Mia Couto defende a escuta e a oralidade como fontes da literatura
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O autor moçambicano esteve com o público da feira, em conferência que lotou o Theatro Pedro II. A conversa, com recortes pessoais, científicos, históricos e tecnológicos, construiu um painel sobre a relação de Couto com a literatura, abordando de referências familiares à invasão da IA na escrita de livros

A conferência com o escritor Mia Couto encerrou a programação de quarta-feira (2) da 25ª FIL – Feira Internacional do Livro de Ribeirão Preto. Com a Sala Principal do Theatro Pedro II lotada, o autor moçambicano reencontrou o público da feira para uma conversa sobre sua trajetória e os caminhos da criação literária. Oralidade, memória, identidade, ciência, natureza, vida, morte e inteligência artificial estiveram entre os temas abordados.
Com mediação de Dulce Neves, jornalista e secretária municipal da Cidadania e Pessoa com Deficiência de Ribeirão Preto, Mia Couto abriu sua fala ressaltando a importância da escuta para o processo da escrita e relembrou memórias das histórias que ouvia de sua mãe na infância. “Meus pais eram imigrantes portugueses em Moçambique e sabiam que nunca mais veriam os meus avós. Mas minha mãe fazia com que eles fossem presença viva em nossa casa por meio das histórias que contava. Escutar aquelas narrativas era a possibilidade de fazer existir quem não estava presente”, revelou Couto.
O manejo da língua portuguesa em diálogo com as variações linguísticas de Moçambique, um dos traços de sua obra, também esteve presente na conferência. “Em Moçambique, há 28 línguas indígenas que seguem vivas e são faladas diariamente. E eu queria, por meio da literatura, contar a história do meu país, eu queria traduzir essa outra realidade, como no Brasil, onde ainda é uma língua portuguesa, mas que traduz uma outra cultura. Isso é um fantástico exercício de contemporaneidade”, contou o escritor.

Formado em Biologia e atuante na área, Mia Couto consentiu que faz associações entre o campo da ciência e da literatura. “Em meu trabalho de campo como biólogo, sempre pergunto às pessoas como se diz na língua delas alguma coisa que, para mim, seria universal. Não havendo palavra correspondente, fica claro que aquela pessoa pensa o mundo de uma outra maneira e para traduzir isso em português, só por meio da poesia”, refletiu..O escritor também destacou sua participação no projeto Combinando Palavras, uma das ações de formação de leitores desenvolvidas pela FIL. Antes da conferência, Mia Couto encontrou-se com alunos do Ensino Médio que, desde o início do ano letivo, leram e estudaram sua obra. A partir desse contato, os estudantes produziram releituras em diferentes linguagens artísticas. “Não há nada que se compare a essa iniciativa, que movimenta escolas e estudantes. Fiquei muito tocado com a produção de artes apresentada pelos alunos”, entregou Mia Couto.
Durante a conversa, Dulce Neves observou que o livro Terra Sonâmbula (primeiro romance e principal título de Couto), que trata de guerra, devastação e dor, produziu nos adolescentes do Combinando Palavras uma acentuada percepção de esperança e provocou o escritor sobre como isso é possível. “A ausência de esperança é um luxo que nossos povos não podem ter. Então, temos que ter esperança porque é ela que amarra as pessoas à sobrevivência”, respondeu Mia Couto, admitindo que a escrita da obra foi um ato de resistência. “Tive muitos amigos mortos pela guerra e senti que, assim como minha mãe fazia com meus avós, eu precisava manter essas pessoas vivas. Um dever de amizade e humanidade com aquelas pessoas. E esse livro partiu disso”, completou.

O encontro ainda rendeu espaço para abordagem de outro viés presente nos livros do autor: a relação humana com a natureza. “As árvores vieram antes de nós e precisamos ter respeito com a natureza. A cidade precisa ter uma certa respiração, um pulmão. Por isso, não gosto de olhar uma árvores como algo paisagístico. Perder a relação entre nós e esse outro mundo, da natureza, nos faz ser pequenos. Para sermos felizes, temos que entender que não somos o centro de tudo”, advertiu o conferencista. Ele também agradeceu a influência da literatura brasileira em sua trajetória. “Os grandes autores que me autorizaram a escrever como eu escrevo são brasileiros. Muito antes de eu sonhar que eu poderia atravessar o Atlântico e vir aqui, o Brasil existia em minha casa pela voz dos poetas, dos cantores, dos escritores”.
Por fim, Mia Couto comentou sobre sua inquietação com a inteligência artificial substituindo a escrita livre. “Penso que tenho que aceitar a IA como uma ferramenta, porém, não quero ser ferramenta da IA. A primeira pergunta a se fazer é quem é o dono da IA. E a segunda é quem vai regulamentar isso no mundo. Acredito que estamos sendo vítimas do não saber distinguir um pensamento mecanicista daquele que é gerado pelo cérebro. Comparar cérebro com computador é um erro básico porque nosso cérebro não cria peças, mas é uma entidade viva e máquina alguma pode realizar o que ele realiza. Idolatramos tanto a máquina que perdemos a paixão pelo que tem vida. Perdemos o encantamento”, finalizou Mia Couto. Com obra literária extensa, que inclui poesia, contos, romance e crônicas, o escritor tem livros publicados em mais de 22 países.






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