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Rita von Hunty debate desejo, poder e resistência na FIL

  • há 5 horas
  • 4 min de leitura

Com mediação de Renan Quinalha, conferência analisou a construção das homossexualidades, o uso político da homofobia e as mobilizações por direitos


Foto: Sté Frateschi
Foto: Sté Frateschi

As relações entre desejo, sexualidade e poder estiveram no centro da conferência “Desejos em revolução: homossexualidades e mudanças políticas”, realizada às 20h30, na Sala Principal do Theatro Pedro II, durante a 25ª Feira Internacional do Livro de Ribeirão Preto. Com participação de Rita von Hunty e mediação de Renan Quinalha, o encontro analisou a construção histórica das identidades, as formas de controle sobre os corpos e o uso político da homofobia em diferentes contextos. A conversa também relacionou essas questões às desigualdades de gênero, raça e classe e aos processos de mobilização por direitos.

 

A publicação que dá nome à conferência serviu como ponto de partida para o debate. Organizada em quatro eixos, a obra reúne textos sobre marxismo e sexualidade, experiências revolucionárias, contrarrevoluções e a reorganização dos movimentos sociais a partir da efervescência política e cultural dos anos 1960. Segundo Renan, o livro recupera diferentes formas de aproximação e conflito entre movimentos de esquerda e dissidências sexuais.

 

O mediador observou que grupos progressistas empenhados em reorganizar o Estado, a economia e a sociedade nem sempre conseguiram transformar os vínculos afetivos, familiares e íntimos. Regimes fascistas, por sua vez, incorporaram a perseguição às homossexualidades aos seus projetos de controle e eliminação das diferenças.


Foto: Sté Frateschi
Foto: Sté Frateschi

“Uma coisa é a desconfiança desses desejos, outra coisa é efetivamente querer eliminar esse desejo e essas pessoas porque elas são consideradas disfuncionais ou fruto de uma decadência moral”, afirmou Renan. A análise situou a homofobia não como um fenômeno uniforme, mas como instrumento acionado de maneiras específicas conforme os interesses políticos de cada período.

 

Rita von Hunty ampliou a reflexão ao explicar que as identidades são produzidas por discursos médicos e jurídicos, valores religiosos, normas culturais e relações de dominação. Um corpo, ressaltou, não é apenas descrito: ele é narrado e recebe significados que mudam ao longo do tempo. “Narrar é movimento e, para que exista gay como identidade, você precisa de um longo processo histórico produzindo gay como identidade”, disse.


Foto: Sté Frateschi
Foto: Sté Frateschi

Ao recorrer ao pensamento de Michel Foucault, Rita mostrou que práticas afetivas e sexuais podem assumir sentidos distintos em cada sociedade. “Quando Foucault fala em história da sexualidade, é porque o jeito que transamos é histórico. O que é prazer, o que é ofensa, o que é sagrado e profano, o que é higiênico e perverso, o que é direito está determinado pela história”, afirmou.

 

Renan lembrou que a categoria “homossexual” surgiu no século XIX, inicialmente vinculada a um tratado de psicopatologia sexual. Por essa razão, comportamentos observados em sociedades antigas não podem ser interpretados automaticamente com os conceitos empregados no presente. Embora existissem relações entre pessoas do mesmo sexo, elas eram compreendidas a partir de outros códigos, hierarquias e posições sociais.

 

A linguagem também apareceu como espaço de reprodução das desigualdades. Ao citar expressões populares e diferenças de sentido entre termos associados ao masculino e ao feminino, Rita demonstrou como o idioma carrega marcas dos processos que o produziram. “Não existe ‘à toa’. Existe processo histórico, material, grupo dominante, grupo dominado”, sintetizou.

 

A conferencista abordou ainda a sobreposição de diferentes formas de exclusão. “Quando elas vão se interseccionando, quando você tem uma mulher trans, negra, PCD, a capacidade de reconhecer aquele corpo como humano vai desaparecendo do debate”, afirmou.

 

Ao tratar do racismo estrutural, Rita analisou como determinados grupos foram historicamente reduzidos a categorias utilizadas para justificar inferiorização e afastamento social. “A história brasileira é tão racista que a gente produziu uma raça chamada nordestino, sertanejo”, declarou, ao comentar como procedência, condição econômica e traços culturais podem ser mobilizados em processos de desumanização.

 

A formação do movimento LGBTI+ no Brasil ganhou espaço quando Renan recuperou as articulações realizadas durante a ditadura. Naquele período, diferentes grupos debatiam se deveriam concentrar a atuação em pautas específicas ou estabelecer alianças com o movimento sindical, o feminismo e o Movimento Negro Unificado. “Nossas pautas não são só um mundo de LGBT felizes. A gente quer efetivamente uma libertação para todo mundo”, disse, ao reconstituir o posicionamento dos setores que associavam o enfrentamento à homofobia a um projeto mais amplo de transformação social.

 

As conquistas obtidas desde então, observou o mediador, não seguem um percurso linear nem permanecem asseguradas sem participação coletiva. “Nada está garantido na história. Está tudo por fazer sempre. Cada geração tem que fazer a sua parte, fazer de novo, fazer melhor”, afirmou.

 

Rita relacionou as reações conservadoras contemporâneas à presença crescente de mulheres, pessoas negras e indígenas, integrantes da população LGBTI+ e outros grupos historicamente afastados dos espaços de decisão. Para ela, as tentativas de restringir direitos também evidenciam o impacto das mudanças alcançadas. “Onde existe poder é porque existe resistência. Não precisa existir poder onde não tem ninguém resistindo”, declarou.

 

Foto: Sté Frateschi
Foto: Sté Frateschi

A produção e a circulação do conhecimento foram apresentadas como recursos para contestar valores tratados como naturais, universais ou permanentes. “O trabalho contra-hegemônico reside na capacidade de mostrar que o sempre nunca existiu”, afirmou Rita. Ao recuperar pesquisas, livros e documentos produzidos por diferentes gerações, ela destacou a importância de preservar a memória das experiências que confrontaram os discursos dominantes.

 

Para dimensionar a proximidade de algumas conquistas sociais, Rita reuniu acontecimentos políticos e referências da cultura popular. Lembrou que, quando Walt Disney lançava seu primeiro desenho animado colorido, em 1932, as brasileiras começavam a conquistar o direito de votar e serem votadas. Em 1977, ano da estreia de Star Wars nos cinemas, o divórcio passava a ser permitido no Brasil. Já em 1988, quando Ayrton Senna conquistava seu primeiro título mundial de Fórmula 1, mulheres e homens foram reconhecidos como iguais perante a Constituição.

 

Rita recordou ainda que, em 2002, a virgindade feminina permanecia na legislação brasileira como motivo para a anulação do casamento. Somente em 2023 uma mulher casada deixou de precisar da autorização por escrito do marido para realizar uma laqueadura. Os exemplos mostraram como direitos atualmente compreendidos como fundamentais resultam de processos recentes e permanecem sujeitos a retrocessos. “Não foi há tanto tempo. A democracia é uma luta constante”, concluiu.

 
 
 

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