trouxe para eles”.

A experiência também ganhou um significado especial para os estudantes que já conheciam a obra da autora. Aos 15 anos, Rafaela Souza Lima participou da criação artística da homenagem apresentada durante o encontro. Ela foi responsável, entre outras produções, por um autorretrato da escritora. “Sempre li os livros dela e já conhecia várias obras. Participar do projeto foi muito emocionante. Foram dias de trabalho. Fiquei responsável pela parte artística, pelo quadro e também por outros elementos da apresentação. Foi a primeira vez que consegui desenhar uma pessoa dessa forma e fiquei muito feliz com o resultado. Ainda estou tremendo”, contou.
Para as estudantes Kemili Brasil e Francine Ribeiro Chagas, ambas com 15 anos, a oportunidade de apresentar uma criação inspirada na escritora tornou a experiência ainda mais marcante. O grupo construiu coletivamente o texto apresentado no palco, a partir das próprias percepções e sentimentos. “Foi tudo muito mágico. Quando chegou a hora de entrar, bateu um nervosismo, mas foi muito bom. Cada um colocou no texto aquilo que imaginava e aquilo que estava sentindo. A gente falou o que estava no coração”, disseram. As adolescentes também destacaram a presença das obras de Thalita Rebouças em um período marcado por tantas transformações. “A adolescência é uma fase em que muitas vezes a gente acha que ninguém entende o que está acontecendo. E os livros dela estavam ali, mostrando essas fases, as dúvidas e as mudanças que a gente vive”, comentou Francine.
Ao conversar com os jovens, Thalita Rebouças também dedicou parte de sua participação aos professores. A escritora fez a leitura de um poema e falou sobre a importância dos educadores na trajetória dos estudantes. “Eu costumo dizer que pais, mães e professores gostam mais de mim que os adolescentes, porque eu boto eles para sair do celular, do YouTube. Então, eu sou muito grata a vocês. Eu queria muito que todos vocês lessem 'Fala Sério, Professor'. A gente não costuma dar valor aos professores. Muitas vezes, só percebe a importância deles quando sente saudade lá na vida adulta. Então, deem valor a essa galera, porque eles são muito importantes”, disse.
Fotos:
@stefranteschi
@eubabifotografa
@vikkafaustini






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Ana Paula Araújo's point about psychological violence being harder to prosecute because there is no material evidence deserves more attention. It raises a real question: how can institutions and support networks document patterns of control, financial restriction, and verbal degradation in ways that carry legal weight without revictimizing women? The absence of physical marks does not mean the absence of harm, yet the burden of proof often falls on those least able to gather it.
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