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“Não recebo essa homenagem sozinha”, afirma Daniela Penha na 25ª FIL

  • há 9 horas
  • 6 min de leitura

Em conversa conduzida pela produtora e escritora Juliana Judice, autora ribeirão-pretana compartilhou o reconhecimento com as mais de 500 pessoas cujas histórias registrou

A homenagem recebida por Daniela Penha na 25ª FIL – Feira Internacional do Livro de Ribeirão Preto ganhou um sentido coletivo durante o encontro com a autora ribeirão-pretana. Mediado pela produtora e escritora Juliana Judice, o bate-papo transcorreu como uma conversa   conduzida por lembranças, afetos e reflexões sobre a força das histórias de vida.

 

Com perguntas que aproximaram a convidada de sua própria experiência, Juliana abriu caminhos para que Daniela revisitasse a infância, a formação no Jornalismo, o nascimento de seus projetos e o envolvimento emocional com as pessoas que entrevista. Entre recordações e episódios de sua carreira, a autora dividiu o reconhecimento com as mais de 500 pessoas cujas histórias ajudou a registrar.


“Eu não recebo essa homenagem sozinha. Eu recebo essa homenagem com as mais de 500 histórias de vida que eu pude contar”, afirmou Daniela, emocionada ao reconhecer na plateia algumas das pessoas que já havia entrevistado.

 

A declaração sintetizou uma vida profissional construída a partir do interesse pelas experiências humanas. Jornalista e escritora, Daniela encontrou nos relatos pessoais uma maneira de preservar lembranças e dar visibilidade a pessoas que, muitas vezes, permanecem à margem das narrativas habitualmente registradas.

 

Durante a conversa com Juliana, ela percorreu momentos de sua formação, falou sobre as escolhas que moldaram sua escrita e revelou o desejo de desenvolver um projeto dedicado às histórias de Ribeirão Preto. Para Daniela, a homenagem representa não apenas o reconhecimento pelo trabalho realizado, mas também um chamado para continuar.

 

Da necessidade de falar ao compromisso de escutar


A relação de Daniela com as palavras começou ainda na infância. Frequentadora assídua da biblioteca da escola, ela encontrava nos livros um território de descoberta. Na escrita, buscava uma maneira de organizar sentimentos que nem sempre conseguia expressar de outra forma.

 

“Eu escrevia quase como um ato de sobrevivência. Eu escrevia para ser escutada, porque não havia tanta escuta. A escrita nasceu para mim como esse lugar de desabafo, de precisar falar, de administrar o que se passava dentro de mim e dar lugar a sentimentos que não tinham escuta”, afirmou.

 

Com o tempo, o movimento inicialmente íntimo se voltou para o outro. A necessidade de ser ouvida ajudou a formar uma escritora interessada em oferecer escuta. Ainda criança, Daniela já se sentia atraída pela simultaneidade das experiências que compõem a existência humana.

 

“Mais do que a escrita, as pessoas sempre me encantaram. Eu me lembro de que, quando criança, ficava intrigada ao pensar que, em um mesmo segundo, uma pessoa estava nascendo, outra estava morrendo, outra estava comendo. A vida das pessoas sempre me encantou muito”, disse.

 

No curso de Jornalismo, o contato com o jornalismo literário e com iniciativas voltadas ao registro de relatos pessoais ajudou a consolidar esse interesse. Quando começou a entrevistar pessoas, percebeu que uma existência não poderia ser reduzida a datas, acontecimentos ou informações biográficas.

 

“A primeira entrevista que fiz já me mostrou que não seriam pequenas histórias. As pessoas tinham muito a dizer, e eu não tinha nenhuma condição de resumir a vida delas a dois ou três dados. Não dava para resumir uma vida em três parágrafos. Era impossível para mim”, contou.

 

A escuta, em seu trabalho, passou a representar mais do que uma etapa da entrevista. Tornou-se uma forma de reconhecer o outro e permitir que cada pessoa se apropriasse da própria experiência. Ao transformar os relatos em textos, livros e exposições, Daniela ampliou a circulação dessas memórias e aproximou os personagens dos leitores.

 

Uma escrita atravessada pelas histórias

 

A sensibilidade que marca seus textos também torna o processo de criação mais demorado e emocionalmente exigente. Daniela reconheceu que não consegue se aproximar de uma experiência sem ser afetada por ela.

 

“Porque eu também sou uma pessoa muito sensível, então quando eu chego perto das histórias das pessoas, eu me contamino por essas histórias. Também é difícil, também demora, me machuca muito em alguns relatos”.

 

Uma de suas maiores preocupações é fazer com que o entrevistado se reconheça no texto. Para isso, grava as conversas, preserva as falas e observa gestos, ambientes e detalhes capazes de transportar o leitor para a situação narrada. O objetivo não é apenas reconstituir acontecimentos, mas registrar a forma como aquela pessoa se apresentou durante o encontro.

 

Daniela também questionou a ideia de que o jornalista possa desaparecer completamente daquilo que escreve. Segundo ela, a escolha das palavras, a condução da entrevista e a maneira de organizar uma narrativa carregam inevitavelmente a presença de quem produz o texto.

 

“Não tem como você inexistir dentro de um texto, porque é você que o escreveu.  Acho que isso é uma marca minha e sempre foi. Quando falavam que meu texto era sensível ou emotivo, eu pensava: eu sou assim”, declarou.

 

Essa aproximação não significa abandonar os princípios da apuração jornalística. Para Daniela, o jornalismo literário permite acolher a dimensão subjetiva das experiências, mas continua comprometido com a verificação das informações. A memória pode ser influenciada pelo tempo e pelas emoções, enquanto os fatos que envolvem instituições e outras pessoas precisam ser confirmados.

 

“O afeto a gente não checa. A memória se transforma. Se eu entrevistar uma pessoa hoje e voltar a conversar com ela daqui a um ano, provavelmente ela vai contar a história de outra maneira, porque fala a partir de um momento da vida e daquilo que está sentindo naquele dia. Mas os fatos cronológicos precisam coincidir, principalmente quando envolvem uma instituição ou outras pessoas”, explicou.

 

O processo de escrita também exige uma pausa entre o encontro e a elaboração do perfil. Em vez de produzir o texto imediatamente, Daniela prefere permitir que imagens, falas e sensações permaneçam por algum tempo dentro dela.

 

“Eu não gosto de escrever na hora, nem no mesmo dia, assim, o lance do texto que fica crescendo igual pão. Comigo isso também acontece muito. Eu gosto de esperar uns dias e aí eu acho que as coisas vão acontecendo ali dentro, né? E depois elas saem, assim.”

 

O relato como semente de empatia

Entre as experiências recordadas no encontro, Daniela destacou a história de Cidinha, mulher que sofreu tortura durante a ditadura. A entrevista exigiu que a personagem encontrasse o próprio tempo para atravessar lembranças dolorosas. Quando o relato começou a ganhar corpo, não havia espaço para interrupções.

 

“A história da Cidinha foi a mais difícil que escrevi. Nós ficamos oito horas sentadas no sofá, levantando apenas para ir ao banheiro. Para ela, era muito difícil falar. Quando começou, eu não tinha como interromper. Saí da casa dela, entrei no carro e não conseguia dirigir. Estava completamente impactada e emocionalmente exausta por ter escutado tudo aquilo”, relatou.

 

O envolvimento continuou durante a elaboração do texto. Ao escrever, Daniela voltou a sentir a dor daquele encontro, mas compreendeu que o testemunho ultrapassava uma experiência individual e ajudava a iluminar um período da história brasileira.

 

“Essa história precisa ser contada e registrada, principalmente para que isso não se repita. Por meio do relato humano de uma mulher que viveu a tortura, talvez a gente consiga compreender a dimensão do que aconteceu. Eu acredito muito no relato como exemplo, como semente de empatia”, afirmou.

 

Para a autora, escrever perfis significa encontrar uma forma de acolher a dor sem retirar sua força histórica. É preservar os fatos e, ao mesmo tempo, permitir que o leitor se aproxime da pessoa que existe por trás dos acontecimentos.

 

Esse princípio também orientou o desenvolvimento do projeto História do Dia. O que começou com a publicação frequente de perfis se desdobrou em livros, exposições e encontros com personagens e leitores. As obras nasceram do desejo de retirar essas experiências da fugacidade do cotidiano e transformá-las em registros capazes de permanecer.

 

As histórias de Ribeirão Preto ainda por contar

 

A relação com a cidade permeou outro momento da conversa. Daniela contou que alimenta há anos o desejo de realizar um projeto dedicado às histórias de pessoas de Ribeirão Preto. Para ela, o município reúne experiências que merecem ser ouvidas, organizadas e preservadas. “Ribeirão tem potencial para isso. Eu acho que Ribeirão é uma cidade, sabe, que comporta isso e que tem muita história.” O projeto já foi iniciado, interrompido e retomado em diferentes momentos. A homenagem na 25ª FIL, porém, reacendeu o desejo de dar continuidade à proposta.

 

“Eu sinto que, se eu não der vazão a isso, eu não vou ser feliz completamente, assim, sabe? Então, essa homenagem, eu acho que ela vem também com um chamamento interior, assim, de que, ó, vamos lá, né? Vamos lá, é o que te faz feliz.”

 

Ao compartilhar o reconhecimento com as centenas de pessoas que confiaram a ela suas memórias, Daniela reafirmou a dimensão coletiva de sua produção. Em seu trabalho, cada história preserva uma experiência individual, mas também ajuda a compor o retrato de uma época, de uma comunidade e da cidade onde essas vidas se encontram.

 

A homenagem recebida na FIL celebra, assim, uma autora que começou a escrever para ser escutada e fez da literatura um espaço de escuta para o outro. Um trabalho que transforma lembranças pessoais em memória coletiva e que permanece aberto às muitas histórias de Ribeirão Preto ainda à espera de quem possa ouvi-las.

 
 
 

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