Monja Coen e Gustavo Arns tratam a felicidade como prática
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Em diálogo na 25ª FIL, conferencistas aproximaram ciência, filosofia e espiritualidade para refletir sobre impermanência, sofrimento e responsabilidade diante da existência

A pergunta “Ser feliz: é possível?” orientou o encontro entre Monja Coen e o especialista em ciência da felicidade Gustavo Arns, na noite de 1º de setembro (terça-feira), na Sala Principal do Theatro Pedro II. A conferência integrou a programação da 25ª FIL – Feira Internacional do Livro de Ribeirão Preto.
Autores de O que é preciso para ser feliz?, os dois conferencistas construíram um diálogo entre tradições contemplativas e estudos científicos sobre o bem-estar. A felicidade foi abordada para além de uma condição permanente ou de um sinônimo de alegria, a partir da maneira como cada pessoa se relaciona com as próprias emoções, experiências e escolhas.
Antes da conversa, Monja Coen conduziu o público em um breve exercício de meditação. Ao comentar a prática, Gustavo Arns destacou a importância de dirigir a atenção ao momento presente. “Nossa mente nem sempre está onde nós estamos. E essa prática nos ajuda a realmente chegar”, afirmou.
Felicidade para além da alegria
Monja Coen partiu da impermanência para questionar a expectativa de uma felicidade constante. “Não há nada fixo, nem nada permanente. Por que eu quero um estado permanente para mim?”, questionou.
Segundo a monja, a vida compreende períodos de plenitude, mas também momentos de neutralidade, tristeza, insatisfação, doença e dificuldade. A felicidade, nessa perspectiva, está relacionada à forma como cada pessoa atravessa e compreende as diferentes experiências. “Para mim, felicidade tem a ver com isto. Como é que nos tornamos pessoas mais macias?”, afirmou. Ela explicou que a expressão “pessoas mais macias” relaciona a felicidade a uma transformação baseada em sabedoria, gentileza e amorosidade.
Gustavo Arns estabeleceu uma distinção semelhante a partir da ciência da felicidade. “Alegria é uma emoção, assim como a tristeza, assim como o medo, assim como a raiva. E as emoções acontecem uma em sequência da outra ou até ao mesmo tempo”, explicou.
Arns apresentou o conceito desenvolvido pelo pesquisador Tal Ben-Shahar, que lecionou em Harvard, segundo o qual a felicidade articula diferentes dimensões do bem-estar: física, emocional, intelectual, relacional e espiritual. Esse cuidado também envolve reconhecer a participação do indivíduo na própria vida. “A autorresponsabilidade é um dos pilares principais do autoconhecimento”, destacou.
Monja Coen aproximou o tema da antiga máxima “Conhece-te a ti mesmo”. Para ela, as pessoas frequentemente dirigem mais atenção ao comportamento alheio do que à observação dos próprios pensamentos, emoções e sentimentos.
Uma habilidade que pode ser desenvolvida

Ao apresentar estudos do neurocientista Richard Davidson sobre o cérebro e o bem-estar, Gustavo Arns abordou a felicidade como uma capacidade passível de desenvolvimento. “Se é uma habilidade, quer dizer que pode ser aprendida, praticada, cultivada, desenvolvida”, afirmou.
O especialista mencionou pesquisas com praticantes de meditação, entre eles monges ligados ao Dalai Lama, que aproximaram descobertas da neurociência de práticas contemplativas. Essa convergência também esteve na origem do livro escrito com Monja Coen.
Arns recuperou ainda a definição atribuída ao monge budista Matthieu Ricard de que “A felicidade é apenas um estado da mente”. “É um estado que se chega com muita prática. É um estado que se chega com muito treinamento”, acrescentou.
O lugar da dor na experiência humana
Ao discutir o sofrimento, Monja Coen advertiu que a busca pela felicidade deve acolher também as experiências dolorosas, capazes de produzir aprendizado e ampliar a compreensão sobre o que outras pessoas enfrentam.
A monja contou a experiência de sua superiora no Japão, uma mulher de 93 anos que passou a agradecer não apenas pela recuperação de diferentes doenças, mas também pelo aprendizado proporcionado por elas. “Graças às enfermidades eu me tornei uma pessoa melhor. Se vou visitar alguém no hospital agora, eu sei o que é estar no hospital. Eu sei o que é passar por essa dificuldade”, relatou.
Para a conferencista, a experiência exemplifica uma plenitude que independe da continuidade da alegria. “Tem momentos de alegria, tem momentos de tristeza, mas tem um estado maior. Que é um estado de plenitude, de prazer na existência, de estar vivo”, afirmou.
Interdependência e responsabilidade
A reflexão avançou da experiência individual para a dimensão coletiva. Monja Coen apresentou o conceito budista de interdependência, segundo o qual nenhuma pessoa ou forma de vida existe isoladamente. “Eu só existo porque as outras formas de vida existem, porque os outros seres humanos existem”, afirmou.
Ao citar a cadeia de pessoas, materiais e elementos naturais envolvida na construção do Theatro Pedro II, resumiu: “Não tem ninguém separado de ninguém. A ideia de separatividade é uma ilusão de ótica”, afirmou.
O reconhecimento da interdependência foi relacionado à responsabilidade pelas escolhas e ações. Admitir que raiva, tristeza e frustração fazem parte da experiência humana, ressaltou a monja, não afasta a responsabilidade de cada pessoa pela maneira como reage ao que sente e pelos efeitos de suas atitudes.
Perguntas que atravessam a vida
Ao tratar da inteligência espiritual, Gustavo Arns destacou a importância de manter abertas questões como quem somos, de onde viemos, para onde vamos e qual é o sentido da vida. “As nossas respostas vão mudando, porque as nossas necessidades não são sempre as mesmas”, afirmou.
A observação retomou uma das ideias centrais da conferência: a felicidade como uma relação consciente com a existência, e não como um ponto de chegada definitivo. “Nós precisamos de uma prática. Que é esse cultivo que vai fazer que uma felicidade genuína possa florescer dentro de nós. Mas que precisa ser cultivado”, concluiu Gustavo Arns.
Ao final do encontro, Monja Coen e Gustavo Arns participaram de uma sessão de autógrafos da obra que deu origem ao diálogo apresentado na 25ª FIL.






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