top of page

Resultados da Busca

357 resultados encontrados com uma busca vazia

  • Cine Fórum promove reflexão com o filme As Virgens Suicidas

    A Fundação do Livro e Leitura de Ribeirão Preto realizou no sábado (13/9), mais uma edição do Cine Fórum, com exibição e debate do filme As Virgens Suicidas (1999), de Sofia Coppola. O encontro, gratuito e aberto ao público, aconteceu na sede da entidade e foi conduzido pelos Gêmeos do Cinema, André e Marcos de Castro. Durante o debate, os coordenadores destacaram a importância da obra tanto no contexto histórico quanto na atualidade. Para André de Castro, o filme “marca a estreia de uma diretora que já se revelava completa. Coppola conseguiu transformar o universo literário de Jeffrey Eugenides para o cinema com sensibilidade e fidelidade, criando uma narrativa visual poderosa”. Marcos ressaltou que o longa segue provocando reflexões contemporâneas. “Nos anos 1970, o aprisionamento vinha da repressão familiar e religiosa, hoje, pode ir da dependência digital e das pressões sociais. A forma muda, mas o sentimento de confinamento persiste”, afirmou. Encerrando a sessão, o público participou de uma roda de conversa sobre as interpretações do filme. “Mais do que assistir a uma obra, o Cine Fórum busca criar um espaço de transformação, onde o cinema desperta a empatia e o diálogo”, concluiu André.

  • Sarau reuniu literatura e expressão artística na Fundação do Livro e Leitura

    A Fundação do Livro e Leitura de Ribeirão Preto abriu oficialmente sua programação cultural de setembro com o tradicional sarau do Grupo de Médicos Escritores e Amigos Dr. Carlos Roberto Caliento. O encontro, realizado na sede da entidade, contou com a presença de escritores, leitores e admiradores da literatura, reafirmando o compromisso da Fundação em valorizar a produção cultural local. Coordenado pelo médico e escritor Nelson Jacintho, o evento, que há quase duas décadas promove a arte e o diálogo entre diferentes gerações, proporcionou uma noite de trocas literárias e reflexões sobre o papel da escrita como forma de expressão e identidade. “Nosso sarau é um espaço aberto para quem ama a literatura, escreve ou quer começar a escrever. Ribeirão Preto tem uma força literária admirável, e encontros como este mantêm essa chama acesa”, destacou Jacintho.

  • 24ª FIL reúne 274 mil pessoas e anuncia tema para próxima edição de 25 anos

    Consolidado entre os maiores eventos da América Latina, a Feira Internacional do Livro de Ribeirão Preto contou com mais de 500 atividades em 25 espaços da cidade e reforçou o papel da literatura como ponte de encontros e transformações Show de Chico César na 24ª FIL (Foto: Sté Frateschi) Reconhecida como uma das quatro maiores feiras literárias a céu aberto da América Latina, a FIL (Feira Internacional do Livro de Ribeirão Preto) encerrou sua 24ª edição neste domingo, 24 de agosto, com um público de 274 mil pessoas ao longo de 10 dias de programação. Segundo a organização, a feira reafirmou seu impacto cultural e social ao reunir mais de 230 autores em mais de 500 atividades distribuídas em 25 espaços da cidade, envolvendo 21 livrarias e expositores, além de cerca de 200 pessoas contratadas diretamente e 140 monitores para atendimento ao público. Neste ano, a FIL teve como eixo central o tema “ Futuros Possíveis: entre linhas e parágrafos”,  inspirado na obra do sociólogo e escritor italiano Domenico De Masi, especialmente no livro Caminhos da cultura no Brasil: um olhar sobre o futuro. Como já é tradição, a Feira homenageou quatro autores em 2025: Domenico De Masi (escritor), Djamila Ribeiro (categoria Educação), André Luiz Oliveira (infantojuvenil) e Matheus Arcaro (autor de Ribeirão Preto). O patrono da edição foi o executivo do agronegócio Hugo Cagno Filho. Educação e participação estudantil A programação manteve o compromisso com a formação de leitores. Cerca de 35 mil alunos passaram pelos espaços da FIL. Um dos destaques foi a retomada do Vale Livro pela Prefeitura, após 12 anos, em parceria com a Fundação do Livro e Leitura. A ação beneficiou 10.630 alunos do 6º ao 9º ano do Ensino Fundamental II e da EJA da rede municipal, cada um recebendo R$ 30,00 em vales para troca exclusiva por livros nos estandes credenciados. Outros 16.500 estudantes da rede estadual também tiveram acesso ao benefício, somando 27.130 contemplados. O investimento foi de aproximadamente R$ 500 mil da Prefeitura e R$ 779.630,00 do Governo do Estado. Projeto Combinando Palavras Combinando Palavras com Djamila Ribeiro (Foto: Sté Frateschi) Consolidado como uma das principais iniciativas da Feira, o Combinando Palavras chegou à sua 8ª edição reunindo cerca de 9 mil estudantes de Ribeirão Preto e região. O projeto aproxima jovens leitores de autores brasileiros contemporâneos por meio da leitura, análise e diálogo com as obras. Neste ano, participaram os escritores André Luiz Oliveira, Marilia Marz, Rafael Calça, Milton Hatoum, Raphael Montes, Socorro Accioli, Stella Maris Rezende, Cidinha da Silva, Mauricio Negro, Luiz Puntel e Djamila Ribeiro.  O ponto alto foram as apresentações estudantis, nas quais os jovens mostraram suas produções e interagiram diretamente com os autores. “Mais do que incentivar a leitura, o Combinando Palavras tem se mostrado uma experiência de transformação em sala de aula, impactando práticas pedagógicas e aproximando a literatura da vida cotidiana dos estudantes”, destaca a gestora executiva da Fundação do Livro e Leitura, Priscila Altran. Desde sua criação, o projeto já envolveu 230 escolas, 300 professores, 50 mil estudantes de 14 cidades e 40 escritores, tornando-se referência em formação de leitores e participação juvenil em feiras literárias. Em 2025, foi ampliado para a Feira do Livro de Jardinópolis, além de São Joaquim da Barra, Morro Agudo e Guará. Impacto cultural e econômico (Foto: Sté Frateschi) Mais de 50 empresas, entre patrocinadores, apoiadores e instituições públicas, se envolveram na realização da 24ª FIL, que também movimentou a economia local. Além da venda de livros nos estandes, o evento impulsionou setores de turismo, alimentação e serviços, mobilizando a cidade.   Balanço histórico Em 24 anos, a FIL já havia registrado 7 milhões de visitantes e a participação de mais de 3 mil autores. Em 2025, registrou crescimento no público e ampliou o número de atividades, mantendo o protagonismo de Ribeirão Preto como polo literário, cultural e educacional. Para a presidente da Fundação do Livro e Leitura de Ribeirão Preto, Dulce Neves, a 24ª edição comprova a força da FIL como patrimônio cultural da cidade. “A FIL é fruto da união de forças entre a Fundação, poder público, instituições parceiras, empresas, patrocinadores e apoiadores, que acreditam no impacto transformador da literatura. Nosso papel, há quase 25 anos, é sócio-educativo e cultural: formar novos leitores, ampliar repertórios e aproximar pessoas do livro”. Ela ressalta que esse propósito está refletido nos números crescentes e na participação ativa dos estudantes: “Essa é a grande missão da FIL e a razão de sua relevância para a cidade e para o país”. Rumo aos 25 anos: gerações literárias em diálogo Dulce Neves, Edgar de Castro e Adriana Silva (Crédito: Sté Frateschi) Em 2026, a FIL acontecerá no mês de agosto e completará 25 anos com o tema “X, Y, Z, Alpha, Beta – Gerações Literárias”. A proposta é explorar como diferentes faixas etárias se relacionam com a leitura e a produção literária: da Geração X, marcada pelos livros impressos e bibliotecas como espaços de resistência; passando pela Geração Y (Millennials), que viveu a ascensão da internet; pela Geração Z, nativa digital e acostumada a novos suportes como audiobooks; até a Geração Alpha, em formação em um ambiente hipertecnológico; projetando ainda a Geração Beta, herdeira das escolhas feitas hoje. Segundo a curadora da FIL, Adriana Silva, a FIL nasceu para ser um espaço de encontros e, ao chegar ao seu 25º aniversário, propõe olhar para as diferentes gerações que convivem e dialogam por meio da literatura. “X, Y, Z, Alpha e Beta não são apenas categorias etárias: são experiências de mundo que influenciam a forma como lemos, interpretamos e narramos. Colocar todas essas gerações lado a lado é reafirmar que o livro continua sendo uma ponte entre tempos, repertórios e linguagens”.

  • Show de Chico César encerra a 24ª Feira Internacional do Livro de Ribeirão Preto

    Último dia da FIL reuniu literatura e música, com show e encontros que celebraram a imaginação, a poesia e o poder transformador da leitura Show de Chico César na 24ª FIL (Foto: Sté Frateschi) Foram dez dias em que a literatura tomou conta da cidade: mais de 500 atividades movimentaram um público estimado em 274 mil pessoas. E para encerrar a 24ª FIL – Feira Internacional do Livro de Ribeirão Preto, a palavra se fez música na voz de Chico César.O  cantor e compositor paraibano subiu ao palco principal do Theatro Pedro II   no domingo (24/08) para celebrar os 30 anos de seu primeiro álbum, Aos Vivos . Em formato intimista, com voz e violão, revisitou canções já clássicas de seu repertório, como Mama África , À Primeira Vista  e Beradêro . Um show marcado pela forte influência da cultura nordestina, encerrou o último dia da FIL, que desde cedo movimentou o centro de Ribeirão Preto com bate-papos, salões de ideias, lançamentos literários e atividades para todas as idades. Show de Chico César na 24ª FIL (Foto: Sté Frateschi) O poder da imaginação Salão de Ideias com André Luis Oliveira (Foto: Barbara Santos) Logo pela manhã, o escritor homenageado André Luís Oliveira participou da Sessão Homenageado, no Theatro Pedro II. Mediado pela atriz e contadora de histórias Gracyela Gitirana ,  o encontro percorreu memórias da infância, a influência familiar em sua formação leitora — especialmente pelo incentivo dos pais — e as experiências que inspiraram sua trajetória literária. André Oliveira recordou a noite em que descobriu o poder da imaginação. “Na época do Natal, as crianças não passavam da meia-noite. Dormia mais cedo e os brinquedos ficavam embaixo da cama. Quando acordei, estiquei o braço e encontrei os presentes, mas a janela estava aberta. Eu pensei que Papai Noel tinha acabado de passar por ali. Até hoje, minha imaginação funciona como essa janela que minha mãe deixou aberta”, contou. A recordação virou metáfora de seu processo criativo. “Sempre que me deparo com o dilema da folha em branco, lembro dessa abertura: é esse espaço que me convida a imaginar e escrever”, disse. O autor também refletiu sobre a relação entre literatura e infância. “Quando uma criança percebe que não está sozinha, que outros também vivem dores ou descobertas semelhantes, a leitura se torna abrigo. Esse é o papel da literatura: abrir janelas”, afirmou. Ao final da conversa, destacou que a poesia não está apenas em quem escreve, mas também em quem sente. “Paulo Leminski dizia que quem lê e se emociona com os poetas também é poeta. Existem poetas que escrevem e poetas de sentir. Eu prefiro ser poeta de sentir, porque é esse olhar atento que renova a rotina e captura o novo no caminho de todos os dias”, concluiu. Poesia como uma reação ao mundo A poesia seguiu como destaque na programação do último dia da FIL com uma mesa especial de autores da casa, realizada no auditório da Biblioteca Sinhá Junqueira. Mediados por Davi Ferreira, os poetas Daniel Francoy, Mara Senna, Talita Franceschini e Thais Faria, conversaram sobre processos criativos e os temas que permeiam suas obras. “A poesia é um álibi, uma justificativa para o poeta refletir o mundo em que vive. Os versos são uma reação do poeta ao mundo”, refletiu Daniel Francoy, vencedor do Prêmio Jabuti de 2017 pela coletânea de poemas “Identidade”. Para Mara Senna, a poesia está em todas as coisas. “Cabe ao poeta encontrar as palavras para descrever o mundo”, concluiu. Lançamentos de livros O público que compareceu ao último dia da edição 2025 da Feira Internacional do Livro teve a oportunidade de conhecer novas obras literárias. Na Biblioteca Sinhá Junqueira, o advogado criminalista e procurador de justiça aposentado Roberto Tardelli fez o lançamento do livro Ainda não mudou. Direito e (in)justiça no Brasil , em que trata de uma das maiores preocupações da população brasileira, de acordo com as pesquisas de opinião, que é a segurança pública, em especial a questão da violência praticada em operações policiais. “Muitas vezes, a polícia é violenta pela sensação de impunidade, por isso precisamos ter uma cobrança social, para que todas as ações sofram as suas consequências”, defendeu o autor. Na Tenda Sesc Senac, um bate-papo com o público marcou o lançamento do livro “ABPcD: Letras, infâncias e vidas de pessoas com deficiência”, das autoras Ana Clara Moniz e Lígia Azevedo, com ilustrações de Bruna Assis Brasil. O livro apresenta a biografia de 26 pessoas com deficiência, de diferentes gêneros, nacionalidades e áreas de atuação. “Nossa intenção, com esse livro, foi mostrar o universo da deficiência, um tema pouco ou nada explorado na literatura nacional, mesmo em obras ficcionais”, disse Ana Clara. Feminismo como inclusão Milly Lacombe na 24ª FIL (Foto: Alessandra Rotolo) “Os desafios de ser feminista no Brasil” foi o tema do bate-papo entre a psicóloga Maria Emília Carmineti e a jornalista e escritora Milly Lacombe, autora de livros como O ano em que morri em Nova York  e Feminismo para não feministas.  “É preciso entender que o feminismo não é uma luta da mulher contra o homem, muito menos um manual de conduta, sobre raspar ou não as axilas. Estes são conceitos difundidos por aqueles que querem reduzir este debate”, comentou Milly. “O feminismo que eu acredito é aquele que luta pela igualdade, vista como possibilitar a cada um ser o que quer ser. É emancipação e inclusão de todas as pessoas”, defendeu a escritora. Resistência e afeto O último Salão de Ideias da 24ª FIL reuniu o artista Ikaro Kadoshi e Fábio de Jesus, presidente da ONG Arco Íris RP e ex-conselheiro estadual de políticas públicas LGBT de São Paulo. Mediado por Tim Fabril, o encontro trouxe relatos pessoais e destacou o papel da literatura como ferramenta de reconhecimento e libertação. Ikaro Kadoshi (Foto: Barbara Santos) Fábio de Jesus compartilhou sua trajetória marcada por enfrentamentos desde a juventude. “Eu tive uma invasão escolar aos 15 anos e precisei abandonar os estudos para não sair de lá em um caixão. A partir desse momento, comecei a lutar por direitos iguais e pela nossa existência”, afirmou. Fábio ressaltou ainda a importância do cuidado com a saúde mental. “A terapia salva vidas. Ela me mostrou que a dor precisa ser cicatrizada de forma que eu não transfira a violência que sofri para outras pessoas.” O jornalista Ikaro Kadoshi - que transita entre o palco, o corpo e a comunicação com fluidez -, lembrou que a falta de afeto impacta a vida de pessoas LGBTQIA+. “Quando abrimos a porta de casa, nos é negado o afeto. Eu não sei o que é andar de mãos dadas na rua, mesmo aos 45 anos. Essa experiência, que parece comum para muitos, nunca foi minha realidade”, disse. Para ele, a sociedade retira parte da humanidade de quem é diferente. “Quando eu ajo como o animal que a sociedade me criou, ainda me apontam como culpado. Eu cansei de carregar culpas que não são minhas.” O encontro reforçou a ideia de que falar, escrever e compartilhar histórias é uma forma de resistência. “A literatura pode ser esse espaço de cicatrização e liberdade, onde cada voz encontra lugar para existir”, concluiu o mediador.

  • Literatura, poesia e filosofia deram o tom do último sábado na 24ª FIL

    O penúltimo dia da FIL (Feira Internacional do Livro de Ribeirão Preto) foi uma travessia pela diversidade cultural com nomes de referência nacional e novas vozes em conferências, debates, saraus e oficinas, discutindo trajetórias, ancestralidade, fake news, afeto, resistência cultural e outras vertentes (Foto: Bárbara Santos) Entre clássicos da literatura e vozes emergentes da poesia, o sábado transformou a 24ª FIL (Feira Internacional do Livro de Ribeirão Preto) em um palco de encontros, com Ignácio de Loyola Brandão, André Brandão, Itamar Vieira Junior, Márcia Tiburi, Jean Wyllys, André Trigueiro, Adeilson S. Salles e Bráulio Bessa dividindo atenções com Carolina Rocha (Dandara Suburbana), Lews Barbosa, Emaye Natália, poetas convidados, autores da cidade e região e muitos outros nomes. Além do encantamento poético e contato com a arte nos diversos espaços, intensificando debates e reflexões, o público também pôde participar de apresentações artísticas, oficinas, exposições, visitar o ônibus Livro Vivo, o Labirinto de Energia e exposições permanentes. Uma das atividades que chamou a atenção de quem passou pela Praça XV de Novembro foi a Oficina de Diários, no espaço Usina do Saber, conduzida por Dandara Garcês Martins, que reuniu jovens e adultos em torno da escrita íntima como ferramenta de autorreflexão. Segundo a designer, o diário pode ser de escrita – de metas, de gratidão ou até de desenhos, no caso das crianças. “O mais importante é criar o hábito de se expressar, de colocar no papel emoções e memórias”, completou. Formada em Design de Interiores e atuando como educadora e artesã, Dandara destacou ainda a dimensão terapêutica da prática. “Quando escrevemos, conseguimos enxergar padrões, rever momentos difíceis e perceber nossa evolução. O diário nos ajuda a lembrar que superamos desafios e a reconhecer a força da nossa própria trajetória.” A voz de Dandara Suburbana Dandara Suburbana e Fabio de Jesus (Foto: Sté Frateschi) No período da manhã, um dos destaques foi o Salão de Ideias com a escritora e educadora Carolina Rocha (Dandara Suburbana), militante antirracismo e pesquisadora do Instituto de Estudos da Religião (ISER), que apresentou sua experiência à frente do projeto Ataré Palavra Terapia, que promove a literatura negra como ferramenta de memória e transformação.  Autora de A Culpa é do Diabo  e O Sabá do Sertão , Carolina trouxe reflexões profundas sobre oralidade, espiritualidade e identidade, destacando a impossibilidade de separar o que é positivo do que é desafiador na vida. “Exu nos ensina que não existe ninguém que seja só afeto ou só dor, só bom ou só ruim. A vida é mistura de abundância e desafios, e precisamos aprender a reconhecer e celebrar isso, mesmo em meio às dificuldades”, afirmou. Ela também recordou um ensinamento marcante de seu pai de santo: “Terreiro não tem muros. Terreiro existe onde existe fogo, terra, ar e água. É escola dentro e fora da roça. Foi assim que criamos uma escola no terreiro, para alfabetizar crianças e adolescentes. Religião também é comunidade, é política e é educação.” Poesia em ato e resistência no slam No início da tarde, o Encontrão Poético, realizado na Tenda Sesc Senac, levou o público a mergulhar na força da oralidade e da performance. Poetas de diferentes estilos dividiram o palco, com destaque para a participação de Lews Barbosa, que provocou emoção e reflexão ao transformar poesia em ato de resistência e afeto coletivo. Representante do Brasil no Campeonato Mundial de Slam, em Paris, ele lembrou da experiência que ampliou seu olhar sobre a diversidade da palavra falada. “Foi impactante sair do Brasil pela primeira vez e estar num campeonato com poetas do mundo inteiro — de Madagascar, Singapura, África do Sul... Perceber como cada cultura manifesta a oralidade foi uma coleção de fichas caindo. Mais do que competir, a vitória foi estar lá, levando nossa poesia e vendo a força do que criamos aqui”, contou. Loyola Brandão: 60 anos de histórias Ignácio de Loyola Brandão e André Brandão (Foto: Bárbara Santos) Às 14h30, o Auditório Meira Junior recebeu um dos momentos mais emocionantes da programação: o bate-papo “ 60 anos de Carreira”, que reuniu Ignácio de Loyola Brandão e seu filho, André Brandão. Conduzido em tom de conversa íntima, o encontro mesclou perguntas, lembranças e leituras de trechos das obras do escritor. Loyola relembrou a infância em Araraquara e como a imaginação foi se impondo como matéria essencial da sua escrita. "A fantasia era maior do que a realidade. Eu sempre enxergava além do que estava acontecendo, e isso nunca me deixou”. O público se divertiu com episódios curiosos da trajetória do autor, como o dia em que quase não conseguiu fazer o discurso de posse na Academia Brasileira de Letras por ter esquecido os óculos no hotel - episódio que terminou em riso e alívio quando encontrou um par esquecido no bolso do paletó. Ao falar de sua obra, o escritor imortal destacou como a literatura ultrapassa o fato. “A vida me dá o material, mas é a imaginação que transforma em literatura. Sem espanto, sem invenção, não há livro.” O escritor também lembrou o impacto de escrever Não Verás País Nenhum  em plena Ditadura, um romance distópico que se tornou símbolo de resistência. “Era a forma de gritar, de resistir. O escritor precisa dizer o que muitos não podem ou não conseguem.  Entre memórias e reflexões, houve um momento de grande emoção quando contou a pergunta feita pela neta: “Vovô, o que é viver?”. “Talvez seja isso, viver é buscar”, disse, arrancando aplausos calorosos da plateia. Aos 89 anos, com seis décadas de carreira, Ignácio reafirmou a persistência criativa como marca de sua trajetória: “Fracassos, entusiasmos, paixões, tudo isso me trouxe até aqui. O importante é nunca parar de ter projetos. Quero escrever novos livros e ver minha neta crescer. Escrever é resistir, mas também é sobreviver. É transformar a angústia em encanto.” Nova obra para crianças  Itamar Vieira Junior (Foto: Sté Frateschi) O escritor Itamar Vieira Junior, autor de “Torto Arado” , reuniu um grande público no Theatro Pedro II. Mediado por Ueliton Santos, o encontro trouxe reflexões sobre sua trajetória, lembranças de infância e a recente incursão na literatura para crianças. Itamar destacou que a infância foi decisiva para sua formação como leitor e escritor. “A primeira vez que escrevi uma história foi depois de ler O Caso da Borboleta Atíria , da Coleção Vagalume, de Lúcia Machado de Almeida. Esse livro me deu vontade de criar uma história, porque mostrou que até uma narrativa simples pode ser genial”, contou. O autor lembrou como a leitura transformou sua percepção do mundo, pois vivia em uma casa com quintal. “Via insetos circulando por ali e não lhes dava importância. Depois de ler o livro, nunca mais olhei para aquele espaço da mesma forma. Passei a observar borboletas, grilos e louva-a-deus como personagens de uma história”, disse.  Sua experiência como leitor influenciou o desejo de escrever para crianças. “Esse campo da literatura para a infância sempre esteve no meu horizonte. Fui provocado por leitores e editores a pensar essa história, que resultou no livro Chupim . Quando o vi pronto, com as ilustrações da artista Manuela Navas e a devolutiva dos leitores, senti vontade de escrever outras histórias”, afirmou. O Grito da Terra ecoa na FIL Adeilson S. Salles e André Trigueiro (Foto: Bárbara Santos) Às 17h, o Espaço Ambient de Leitura sediou o Salão de Ideias “O Grito da Terra”,  com Adeilson S. Salles e André Trigueiro. Juntos, eles trouxeram para a FIL uma reflexão urgente sobre meio ambiente, educação e responsabilidade coletiva. Adeilson apresentou a obra homônima, inspirada em uma experiência vivida em 2019, em que um garoto e uma preguiça que foge de uma floresta em chamas constroem juntos uma narrativa de alerta. Para o escritor, a literatura infantil pode ser uma poderosa aliada na formação de consciência ambienta.  “Precisamos educar crianças e adolescentes para além da preservação da natureza, envolvendo valores como empatia, fraternidade e respeito humano. A literatura é uma forma de sensibilizar e abrir caminhos.”  Já o jornalista e ambientalista André Trigueiro reforçou o papel da esperança ativa diante da crise climática. Defensor do que chama de postura do “realista esperançoso”, compartilhou exemplos concretos de soluções possíveis, como o trabalho da Escola Espírita Joanna de Ângelis, em Japeri (RJ), que transformou o esgoto da comunidade em energia limpa por meio de biodigestores. “A ecoansiedade é legítima diante do que estamos vivendo. Ela não deve ser vista como fraqueza, mas como sinal de que estamos atentos e sensibilizados com a crise ambiental”, destacou. Para Trigueiro, discutir o futuro do planeta não é apenas falar de florestas ou animais, mas da própria vida em comunidade e da forma como nos relacionamos com os recursos naturais e humanos. O debate despertou reflexões em jovens e adultos, que lotaram o espaço Ambient de Leitura na Esplanada do Theatro Pedro II. Filosofia pop contra as falsidades No Salão de Ideias, o escritor e filósofo ribeirão-pretano Matheus Arcaro — um dos homenageados desta edição da FIL — trouxe reflexões sobre Domenico De Masi e Byung-Chul Han, destacando a sociedade do cansaço e a importância do ócio criativo . Em conversa interativa com o público, Arcaro lembrou que, ao contrário da ideia popular de que “ócio é o pai de todos os vícios”, para os pensadores o ócio criativo é essencial para a vida e para a criação. “Trabalhar, aprender e divertir, ao mesmo tempo, é o tripé proposto por De Masi. O ócio é o espaço para essa criação.” Ele ressaltou ainda que a tecnologia pode ser uma aliada se utilizada para reduzir tarefas repetitivas e abrir espaço para lazer, família e liberdade criativa. “O contrário de ócio é negócio. Enquanto o ócio é trabalho criativo, o negócio é trabalho repetitivo, fixado no lucro”, finalizou. Márcia Tiburi e Jean Wyllys (Foto: Sté Frateschi) Na Tenda Sesc Senac, a filósofa Márcia Tiburi e o jornalista e professor Jean Wyllys discutiram o conceito de “Falsolatria”  — o culto à falsidade  relacionando-o à corrosão da democracia e à destruição de reputações em tempos de hiperconectividade. Wyllys destacou o impacto dos algoritmos no isolamento digital: “Eles nos levam a consumir somente aquilo com o que concordamos, nos tornando impermeáveis a qualquer outra informação. Daí surgem as brigas familiares, rompimentos entre amigos etc.” Márcia Tiburi ressaltou como as redes sociais fragilizam as pessoas diante de uma “dominação invisível”.  “A racionalidade técnica é a racionalidade da dominação. Fomos esvaziados em nossa fé, em nossas relações pessoais e em nosso senso crítico, tentando preencher esse vazio na miséria das redes sociais.” Ela também alertou para a dependência tecnológica. “Estamos alimentando máquinas, trabalhando de graça para os gigantes da internet e sendo atacados por robôs. A luta é no diálogo cara a cara, no presencial.” Para Wyllys, o desafio está em reverter a lógica de submissão às tecnologias.  “Elas não vão voltar atrás. O desafio é colocá-las a nosso serviço, para nos emancipar, e não para nos escravizar.” Márcia concluiu retomando a defesa da democracia: “Pensar o mundo custa. É preciso ler, refletir, articular ideias. Sustentar uma democracia exige trabalho diário, inteligência e a competência de todos nós.” Bráulio Bessa fecha a noite com afeto e poesia O encerramento da noite foi marcado pela conferência poética de Bráulio Bessa, que lotou a Sala Principal do Theatro Pedro II. Com versos sobre afeto, identidade e resistência cultural, o poeta cearense tocou o público e encerrou o sábado em clima de celebração coletiva. Uma festa plural de ideias   Além das conferências e saraus, oficinas práticas de contos, libras, composições poéticas, danças urbanas e desenho completaram a programação do dia. Para Dulce Neves, presidente da Fundação do Livro e Leitura de Ribeirão Preto, o sábado reafirmou o espírito da FIL.  “A cada edição, a FIL reafirma seu papel como espaço de encontros e de construção coletiva. Ao reunirmos autores, leitores e diferentes expressões culturais, fortalecemos a ideia de que a literatura é, acima de tudo, um exercício de imaginação compartilhada.” A curadora da FIL e vice-presidente da Fundação, Adriana Silva, reforçou a mensagem central desta edição. “Neste ano, a Feira celebra os ‘Futuros Possíveis – entre linhas e parágrafos’ como convite para que cada pessoa se reconheça como parte dessa travessia, em que a leitura é ponto de partida para refletir, sonhar e agir em busca de uma sociedade mais justa e criativa. É quando a cidade se encontra com seus autores, suas histórias e múltiplas expressões artísticas. A FIL oferece um mosaico de possibilidades que conecta tradição, reflexão e inovação cultural.”

  • Na FIL, Bráulio Bessa transforma sua trajetória em lição de esperança e resistência

    Na conferência que lotou a sala principal do Theatro Pedro II, o poeta falou sobre afeto, identidade, resistência, importância da oportunidade e sua trajetória na literatura a partir do interior do Ceará Conferência com Bráulio Bressa (Foto: Sté Frateschi) “Vamos dar uma salva de palmas para nossa felicidade. O mundo de alguém ser belo, não faz o seu ser feio.” Foi com esse pensamento que o poeta cearense Bráulio Bessa abriu sua participação na 24ª FIL – Feira Internacional do Livro de Ribeirão Preto ,  na noite de sábado (23). Diante da plateia que lotou a sala principal do Theatro Pedro II, Bessa utilizou a força da narrativa e da contação de histórias para revisitar sua trajetória pessoal e literária, abordando temas como afeto, felicidade, resistência, valorização da vida e respeito por quem caminha junto, além de enaltecer a importância da escola pública, dos livros e das oportunidades. Nacionalmente conhecido por sua participação de dez anos no programa Encontro , com a jornalista Fátima Bernardes, Bessa revelou que o marco inicial de sua caminhada profissional foi o gesto de uma professora que lhe entregou o primeiro livro de poesia. “O dia mais importante da minha vida profissional como poeta aconteceu dentro de uma escola pública, aos 14 anos, quando minha professora, tia Zuli, colocou aquele livro em minhas mãos. Era um livro de Patativa do Assaré, um dos poetas populares mais importantes deste país, que me encantou com seus poemas e me fez decidir que poeta eu seria: poeta. Que massa a força de um livro”, contou. Após declamar seus poemas em praças, escolas, feiras e até igrejas de Alto Santo, sua cidade natal no interior do Ceará, Bráulio levou seus escritos para a internet de forma caseira. “Eu usava um computador velho, na cozinha de casa. Minha ideia era divulgar o cordel para o maior número possível de pessoas e valorizar essa literatura que representa e fala do nosso povo, do Brasil profundo, tão diverso e escondido, mas que ainda é lida como menor, inclusive nos meios literários. E nunca imaginei que alcançaria muito mais que isso”, compartilhou. Para o poeta, a oportunidade é o bem mais valioso que se pode oferecer a alguém. “Quando fiz minha primeira palestra, num grande evento em Maceió, de graça, o meu cachê foi o maior de todos porque foi a oportunidade, após uma sequência de acontecimentos impensáveis para mim naquela época. Nosso povo precisa de oportunidades porque a oportunidade é para sempre”, disse. Salvo pelo livro Conferência com Bráulio Bressa (Foto: Sté Frateschi) No desenrolar de sua fala, Bráulio Bessa destacou a importância da escola pública e do lugar de onde veio. “Nesse país, em que a educação é tão agredida, precisamos de testemunhos a favor da educação. Sou fruto da escola pública, da sala de aula, da fé do aluno no educador, da fé do educador no aluno”. Ele reforçou que aquele livro que ganhou de sua professora o salvou porque se viu nele. “E quando nos vemos num livro, numa obra de arte, nos sentimos importantes. Quando falo de mim, falo de nós. A história de cada um é única e é interessante. Por isso, viva nossa felicidade apesar de todos os sofrimentos que todos carregamos”, enfatizou. Laboratório de origem Bessa também ressaltou a importância de reconhecer quem estende as mãos ao longo do caminho. “Estou aqui hoje porque as pessoas da minha terra me viram, me ouviram, me deram valor e me disseram que esse lugar, aqui neste palco, também poderia ser meu, fazendo literatura de cordel.” Ele definiu sua cidade de origem como um verdadeiro laboratório . “Não podemos normalizar o esquecimento da nossa origem e trajetória quando conquistamos algo muito grande. Hoje, é extraordinário exercer o direito de ser diferente e, ainda assim, ser espelho para o outro”, refletiu. Persistência e autenticidade Autor de um trabalho reconhecido dentro e fora do Brasil, Bráulio lembrou que sobreviveu a 44 recusas de editoras antes de ver seus poemas publicados. Para ele, seu sucesso não pode ser explicado apenas pela televisão ou pelas redes sociais, já que sua trajetória é muito mais ampla e enraizada na literatura de cordel.  “Muita gente reduz suas vitórias a conseguir estar na televisão ou a ter milhões de seguidores nas redes. Isso é muito raso. Além de ser irônico não se perder no caminho, mas se perder no lugar onde chegou. Não podemos perder o direito de sonhar, mas sabendo que não temos controle sobre a recompensa”, poetizou. Para ele, no exercício de autoconhecimento, é essencial escutar a própria voz. “É muito mais legal viver que apenas estar vivo. Quem vive fingindo ser o que não é, vive cansado, porque a verdade está pronta. A mentira, não”, finalizou. A 24ª Feira Internacional do Livro de Ribeirão Preto terminou neste domingo (24) e contou com a parceria da Prefeitura Municipal por meio das Secretarias de Governo, Casa Civil, Educação, Cultura e Turismo, Infraestrutura, Meio Ambiente, Esportes, Fiscalização Geral e Saerp; do Ministério da Cultura e Governo do Estado de São Paulo por meio da Secretaria Estadual da Cultura, Economia e Indústrias Criativas, Sesc e Senac. Conferência com Bráulio Bressa (Foto: Sté Frateschi)

  • Lançamentos literários, palestras, bate-papos e sarau movimentaram a sexta-feira (22) na 24ª FIL

    Biblioteca Sinhá Junqueira e Tenda Sesc Senac concentraram alguns dos encontros mais concorridos do dia, reunindo escritores, psicólogas e o músico Lirinha, que abriu a programação noturna com um sarau musical Cia Dois Palitos (Foto: Sté Frateschi) Quem circulou pelos espaços da 24ª FIL (Feira Internacional do Livro de Ribeirão Preto) na última sexta-feira (22) encontrou uma programação diversa e atrativa, marcada por lançamentos literários, debates e apresentações artísticas. Na Tenda Sesc Senac, na Esplanada do Theatro Pedro II, a escritora Danielle Barga lançou o livro Além do Like , que aborda como os comentários sobre o corpo – o chamado body talk  – afetam a autoestima e alimentam preconceitos, como a gordofobia. Para a autora, expressões aparentemente inofensivas, vindas até de familiares ou amigos, reforçam a ideia de que o corpo nunca é suficiente, criando insatisfação constante e estimulando a indústria da beleza. “A cada nova tendência, somos levados a gastar dinheiro para corrigir algo que, muitas vezes, nem era um problema até alguém dizer que era”, exemplificou Danielle Barga. No auditório da Biblioteca Sinhá Junqueira, o bate-papo Cicloturismo como Fomento à Cultura e à Literatura  contou com a participação do ciclista Renato Rodrigues Pereira, que destacou como a bicicleta pode ser um meio para vivenciar a cultura e a literatura regional. Ele lembrou que, apesar do grande número de ciclistas em Ribeirão Preto, a cidade ainda carece de rotas autoguiadas – sinalizadas com placas que permitam ao visitante percorrer circuitos culturais sem guias. “Estamos criando rotas para que turistas que visitam Ribeirão Preto tenham a possibilidade de conhecer a cidade e seus entornos por meio da bicicleta. É uma forma de unir mobilidade, sustentabilidade e cultura”, afirmou. Eterna Dama Lançamento Livro Eterna Dama (Foto: Alessandra Rotolo) No quintal da Biblioteca Sinhá Junqueira, foi lançado o livro A Eterna Dama – Sinhá Junqueira , biografia que resgata a trajetória de Theolina de Andrade Junqueira, a Sinhá Junqueira, filantropa e uma das figuras mais marcantes da história regional, especialmente na assistência social. A obra é assinada pela jornalista Adriana Silva ,  pelo escritor Fernando Dias dos Reis Júnior e pela professora Sandra Rita Molina .  Durante a apresentação, Adriana Silva – que também é curadora da FIL – destacou o compromisso de registrar a permanência da homenageada na memória coletiva. “Nós trouxemos essa referência, da permanência dela historicamente, tínhamos essa missão. Tive a oportunidade de entrevistar e conhecer o senhor Alberto, que conheceu a Sinhá Junqueira, e isso foi muito interessante”, disse a jornalista. A pele determinante O bate-papo Com a palavra, as pretas – narrativas de mulheres negras  encerrou a tarde na Tenda Sesc Senac. As psicólogas Mônica Mendes Gonçalves   e Lubi Prates refletiram sobre como as questões raciais atravessam a literatura e a saúde no Brasil. Poeta, tradutora e curadora, Lubi Prates destacou a importância da literatura para o conhecimento da história de um povo. “A mão da pessoa que escreve tem uma cor e isso impacta sua narrativa”, observou. Ela também contou como as narrativas de mulheres negras impactaram sua vida pessoal e profissional.  “Como sou negra de pele mais clara, cresci sem a abordagem da questão racial. Isso me chegou na idade adulta, através da escuta das mulheres pretas que atendia, e tive que reconstruir toda a minha história”, relatou. Mônica Gonçalves, com experiência em serviços públicos de saúde, ressaltou a presença do fator racial no sistema. “O projeto do SUS é pautado pela democratização de acesso, atendimento e assistência à saúde. Temos orgulho do SUS vitorioso, mas é preciso dizer que o fator racial está presente de diversas maneiras, incluindo quem é beneficiário das políticas e de que forma”, contextualizou. Num exemplo prático, lembrou que 80% das pessoas transplantadas pelo SUS são homens brancos ,  enquanto a maioria das doações de órgãos parte de homens negros jovens. Poesia e música No início da noite, a Tenda Sesc Senac recebeu o sarau musical Lirinha, poesia eletrônica . Projeto solo do músico pernambucano Lirinha  –  idealizador e ex-vocalista do grupo Cordel do Fogo Encantado  –, a apresentação mesclou linguagens artísticas: palavras líricas e filosóficas entrelaçadas a batidas eletrônicas, gravações de narrativas diversas e interpretação teatral em canções e declamações de poemas, criando uma experiência sensorial que capturou o público. O protagonismo da oralidade esteve presente em todo o espetáculo, com referências a poetas como Waly Salomão, Patativa do Assaré e João Cabral de Melo Neto – cuja leitura de Morte e Vida Severina  foi um dos pontos altos da noite – além de autores regionais pernambucanos que marcaram a formação do artista. “Desde criança eu era encantado por poemas e pelos poetas da minha região, que não estão publicados, mas que guardam muitos segredos do Brasil. Hoje, é um presente poder dizer poesia numa praça pública, num evento como esse”, disse Lirinha. A 24ª Feira Internacional do Livro de Ribeirão Preto termina neste domingo (24). A programação completa está disponível em www.fundacaodolivroeleiturarp.com . A realização conta com a parceria da Prefeitura Municipal por meio de diversas secretarias, do Ministério da Cultura, Governo do Estado de São Paulo, Sesc e Senac.

  • Encontros com os escritores Raphael Montes, Stella Maris Rezende e Mauricio encerraram 8ª edição do projeto Combinando Palavras

    O projeto - que é espinha dorsal da FIL no cumprimento de sua missão de fomentar a paixão pelos livros e pela literatura e incentivar a formação de leitores - começou a ser desenvolvido no primeiro semestre junto a alunos de escolas públicas e particulares de Ribeirão Preto e região, e envolveu cerca de 9 mil estudantes Combinando Palavras com Raphael Montes (Foto: Sté Frateschi) A 24º FIL (Feira Internacional do Livro de Ribeirão Preto) encerrou nesta sexta-feira (22) o ciclo de 11 encontros entre autores e estudantes de escolas públicas e particulares de Ribeirão Preto e região, no projeto Combinando Palavras, que este ano realizou sua oitava edição. O programa busca transformar textos literários em experiências coletivas, estimulando a interpretação e a reflexão sobre os temas das obras estudadas por meio da apresentação de trabalhos inspirados nos livros lidos durante o processo. Três autores se encontraram com estudantes nesta sexta: Raphael Montes, Stela Maris Rezende e Mauricio Negro. Combinando Palavras com Raphael Montes (Foto: Sté Frateschi) Com base na obra do escritor Raphael Montes, mais de mil alunos estiveram non Theatro Pedro II participando das apresentações de dança, música, teatro, poesia e leitura de livros. Um dos grupos, da Escola Geraldo Sorrano, de Cajuru, escreveu um livro baseado na obra do autor e em histórias reais, que recebeu elogios de Montes. “Eu não conhecia a obra dele, mas pesquisamos, assistimos a filmes e lemos parte de ‘ Bom Dia, Verônica’  para entender como Rafael escreveria cada capítulo”, contou a estudante do 9º ano do Ensino Fundamental, Milena Franciele Nunes. “A partir de histórias reais de conhecidos, construímos um final investigativo no livro”, completou Milena. A professora Tatiana Regina Beneduso, que acompanha o projeto há várias edições, destacou a proximidade da realidade dos alunos com os temas abordados. “Eles presenciam situações de violência e problemas relacionados a drogas. Para eles, isso causou um impacto e despertou um interesse ainda maior”, disse a professora, explicando que cerca de 30 alunos participaram das atividades. “Foi tudo muito grandioso e proveitoso para todos. A literatura provoca essa curiosidade sobre o que vai acontecer e, em dias em que tudo é tão rápido, tudo foi muito importante”. Combinando Palavras com Raphael Montes (Foto: Sté Frateschi) O professor de artes da Escola Galdino de Castro, de Cajuru, Sebastião Fernandes Guimarães Júnior, acompanhou os alunos do ensino médio na apresentação e destacou o caráter coletivo do trabalho. Segundo ele, a experiência foi marcante principalmente por ser a primeira vez de muitos estudantes no palco do Theatro Pedro II. “Quando eles chegam aqui e veem outras escolas se apresentando com ideias diferentes, isso amplia ainda mais o aprendizado. Foi um momento especial e muito enriquecedor para todos”, afirmou. Após cerca de duas horas de apresentação, Raphael Montes ficou surpreso. “Ainda não tenho filhos, mas tenho livros. E cada um dos estudantes, hoje, me trouxe uma alegria. Momentos como este alimentam a vontade de escrever”.  Para ele, ver os estudantes interpretarem e criarem a partir de seus textos é parte da consagração do projeto. “Eles pegaram personagens do meu universo e fizeram arte em cima da arte. Isso motiva, reconhece e transforma a leitura em experiência coletiva. Foi uma experiência maravilhosa porque pude perceber como as minhas histórias podem se transformar”, afirmou o autor. Mauricio Negro Mauricio Negro no Combinando Palavras (Foto: Vikka Faustini) Também durante a manhã da sexta-feira, o Teatro Municipal recebeu mais de 400 estudantes da ETEC José Martimiano da Silva para o encontro com o escritor Mauricio Negro. Na conversa com os jovens, ele revelou a emoção do momento e relembrou experiências que teve durante sua juventude. “Estar aqui é como estar de volta a esse tempo, é a mesma sensação”, contou. Sobre o significado do projeto, Mauricio foi enfático. “O Combinando Palavras combina sentimentos. Nessas ações, todo mundo se envolve: bota a mão na massa e, assim, o legado dessa experiência fica para sempre, para os alunos e para nós autores”, destacou. Para o coordenador pedagógico Rodrigo Silva, que o projeto desde 2018, o Combinando Palavras aproxima os jovens de uma literatura atual e ligada às suas realidades. “Ele permite contato com temas que dizem respeito à vida dos alunos e quebra a ideia de que literatura está apenas no passado, com autores clássicos. Literatura é viva, faz parte da essência humana, e os alunos têm acesso direto a quem a produz”, disse. Mauricio Negro no Combinando Palavras (Foto: Vikka Faustini) O estudante Leonardo Correa Francisco da Costa, 17 anos, do curso de Automação Industrial, contou que ficou impactado ao conhecer a obra de Mauricio Negro. “Eu não conhecia, mas achei fascinante trazer personagens femininas indígenas e falar da defesa da natureza. Isso me fez pensar muito sobre preservação e sobre como somos explorados até hoje.” Para ele, o projeto amplia horizontes ao valorizar escritores que fogem do cânone tradicional. “Às vezes focamos só nos grandes nomes e esquecemos autores que trazem representatividade, como o Luiz Puntel, que conheci ano passado, ou o Mauricio Negro, que trabalha tão bem os povos originários.” Victoria da Costa Aguiar, 17, estudante de Nutrição, contou que a experiência a fez olhar para a literatura indígena de forma prática e criativa. “Foi muito interessante porque nunca tínhamos visto obras com esse foco. Exploramos os alimentos e a cultura indígena na cozinha, o que trouxe novas descobertas e até desafios. Ver a reação do autor ao nosso trabalho foi muito gratificante,” disse. Para ela, o projeto é um espaço necessário, que une leitura, reflexão e experiência coletiva. “Eu definiria como um privilégio. Ele nos lembra da importância da leitura num tempo em que a tecnologia muitas vezes ocupa esse espaço.” Encantamento Combinando Palavras com Stella Maris (Foto: Vikka Faustini) A escritora mineira Stella Maris Rezende descreveu sua terceira experiência no Combinando Palavras como momentos mágicos. “Cada vez que participo é um tempo fantástico porque as pessoas mudam, as visões de mundo mudam e, cada vez mais, a qualidade artística dos estudantes está melhor. Foram conversas maravilhosas, memoráveis, de alto nível. Estou emocionadíssima e quero voltar outras vezes”, disse a escritora. No palco do Teatro Municipal, cerca de 60 alunos da Fundação Educandário, de Ribeirão Preto, - representando uma comunidade escolar de 500 estudantes - apresentaram suas releituras das obras de Stella Maris, por meio de encenações diversas e leitura de poemas. Patrícia Liberatore é professora de Língua Portuguesa e comentou a experiência. “Participamos do Combinando Palavras há algum tempo e esse ano foi uma vivência maravilhosa. A autora é magnífica, as histórias são engraçadas e até a presença do mineirês nos livros cativou os alunos”, afirmou Patrícia, ressaltando que, anualmente, os estudantes aguardam o projeto com ansiedade. “Eles ficam na expectativa de saber quem será o autor, quais livros irão ler e o que vão montar para apresentar. Isso é fantástico porque o livro, a leitura e a literatura são primordiais no desenvolvimento humano, abre portas para sonhos profissionais e pessoais. O ser humano precisa dessa aventura através da leitura”, concluiu a professora. Combinando Palavras com Stella Maris (Foto: Vikka Faustini) A fala de Patrícia Liberatore é confirmada nos depoimentos dos alunos. Brian Rafael Mendes da Cunha, aluno 9ª ano do Ensino Fundamental, esteve no Combinado Palavras pela segunda vez. “Tivemos a oportunidade de experimentar o teatro, por exemplo, e tudo o que aprendemos é muito importante”, disse. Também do 9º ano, Kaíque Miguel de Oliveira Reis, está no projeto pelo quarto ano consecutivo. “É uma experiência muito legal que nos traz coisas novas e estimula muito a leitura e a escrita. Esse incentivo da FIL é muito legal e necessário”, comentou o aluno.  Ler mais Gabriel Esteves Leite, 15, 9º ano na Fundação Educandário, participou de uma das encenações de teatro. Para ele, o impacto do Combinando Palavras é sempre muito positivo. “Nos preparamos muito e cada esforço valeu a pena. O livro que lemos - A Sobrinha do Poeta  - me interessou demais, nossas leituras compartilhadas foram preciosas, conhecer a Stella foi muito legal e estou bastante estimulado a ler não só outros livros dessa autora, como de outros escritores também”.  Stella Maris Rezende confirma a percepção dos estudantes. “Quanto mais leem livros e conversam com autores, mais eles aprimoram as linguagens e a maneira de ver o mundo. A mente se abre”, ponderou a escritora. Ela revelou que o alcance do projeto tem duas vias. “Meu ofício mudou muito depois do Combinando Palavras porque são experiências especiais, que não vi em nenhum outro lugar do Brasil e fora do país. Após o Combinando Palavras, vamos combinar que a literatura ficou muito mais importante para mim. Eu também cresço, minha cabeça também muda, passo a ver a literatura sob outros ângulos, enfim, é uma iniciativa que enriquece demais o meu trabalho e onde todo mundo sai ganhando”. Para escritores que ainda não estiveram no projeto, Stella avisa: “preparem o coração porque vão se encantar e se emocionar muito, além de se sentirem ainda mais entusiasmados para continuar a escrever”. Sobre os futuros possíveis a partir da literatura, a autora se diz otimista. “Sempre pensamos que há muitas impossibilidades diante do futuro, mas há alegrias possíveis quando a gente cria as possibilidades. A literatura não dá respostas, ela faz perguntas, é provocadora, transforma e liberta. É possível ler mais, ser mais feliz, haver mais dignidade, mais consciência crítica, mais amor entre as pessoas, mais justiça social através da leitura literária. Entre linhas e parágrafos, os futuros possíveis estão aqui, com essas crianças e jovens que vão tornar este mundo mais interessante e mais digno”, finalizou a autora. A programação completa da FIL 2025 está disponível no site da Fundação do Livro e Leitura de Ribeirão Preto: www.fundacaodolivroeleiturarp.com . A realização da FIL conta com a parceria da Prefeitura Municipal por meio das Secretarias de Governo, Casa Civil, Educação, Cultura e Turismo, Infraestrutura, Meio Ambiente, Esportes, Fiscalização Geral e Saerp; do Ministério da Cultura e Governo do Estado de São Paulo por meio da Secretaria Estadual da Cultura, Economia e Indústrias Criativas, Sesc e Senac.

  • “Está vivo? Está na missão!”

    Em conferência realizada na noite de sexta-feira na 24ª FIL, o jornalista André Trigueiro chamou a atenção do público para a urgência de condutas ambientais mais responsáveis e coerentes, destacando a educação como ferramenta de transformação para a construção de futuros possíveis no planeta Conferência com André Trigueiro (Foto: Alessandra Rotolo) A conferência “Alerta vermelho no planeta azul - cenários e perspectivas” , encerrou a agenda de sexta-feira na 24ª FIL - Feira Internacional do Livro de Ribeirão Preto. Realizada na sala principal do Theatro Pedro II, a atividade contou com a participação do jornalista André Trigueiro, especialista e referência nacional em temáticas ambientais, que centrou a palestra em dois pontos: educação como ferramenta de transformação, e futuros possíveis - conforme proposta central da feira -, ambas voltadas ao recorte ambiental. Trigueiro abriu sua fala citando pesquisas do cientista sueco Johan Rockström que apontam para um colapso estabelecido ou em curso de vários biomas e ecossistemas ao redor do mundo. “Rockström fala que falhar com o planeta é uma escolha. E isso é muito perturbador”, iniciou o jornalista, enfatizando a urgência de transformação do olhar humano para as questões ambientais diante das projeções sombrias e hostis que miram a Terra. Com mais de 30 anos de carreira como jornalista ambiental, André Trigueiro possui experiências profissionais e pessoais das mais diversas - como a cobertura da Rio 92 e o acompanhamento da seca de rios amazônicos -, e foi enfático ao afirmar que a Amazônia, maior floresta tropical do mundo, está queimando. “Cerca de 19% desse bioma foi perdido. Reduzir essa floresta é reduzir o volume hídrico do país. É a chuva produzida na Amazônia que rega os canaviais de Ribeirão Preto e a soja do Mato Grosso. Ou seja, o agronegócio precisa da floresta, mas o Brasil está secando”, disse Trigueiro. Conferência com André Trigueiro (Foto: Alessandra Rotolo) Em sua análise sobre a crise climática sem precedentes históricos enfrentada pela humanidade, o conferencista apresentou outros dados de alerta, como a mudança no cenário do bioma pantaneiro, afetado pelas PCH - Pequenas Centrais Hidrelétricas; o atraso de 80% dos países em apresentar as metas de esforços para redução de gases de efeito estufa, conforme prevê a NDC - Contribuição Nacionalmente Determinada, definida no Acordo de Paris; e a banalização do uso do plástico, entre outras pontuações. “As metas NDC eram para ter sido entregues em fevereiro passado. O plástico, em determinado momento se transforma em nanoplástico e entra em nosso corpo sem pedir licença, gerando doenças degenerativas como demências. São avisos de que precisamos parar de retardar ações em favor de nós mesmos”, salientou. Idealizador, repórter, editor-chefe e apresentador do programa Cidades e Soluções  (GNT), Trigueiro também pontuou a inexistência de ações preventivas a desastres ambientais no Brasil. “Aqui, as ações sempre chegam depois da tragédia. A hecatombe hídrica em Porto Alegre tinha riscos previstos que foram desprezados. Gestores públicos não podem ser analfabetos ambientais e flertar com o risco de priorizar projetos de visibilidade eleitoral em detrimento de movimentos de socorro estrutural. Nosso país ainda tem 100 milhões de pessoas sem esgoto tratado. Precisamos ter mais senso de urgência para a questão do meio ambiente como um todo”, falou o jornalista. Responsabilidade coletiva: fazer mais e melhor Conferência com André Trigueiro (Foto: Alessandra Rotolo) No viés da educação, o palestrante ressaltou que “estamos imersos numa cultura insustentável” e destacou que há uma urgência de iniciativas, comportamentos e escolhas que tenham comprometimento ético tanto com o tempo atual, como com as futuras gerações, que precisam de exemplos na jornada. “Cumprir a cartilha do cidadão verde é importante, como inutilizar o uso das infames bandejas de isopor, separar o lixo, consumir de forma consciente, etc. Mas isso não é suficiente. Precisamos ousar, arriscar e ampliar espaços de ação. Precisamos fazer mais e fazer melhor.”, advertiu Trigueiro, incisivo também em relação a responsabilidade de educar ambientalmente crianças e adolescentes. “Não podemos descuidar das crianças e adolescentes que se tornaram reféns de algoritmos e redes sociais. A alienação do tempo de tela torna todo o restante desimportante e é preciso despertar o senso de urgência nas novas gerações. Nesse sentido, nada supera a pedagogia do exemplo, que é o que fica entranhado na memória”, orientou. Entre as ações relacionadas por André na educação, ele enfatizou as experiências sensoriais como visitas a Estações de Tratamento de Água e de Esgoto (ETA’s e ETE’s), a facilitação de acesso a informações globais como o lixão da indústria têxtil no deserto do Atacama, a urgência do combate ao uso do plástico em todas as instâncias, o conceito de cidadania presente no pedido de notas fiscais e o olhar para o consumo como ato político. “Conhecer o que é chorume, metano, diferença entre lixão e aterro sanitário, quem está sendo beneficiado pelo seu consumo e entender que ruas e calçadas são espaços comuns que devem ser cuidados por todos, são saberes que ajudam a aferir valor, não desperdiçar, construir novas prioridades e ter outras escolhas”, apontou André Trigueiro. O jornalista encerrou sua fala com uma convocação. “É um privilégio existir nesse nosso tempo histórico em que temos acesso a possibilidades de escolhas e podemos mudar nossos comportamentos e atitudes. Usar a desculpa do ‘eu não tenho mais idade para o mudar o mundo’ é uma covardia. Se você está vivo, você está na missão”, finalizou. A 24ª Feira Internacional do Livro de Ribeirão preto termina neste domingo (24) e a programação completa está disponível no site da Fundação do Livro e Leitura de Ribeirão Preto: www.fundacaodolivroeleiturarp.com . A realização da feira conta com a parceria da Prefeitura Municipal por meio das Secretarias de Governo, Casa Civil, Educação, Cultura e Turismo, Infraestrutura, Meio Ambiente, Esportes, Fiscalização Geral e Saerp; do Ministério da Cultura e Governo do Estado de São Paulo por meio da Secretaria Estadual da Cultura, Economia e Indústrias Criativas, Sesc e Senac.

  • Literatura, juventude e diversidade marcam a quinta-feira na 24ª FIL

    Quinta-feira (21) movimentada na FIL combina atividades culturais, lançamentos literários, encontros estudantis, atividades artísticas e reflexões sobre temas sociais na 24ª Feira Internacional do Livro de Ribeirão Preto  CUFA na FIL (Foto: Sté Frateschi) Atividades infantis, saraus, poesias, oficinas, contações de histórias, encontros com estudantes, intervenções artísticas, lançamentos de livros, prêmio literário, debates sobre: bullying , floresta Amazônica, jornalismo, romances e premiações literárias. Esse foi o resumo da quinta-feira (21) na 24ª Feira Internacional do Livro de Ribeirão Preto que trouxe Raphael Montes, Mílton Jung, Milton Hatoum, Leny Kyrillos, entre outros nomes da literatura. Encontro com estudantes Milton Hatoum no Combinando Palavras (Foto: Sté Frateschi) No Theatro Pedro II, o Projeto Combinando Palavras reuniu cerca de mil estudantes com o escritor Milton Hatoum, eleito no início de agosto para a cadeira Nº 6 da Academia Brasileira de Letras. À tarde, o palco recebeu o quadrinista e escritor Rafael Calça, autor de Jeremias: Pele , que dialogou com alunos de diferentes escolas. A programação também trouxe a palestra “Fala, que o mundo escuta”, com a poeta Luz Ribeiro, no auditório Meira Junior. Em tom de incentivo, ela ressaltou a importância de ocupar os espaços da arte. “Desejo que a palavra, a dança, qualquer manifestação artística de vocês ganhe corpo, voz, movimento. Que a gente se encontre nos sonhos por aí”, disse. Limites do bullying Lançamento Livro com Claudio Romualdo (Foto: Sté Frateschi) No decorrer do dia, houve ainda oficinas práticas, lançamentos literários, contações de histórias e debates temáticos. Entre eles, uma discussão sobre bullying , com o professor e pesquisador Cláudio Romualdo, autor do livro Influência Silenciosa . Segundo o professor, o conceito deve ser compreendido dentro da literatura especializada, lembrando que as primeiras pesquisas sobre o tema surgiram na Noruega, na década de 1970. Romualdo destacou também a dificuldade de identificar o problema no ambiente escolar. “O bullying causa muitas dores e uma delas é o silêncio. A vítima tende a se calar. Pais, professores e profissionais de saúde precisam da voz da vítima para perceber sinais. Não é só pelos fatores externos”, disse.  Entre esses indícios, o professor apontou mudanças de comportamento e somatizações físicas. “É possível observar crianças e adolescentes que começam a evitar a escola, relatando febre, dor de cabeça ou de estômago. Muitas vezes, isso reflete um ambiente hostil. Também pode haver queda de desempenho escolar e, em alguns casos, evasão, sobretudo no ensino público e entre populações mais vulneráveis”, destacou. Para Romualdo, compreender essas nuances é essencial para prevenir casos e oferecer apoio. “É preciso atenção permanente. Só assim conseguiremos identificar sinais e enfrentar a influência silenciosa que o bullying exerce sobre crianças e adolescentes”, concluiu. Povos originários Povos Indígenas (Foto: Alessandra Rotolo) Na Tenda Sesc Senac, o público se reuniu para conhecer o trabalho do arqueólogo Eduardo Neves e do indigenista Daniel Cangussu, que trouxe para a FIL o lançamento de seu livro “Vestígios da Floresta - povos indígenas isolados da Amazônia” , tema homônimo ao do bate-papo mediado pela jornalista Maria Zulmira de Souza, idealizadora do programa Repórter Eco, da TV Cultura. Na conversa, Neves e Cangussu explicaram como se desenrola, na prática, os trabalhos de garimpar informações sobre os povos indígenas isolados, especialmente na região da Amazônia.  Daniel Cangussu revelou que o Brasil possui 130 grupos indígenas em situação de isolamento somente na região amazônica, mas que apenas 30 são identificados. “São povos brasileiros refugiados dentro do próprio país, que optaram por não ter contato externo em função de fatores diversos, que incluem até experiências traumáticas com situações de violência e extermínio”, explicou Cangussu. Eduardo Neves, que também é professor na USP, lembrou dos impactos das doenças trazidas pelos europeus durante a colonização, que tiveram efeitos avassaladores aos indígenas brasileiros. “Hoje, a população indígena no país é estimada em 30 milhões de pessoas, praticamente um terço do que havia na época do descobrimento”, disse o arqueólogo. Outro ponto abordado no encontro foi a política do Não Contato, adotada pelo Brasil em 1987, que respeita o direito de isolamento dos povos indígenas. “Nosso trabalho não é localizar as pessoas, mas, sim, tentar entendê-las aprimorando nosso olhar sobre o que elas expressam pelos vestígios e rastros que deixam na floresta para, em última instância, protegê-las”. Segundo ele, o importante é tirá-los da invisibilidade, os mantê-los invisíveis porque são povos que decidiram não aceitar o mundo como possibilidade viável.  “Contamos histórias escondidas e que foram apagadas, por meio de vestígios materiais deixados por diversas populações”, completou Eduardo Neves. No Maranhão, por exemplo, a extração do mel é o principal vestígio monitorado pelas expedições que trabalham com povos indígenas isolados. Desmistificar a ideia de indígenas bravos e selvagens é outro recorte do trabalho de Daniel Cangussu. “Essas pessoas se isolaram porque sofreram alguma agressão. Há grupos indígenas formados por apenas uma ou duas pessoas, que viram toda a tribo ser exterminada”, contou o indigenista, que alertou sobre as novas ameaças que cercam essa população brasileira.  Literatura Salão de Ideias com Milton Hatoum (Foto: Alessandra Rotolo) A agenda noturna de quinta-feira na 24ª FIL promoveu Salão de Ideais com Milton Hatoum, um dos mais renomados escritores brasileiros, recentemente imortalizado pela Academia Brasileira de Letras. Autor de romances, contos, crônicas, obras infantis e traduções, o também professor manauara falou sobre seus processos de escrita, geralmente longos, de sua paixão pelos romances de formação, modismos literários e sobre seu novo título - “Dança dos Enganos”  -, que completa a trilogia O Lugar Mais Sombrio , considerado o trabalho mais ambicioso de Hatoum. O mediador Felipe Narita abriu a conversa abordando justamente com o desenvolvimento deste trabalho. Em resposta, Milton Hatoum contou que reescreveu muita coisa de Dança dos Enganos  em função do momento histórico brasileiro durante o período em que trabalhava no livro. “Fiquei muito tocado com o que aconteceu no Brasil durante as duas pandemias. Uma da covid e a outra daqueles quatro anos nefastos e nada saudosos do Governo anterior. Às vezes, o momento histórico influi muito no que estamos escrevendo e, sim, reescrevi muita coisa nesse livro”, atestou o escritor. Apaixonado por romances de formação - em que se aborda a vida dos personagens e também do país -, Milton Hatoum assumiu um fascinado pela passagem da adolescência para a vida adulta e pelo processo de como os indivíduos se formam nos diversos âmbitos da vida.  Literatura de crime Salão de Ideias com Rafael Monthes (Foto: Sté Frateschi) Raphael Montes também esteve no Teatro Municipal de Ribeirão Preto. A atividade, anteriormente agendada para a sexta-feira (22/08), foi antecipada em um dia devido a alterações na agenda do escritor e roteirista, com trabalhos de sucesso, como os livros Suicidas , Dias Perfeitos  e Jantar Secreto , as séries Bom Dia , Verônica  e Beleza Fatal , e o filme A Menina que Matou os Pais . Em bate-papo conduzido por Carolina Freitas, Raphael Montes relembrou os primeiros contatos com os livros. “Em casa, o livro era visto com um produto de elite, não estava presente no ambiente familiar, exceto por uma tia-avó, que um dia me presenteou com uma obra da Agatha Christie, e foi aí que tudo começou, por volta dos 12 anos de idade”, comentou o autor, hoje com 34 anos, que já no início da adolescência tomava contato com outro produto que mais tarde o faria reconhecido em todo o Brasil. “Em casa, o que fazia parte da rotina era a televisão e, em especial, as novelas”, destacou. Salão de Ideias com Rafael Monthes (Foto: Sté Frateschi) Questionado sobre onde se sente melhor, nas páginas de um livro ou na tela da TV, Raphael não teve dúvidas. “A relação do escritor com o leitor é muito mais relevante do que com o telespectador. Nas páginas de um livro há toda uma cumplicidade entre quem escreve com quem lê. Uma obra literária começa com a imaginação, com aquilo que está na cabeça do autor  e vai encontrar ressonância no leitor, que vive aquilo que foi imaginado do seu jeito”, declarou. Sobre os futuros possíveis da literatura de suspense brasileira, o escritor, que já tem obras publicadas em mais de 25 países, incluindo traduções em inglês, espanhol, italiano, francês, alemão e holandês, foi otimista. Ele contou que quando começou a escrever, muitas pessoas o questionavam sobre o fato de querer fazer suspense, histórias policiais no Brasil - “um país solar, de uma imensa alegria - mas os leitores gostaram de ver referências próximas à sua realidade, um crime que aconteceu em Copacabana e não em um bairro de Londres”. Ele relatou que percebe que lá fora as pessoas querem conhecer outras ambientações. “O livro é isso: apresentar outros cenários, despertar a curiosidade sobre outros países. Então, vejo um bom futuro para a literatura brasileira, especialmente no suspense”, finalizou.

  • “Comunicação é encontrar-se com o outro”, pontuou Milton Jung em conferência na 24ª FIL

    Em encontro dinâmico no Theatro Pedro II, o jornalista e a fonoaudióloga Leny Kyrillos falaram sobre ética, cidadania, liderança, IA e desafios das mudanças na comunicação jornalística e importância da escuta no processo comunicativo Marcos Felipe, Leny Kyrillos e Milton Jung na 24ª FIL (Foto: Alessandra Rotolo) A 24ª FIL (Feira Internacional do Livro de Ribeirão Preto), recebeu na noite de quinta-feira (21), o jornalista Milton Jung, âncora da rádio CBN; e Leny Kyrillos, fonoaudióloga especialista em voz e colunista da CBN; para uma conversa dinâmica e informativa sobre a comunicação em diferentes recortes. Com mediação do jornalista Marcos Felipe, os convidados falaram sobre ética, cidadania, comunicação empresarial e intergeracional, novos desafios da linguagem jornalística, o papel da escuta ativa, projeções sobre as mudanças que a IA (Inteligência Artificial) traz às diversas formas de comunicação, e sobre o livro como principal plataforma de desenvolvimento humano. Com 41 anos de carreira, Milton Jung destacou as mudanças contínuas que tem vivenciado na forma de levar a comunicação às pessoas e, também, na forma como as pessoas recebem a comunicação. “Especialmente com a chegada da internet, experimentamos muitas mudanças na prática diária do jornalismo”, comentou Jung. Leny - que está há 25 anos na rádio CBN -, destacou as adaptações que os profissionais de rádio e televisão precisaram empenhar em nome de uma comunicação mais assertiva e mais efetiva. “Os jornalistas de rádio e tevê tiveram que se reinventar em relação às mudanças na linguagem utilizada por esses veículos ao longo do tempo. Especialmente porque a linguagem escrita é muito diferente da linguagem oral”, ressaltou a fonoaudióloga. Comunicação e liderança Conferência Milton Joung e Leny (Foto: Alessandra Rotolo) Além de ancorar o Jornal da CBN há 14 anos, Milton Jung também é apresentador do programa Mundo Corporativo, na mesma emissora, em que recebe gestores empresariais para falar de negócios, inovação, liderança e cultura organizacional. Essa experiência revelou ao jornalista tanto a evolução no vocabulário corporativo como o declínio do modelo comando-controle de liderança, com tudo passando pela importância da comunicação. Para Leny Kyrillos, que é coautora com Jung da edição ampliada do livro “Escute, Expresse e Fale!” , as competências de comunicação tornaram-se essenciais para as relações humanas e são fundamentais no mundo executivo.  “O modelo comando-controle não é mais sustentável, especialmente após a pandemia, principalmente em função da saúde mental. De lá pra cá, as relações de trabalho passaram a exigir posturas e tratamentos mais humanizados e lideranças mais acolhedoras. E sem uma comunicação afinada, isso não é possível”, pontuou Kyrillos. “Pesquisas mostram que o Brasil é o país mais ansioso do mundo e é urgente o olhar mais atento para a humanização nas relações de trabalho”, completou a colunista da CBN. Outro recorte abordado pelos conferencistas foi o desafio que envolve a comunicação intergeracional. “Comunicação é a ação de tornar comum, e a forma de fazer isso na diversidade geracional é um desafio para os líderes e gestores organizacionais”, destacou Leny Kyrillos. Para ela, a diversidade traz resultados muito positivos e torna as relações de trabalho mais interessante com a valorização de pessoas mais velhas nas empresas e corporações, junto com os jovens que nasceram com a internet. “Porém, especialmente para liderar a geração Z, os gestores precisam ter muita coerência entre o que falam e o que fazem, além de solidez na forma de se posicionar. Tudo isso é comunicação”, enfatizou. Erros na comunicação Na visão do jornalista Milton Jung, é grande o campo de melhorias a serem buscadas nos processos de comunicação e a escuta ativa é a espinha dorsal nisso. “A todo instante temos que buscar formas mais acessíveis de chegar às pessoas. É um movimento contínuo. Nesse cenário, um erro muito comum é a falta da escuta ativa, tanto na comunicação profissional, como na corporativa e nas relações humanas de modo geral. A dificuldade e a falta de habilidade para escutar o outro geram falhas importantes na comunicação. Por outro lado, ter a escuta ativa afiada amplia os espaços de liberdade”, reforçou o apresentador do Jornal da CBN. Leny Kyrillos chamou ainda a atenção do público para o fato de que a escuta ativa representa mais de 50% de acerto para uma boa comunicação. “Em comunicação não existe o óbvio, o pressuposto de que o outro nos entendeu corretamente. Para ser efetiva, a comunicação precisa ser simples, direta e afetiva, compondo a ação de mostrar ao outro nosso desejo de encurtar as distâncias”, disse Leny. “É preciso abrir a escuta para entender. Sem isso, se perde a chance de crescer”, emendou Milton Jung. Livros, IA e futuro do jornalismo Conferência Milton Joung e Leny (Foto: Alessandra Rotolo) O último tópico abordado na conferência foi a revolução trazida pela IA (Inteligência Artificial) ao universo da comunicação jornalística. Para Milton e Leny, há mais pontos positivos que negativos nesse processo e não é preciso temer a novidade. “Temos que mudar a ideia do isso menos aquilo na relação entre IA e humanos porque não são excludentes. Vamos aprender a fazer coisas e a melhorar nossa comunicação porque a IA é uma ferramenta que, essencialmente, exige boa capacidade de fazer perguntas”, refletiu Jung. “A IA não vai nos substituir. A substituição será entre os humanos que dominam essa ferramenta e os que não dominam”, acrescentou Keny Kyrillos. Os conferencistas encerraram sua participação na 24ª FIL destacando a importância da consciência sobre os sinais emitidos pela comunicação em todas as relações humanas. “A comunicação está presente em todos os momentos e situações da vida e é importante saber se comunicar bem, sem esquecer as subjetividades envolvidas nesse processo”, alertou a fonoaudióloga Leny. Milton Jung se despediu lembrando que “o limite da nossa linguagem nos limita no mundo. A atividade contou com apoio do Grupo EP, do Sesc e rádio CBN Ribeirão Preto. A programação completa da FIL 2025 está disponível no site da Fundação do Livro e Leitura de Ribeirão Preto: www.fundacaodolivroeleiturarp.com . A realização da FIL conta com a parceria da Prefeitura Municipal por meio das Secretarias de Governo, Casa Civil, Educação, Cultura e Turismo, Infraestrutura, Meio Ambiente, Esportes, Fiscalização Geral e Saerp; do Ministério da Cultura e Governo do Estado de São Paulo por meio da Secretaria Estadual da Cultura, Economia e Indústrias Criativas, Sesc e Senac.

  • Milton Hatoum e Rafael Calça participam de encontro com estudantes durante a 24ª FIL

    Mais de 1600 alunos se encontram com os escritores. Eles se envolveram com suas obras durante o primeiro semestre do ano e apresentaram os trabalhos no Theatro Pedro II Milton Hatoum no Combinando Palavras (Foto: Sté Frateschi) O Projeto Combinando Palavras reuniu nesta quinta-feira (21) milhares de estudantes no Theatro Pedro II, em Ribeirão Preto, em uma manhã dedicada à literatura. O escritor Milton Hatoum, eleito no início de agosto para a cadeira nº 6 da Academia Brasileira de Letras, participou pela primeira vez da iniciativa e acompanhou apresentações inspiradas em suas obras, entre elas Relato de um certo Oriente  e Dois Irmãos . No mesmo dia, o quadrinista e escritor Rafael Calça, autor de Jeremias: Pele , esteve com alunos em outras apresentações, que abordaram identidade, representatividade e o papel das narrativas visuais. Milton Hatoum Pedro Henrique Carrion Benatti, Mayara Limada Silva e Leandro Negreiros (Foto: Sté Frateschi) Estudantes de mais de 10 escolas de Ribeirão Preto e região subiram ao palco para mostrar produções realizadas a partir da leitura do autor. A estudante Mayara Limada Silva, de 17 anos, relatou que a experiência ajudou no seu desenvolvimento artístico. “Foi desafiador trabalhar com essa obra porque eu não conhecia o autor mais a fundo. Participar três anos seguidos do Combinando Palavras me ajudou a despertar meu lado artístico e aprimorar minha escrita”, disse.  Já o estudante Pedro Henrique Carrion Benatti, também de 17 anos, disse que o projeto ampliou o interesse pela literatura nacional. “Eu não conhecia o autor até então. O Combinando Palavras nos faz conhecer mais sobre a literatura brasileira e me ajudou a gostar mais do teatro, que virou meu sonho. O projeto é fundamental para mostrar que a arte pode fazer parte do futuro de cada estudante”, afirmou. Milton Hatoum no Combinando Palavras (Foto: Sté Frateschi) Envolvimento é a chave principal do projeto e para o professor Leandro Negreiros, da PEI E.E. Dr. Geraldo Corrêa de Carvalho, o mais significativo neste ano foi a possibilidade de os estudantes entrarem em contato com a literatura de maneira ativa. “Além da leitura da obra, nós pudemos viver muitas emoções. Descobrimos que não estamos sozinhos no mundo”, declarou. Após as apresentações - que reuniram muita música, poesia e dança - a manhã foi encerrada com a fala de Milton Hatoum, que agradeceu aos estudantes e professores pela dedicação às suas obras.  Para o escritor, os livros têm um papel importante na formação dos jovens. “A literatura não é só diversão, não é só entretenimento: ela nos permite conhecer realidades sociais, culturais e históricas”.  Para Hatoum, o programa é uma das coisas mais bonitas que estão acontecendo. “Quem me dera que todos os municípios brasileiros tivessem uma ação como essa”, afirmou, lembrando de sua experiência como professor. “Fui professor durante 15 anos e sei que a formação dos estudantes depende também deles. O que vi aqui foi paixão pelos livros, mas também compreensão da Amazônia, da imigração do Líbano e de diferentes paisagens do Brasil”, disse.  Rafael Calça Rafael Calça no Combinando Palavras (Foto: Barbara Santos) No período da tarde, mais alunos estiveram na sala principal do Theatro Pedro II combinando novas palavras, dessa vez, ao lado do do escritor e quadrinista, Rafael Calça, que viveu momentos de fortes emoções ao lado de 800 jovens do 9º ano do ensino fundamental. Para ele, essa experiência foi marcante, não apenas pelo contato com os estudantes, mas pela intensidade da troca. “Fiquei muito emocionado e, na verdade, foi um momento inesquecível. Nunca entendemos o quanto o nosso trabalho pode chegar nas pessoas e, através dos professores, chegaram a esses estudantes de uma forma incrível”, afirmou. Reconhecido nacionalmente, Rafael Calça é vencedor de importantes prêmios literários e de quadrinhos. Em 2019, recebeu o Prêmio Angelo Agostini de Melhor Roteirista, além de dois troféus HQ Mix (Melhor Edição Especial Nacional e Melhor Publicação Juvenil) e o prestigiado Prêmio Jabuti de Melhor História em Quadrinhos, todos por Jeremias – Pele . No ano seguinte, 2020, conquistou o Prêmio Machado, da Editora DarkSide, consolidando sua relevância no cenário das HQs nacionais. Beatriz Maria no Combinando Palavras (Foto: Barbara Santos) O autor, que se surpreendeu com a forma como os alunos expressaram sua obra, disse que a literatura em quadrinhos abre espaços para múltiplas leituras e novas interpretações. “Teve rap, música, paródia, desenho. Eles leram para além daquilo que eu desenhei, que eu escrevi. Tinha ali a interpretação deles: algo a mais, que eu não disse, mas eles sentiram. Essa é a melhor troca entre um autor e seus leitores”, contou. A emoção tomou conta da estudante Beatriz Maria, de 15 anos, aluna do 9º ano da E.E. Vereador José Velloni, de Ribeirão Preto. Para ela, subir no palco diante de 800 colegas e do Rafael Calça foi uma experiência inesquecível. “Essa emoção foi de felicidade”, contou a jovem. Ao comentar sobre a obra de Rafael, ela destacou o significado profundo que encontrou na narrativa de Jeremias – Pele . “É força e luta, porque ele fez uma obra que realmente diz muito sobre as pessoas negras. Eu e o professor Jefferson queríamos representar essas pessoas na luta, nessa força que elas têm”, afirmou. Beatriz Maria e Jefferson Lopes de Azevedo (Foto: Barbara Santos) O professor Jefferson Lopes de Azevedo participa há seis anos do projeto e acredita em sua relevância pedagógica. “Cada vez que viemos é sempre melhor. Essa formação para os alunos é de extrema importância. É aí que eles veem que existe uma pessoa por trás do livro, que o autor é de carne e osso”, explicou. Para ele, a presença de um quadrinista como Rafael Calça amplia o horizonte dos estudantes. “O texto não verbal fala muito mais do que uma palavra. Os quadrinhos se aproximam da realidade da escola, da vivência dos alunos, que são mais visuais. É uma linguagem contemporânea que os coloca mais à vontade”, concluiu.  O Combinando Palavras integra a 24ª Feira Internacional do Livro de Ribeirão Preto, promovida pela Fundação do Livro e Leitura, e aproxima autores consagrados de estudantes da rede pública, que apresentam releituras literárias por meio de música, poesia, dança e teatro. A programação completa da FIL 2025 está disponível no site da Fundação do Livro e Leitura de Ribeirão Preto: www.fundacaodolivroeleiturarp.com . A realização da FIL conta com a parceria da Prefeitura Municipal por meio das Secretarias de Governo, Casa Civil, Educação, Cultura e Turismo, Infraestrutura, Meio Ambiente, Esportes, Fiscalização Geral e Saerp; do Ministério da Cultura e Governo do Estado de São Paulo por meio da Secretaria Estadual da Cultura, Economia e Indústrias Criativas, Sesc e Senac.

  • Literatura, memória e resistência marcam o sexto dia da 24ª FIL

    Mais um dia com programação para todas as idades. A agenda desta última quarta-feira (20) trouxe uma programação que mostrou o livro como instrumento de formação, diálogo e transformação social Rafael Calça e Matheus Arcaro A quarta-feira (20), sexto dia da 24ª FIL (Feira Internacional do Livro de Ribeirão Preto), apresentou uma programação distribuída por diferentes espaços da cidade, com encontros literários, contação de histórias, palestras, oficinas e rodas de conversa. Crianças, estudantes, escritores, artistas e representantes de instituições participaram das atividades, que discutiram temas como memória, resistência cultural, formação de leitores e o papel da literatura na transformação social. Logo pela manhã, mais de mil crianças ocuparam a esplanada do Theatro Pedro II para acompanhar o projeto Combinando Palavras, com a participação da escritora Socorro Acioli. Os autores André Luís Oliveira, Cidinha da Silva e Rafael Calça também participaram do projeto em outros locais.   Márcia Kambeba (Foto: Lucas Batista) No espaço Ambient de Leitura, a escritora e ativista indígena Márcia Kambeba, do povo Omágua/Kambeba, apresentou a contação de histórias “Maqueira de Tucum”. Às 10h, ela conduziu a palestra “Índio eu não sou”,  em que relacionou literatura, resistência e a preservação da língua originária. Márcia relatou o impacto da perda do idioma originário, ainda na infância, e como isso a motivou a transformar a dor em poesia. “Essa foi a minha primeira violência que o contato me trouxe. Quando eu fui crescendo, comecei a entender que eu tinha que fazer algo diferente. A violência que eu passei eu não queria que outros passassem. Comecei então a escrever poesia com 13 anos”, afirmou. Poesia independente Jô Freitas (Foto: Sté Frateschi) Ainda no período da manhã, no auditório Meira Junior, estudantes acompanharam a palestra da poeta e escritora baiana, Jô Freitas, criadora do Sarau Pretas Peri , que apresentou reflexões sobre gêneros literários e sobre seu livro de contos Goela Seca . “Independentemente do que as pessoas conheçam ou não, eu escolhi aquilo que estava mais próximo do meu processo de escrita. A ‘Joana’, personagem que aparece em todos os contos, me persegue. Agora, no próximo livro, ela volta a aparecer”, disse. Jô destacou ainda o papel da poesia no cotidiano. “A poesia me faz olhar o mundo com os meus olhos renovados todos os dias. E talvez isso faça a gente se tornar a gente mesmo. A gente se ilumina mais”, completou. Redação Vestibular A programação da tarde incluiu oficinas práticas, entre elas a de preparo de café e a de produção de aromatizadores. Também houve espaço para estudantes que se preparam para o Enem e vestibulares, em um bate-papo conduzido pelo professor de redação Fábio Itasiki. Ele destacou a importância da leitura como base para a escrita. “O repertório sociocultural é o que dá profundidade à redação. Sem leitura constante, não há como sustentar um bom texto”, afirmou. Itasiki chamou a atenção ainda para a influência do ambiente digital na formação de argumentos. “As redes sociais trazem muita informação, mas é preciso olhar de forma crítica para selecionar o que realmente contribui para a construção de conhecimento”. Segundo ele, a chave é aprender a relacionar referências diversas com os temas propostos nos exames. “Um bom repertório não vem pronto, ele se constrói com tempo, atenção e curiosidade sobre o mundo.” Poder da Literatura no cárcere Na Biblioteca Padre Euclides, uma roda de conversa tratou da leitura no sistema prisional. Representantes da Secretaria de Administração Penitenciária (SAP), da Fundação “Prof. Dr. Manoel Pedro Pimentel” (FUNAP), da Polícia Penal, de universidades e de organizações sociais debateram temas ligados à humanização, ressocialização e remição de pena pela leitura. O diretor executivo da FUNAP, coronel Mauro Lopes dos Santos, destacou que a leitura é fundamental e indispensável nos processos de ressocialização. “O conhecimento liberta. O livro traz uma perspectiva de vida nova, abre o horizonte, desperta até o gosto pela leitura. A principal importância não é só a remissão da pena, mas a oportunidade de se descobrir e buscar novos caminhos”, afirmou. Já o escritor e presidente do Observatório do Livro, Galeno Amorim, destacou o poder biblioterapêutico do livro. “Quando a gente lê, nunca mais é a mesma pessoa”, disse. Esse impacto foi reforçado no depoimento de Carlos Andrade, ex-detento e agora advogado, que relatou ter encontrado na literatura “uma boia no oceano, capaz de me resgatar do mundo do crime e abrir o caminho para a educação e para uma vida transformada.” Dinâmicas do clima Os desafios climáticos foram o foco do debate de final de tarde na Tenda Sesc. Amanda Costa, do Instituo Perifa Sustentável; e Kamila Camilo, ativista climática e empreendedora social, comentaram os desafios das questões que envolvem os impactos das ações humanas na alteração do clima em âmbito global, e falaram sobre a importância das pequenas ações locais. “Falar sobre clima é falar sobre vida, saúde, moradia, transporte, alimentação sustentável, educação ambiental, porque tudo é atravessado pelas alterações climáticas”, destacou Amanda Costa. Ela também lembrou a relação entre questões climáticas e organizações sociais. “Na sociedade de classes, o dinheiro faz diferença quando há enchentes, por exemplo. Por conta disso, na periferia, esse debate sempre foi uma realidade”, completou.   Para Kamila Camilo, a união local é o caminho antídoto da questão. “Quanto mais as pessoas se unem localmente, mais impactos positivos teremos, mesmo com as demandas globais. Para todos os desafios do mundo, a resposta é comunidade”, destacou. As palestrantes explicaram também o tripé do enfrentamento às questões climáticas: mitigação, adaptação e resiliência. “Mitigar é reduzir movimentos negativos e danosos, como a emissão de CO2. Adaptação climática é a busca por alternativas para que as cidades possam lidar melhor com situações de eventos climáticos extremos. E a resiliência é a união de mitigação e adaptação, com iniciativas como, por exemplo, optar por construções mais sustentáveis antes de os problemas acontecerem”, esclareceu Kamila.  Finanças em ordem Outro bate-papo bacana na agenda de quarta-feira na FIL foi Planeje seu futuro com educação financeira , realizado no Espaço Oficinas Senac. A atividade apresentou conceitos essenciais para organizar as finanças pessoais, com foco num futuro mais seguro e sustentável economicamente. Da inadimplência gerada por consumo de impulso até a definição dos objetivos financeiros a partir de sonhos e metas, a palestra abordou pontos cruciais de educação financeira para quem quer colocar o bolso em ordem. “Compreender o valor do dinheiro é parte fundamental nesse processo, assim como ter clareza do diagnóstico financeiro que se tem no momento. Além disso, as decisões de consumo - que envolvem respostas honestas a perguntas como eu quero? eu posso? precisa ser agora? está no preço justo? - precisam ser consideradas antes de todas as compras”, salientou Thiago Gama, consultor em finanças pessoais e professor do Senac.   Dos livros para as telas Em mais um concorrido Salão de Ideias, a jornalista e escritora cearense Socorro Accioli - vencedora do Prêmio Jabuti 2023 de livro infantil - revelou que dois de seus livros serão transpostos para o cinema. “A cabeça do santo”  e “Oração para Desaparecer”  tiveram seus direitos vendidos para produtores cinematográficos e começam a ser filmados em 2026.  Numa conversa solta, Socorro Accioli falou sobre seu processo de escrita, a insegurança com seu próprio trabalho, e dos desafios e exigências que o ofício da escrita envolve. “A profissão de escritora exige paciência e se constrói lentamente. Antes de colocar o pé na seara, é preciso pensar na identidade como autora, entender o que se quer escrever, organizar o caminho do trabalho, além de ter repertório de leitura e de vida”, alertou Accioli.  A escritora comentou sua ligação com o universo da religiosidade, que pauta algumas de suas obras e sobre o interesse pela escrita desde a infância. “Nasci em uma família bem católica, mas meus questionamentos de fé me levaram a circular por diferentes experiências de religião. Por isso, não admito nenhum tipo de desrespeito com as diferentes formas de fé e  até, com a não fé das pessoas”, pontuou.  Socorro falou também sobre seu novo livro, que tem inspiração em um grupo de pessoas que sai de um hospital psiquiátrico e se instala num prédio abandonado em Fortaleza. “É um livro bastante diferente porque se afasta de cenários e referências religiosas, além de ser ambientado em locais que não existem mais”.

  • Concepção indígena sobre tempo e futuro pontuou a conferência de quarta-feira na 24ª FIL

    Com participação de Geni Núñez e Auritha Tabajara, a atividade destacou questões como luta anticolonial, etnogenocídio, ideia de progresso e desenvolvimento, e reconhecimento dos povos indígenas como guardiões da diversidade do planeta Geni Núñez e Auritha Tabajara na 24ª FIL (Foto: Sté Frateschi) De volta à FIL - Feira Internacional do Livro de Ribeirão Preto, a psicóloga e ativista indígena guarani Geni Núñez dividiu o palco da sala principal do Theatro Pedro II com a também indígena, Auritha Tabajara, cordelista e contadora de histórias, ganhadora do Prêmio Jabuti 2024, na abordagem do tema Futuros Possíveis - Povos Indígenas , um desdobramento da temática central da 24ª edição do evento. Na abertura, Auritha Tabajara cantou uma música tradicional de seu povo, em reverência à sua ancestralidade, à ancestralidade guarani de Geni Núñez, e à ancestralidade de todos da plateia. A psicóloga Geni iniciou sua fala agradecendo o convite da FIL. “É muito especial estar novamente nesta feira, ao lado da Auritha, uma das nossas grandes referências da literatura indígena, e cuja relação com a escrita e com a palavra é também fruto da nossa luta”. A ativista falou sobre o que ela acredita ser a maior força colonial sobre os indígenas. “Creio que essa força esteja naquilo que é posto em nome do bem, do amor, da família, de Deus, do futuro. E esse nosso encontro aqui é para, também, nos voltarmos à questão de avaliar o grau de alegria em nossa vida não pelo que virá, pelo progresso, mas pelo que temos agora. Se gostamos da nossa vida como ela está hoje, a propaganda de ter uma vida melhor não fica tão forte”, disse Geni Núñez, inserindo a reflexão sobre o que é progresso, o que é ser um povo desenvolvido, o que é ter vida melhor, a partir das crenças e conceitos impostos pela população não indígena. Geni Núñez e Auritha Tabajara na 24ª FIL (Foto: Sté Frateschi) A palestrante citou a fala de um cacique de seu povo sobre não haver indígenas batendo às portas das casas tentando impor sua palavra a quem quer que seja. “Isso não acontece porque nós, indígenas, não achamos que nosso modo de pensar é superior ao do mundo todo. Não cremos nessa monocultura de pensamento e de existência”, salientou. Outro aspecto abordado foi a visão de que indígenas precisam aprender, crescer e se desenvolver. “É a ideia que o povo indígena precisa evoluir, progredir e melhorar porque somos atrasados. Tudo sob uma capa de ser tudo isso algo bom. Mas a gente tem certa desconfiança com o que é chamado de progresso e evolução. E isso também tem ligação com a questão do tempo, do futuro”, pontuou Geni Núñez, que é doutora em Ciências Humanas, destacando a luta do movimento indígena para que vozes como a sua e de Auritha sejam escutadas. Auritha Tabajara na 24ª FIL (Foto: Sté Frateschi) Queria ser um grão Auritha Tabajara falou sobre os conceitos de erro e sobre seu desejo de florescer dentro dos ensinamentos de seu povo. “Sempre acompanhei meus avós e pais no remexer da terra e adorava revirá-la dias depois do plantio para ver o crescimento das sementes. E pensava que também queria ser semente e brotar”. Na escola regular, ela conta que era colocada de castigo por ser inquieta. Na aldeia, ela explicou que não existe essa prática: “as crianças aprendem por meio da contação de histórias, com respeito à sua voz”. Foi nesse contraste que, aos nove anos, Auritha escreveu seu primeiro texto, chamado Grão , como forma de expressar o desejo de brotar. Etnogenocídio Geni Núñez na 24ª FIL (Foto: Sté Frateschi) Geni Núñez abordou as consequências históricas do Estatuto do Índio, lembrando que, antes de sua criação, eram profissionais não indígenas que definiam quem era ou não indígena, com base em critérios considerados científicos. Segundo ela, essa prática comprometeu a autonomia dos povos originários e invisibilizou suas narrativas. Em sua participação, destacou que sua pesquisa se concentra nas perspectivas Guaranis sobre a colonização e compartilhou alguns de seus poemas com o público. A programação completa da FIL 2025 está disponível no site da Fundação do Livro e Leitura de Ribeirão Preto: www.fundacaodolivroeleiturarp.com . A realização da FIL conta com a parceria da Prefeitura Municipal por meio das Secretarias de Governo, Casa Civil, Educação, Cultura e Turismo, Infraestrutura, Meio Ambiente, Esportes, Fiscalização Geral e Saerp; do Ministério da Cultura e Governo do Estado de São Paulo por meio da Secretaria Estadual da Cultura, Economia e Indústrias Criativas, Sesc e Senac.

  • Literatura ganha voz, corpo e expressão no Combinando Palavras da FIL

    Estudantes que participaram do projeto nesta quarta-feira, 20 de agosto, transformaram leitura em arte no Theatro Pedro II, recriando a literatura de Socorro Acioli em múltiplas linguagens Socorro Acioli no Combinando Palavras (Foto: Sté Frateschi) Como sementes, as palavras encontraram terreno fértil nos jovens leitores que participaram do projeto Combinando Palavras nesta 24ª FIL   (Feira Internacional do Livro de Ribeirão Preto) .  Ao longo do semestre, cada texto lido germinou novas formas de criação: da leitura nasceram canções, coreografias, filmes, colagens, poemas, encenações, artesanato e até culinária. A literatura revelou-se como ponto de partida - um convite para que os estudantes desnudassem sua veia autoral. Desse processo, nasceram narrativas reinventadas e interpretações estudantis que se tornaram uma poderosa ferramenta de expressão artística. Desde sua criação, o Combinando Palavras  já envolveu mais de 50 mil alunos de escolas municipais, estaduais e particulares de Ribeirão Preto e região, além de mais de 300 professores em 230 escolas participantes. Ao longo dos anos, o projeto se consolidou como um espaço de encontro entre leitura e expressão artística, abrindo caminhos para que estudantes se tornem protagonistas do próprio processo criativo. Em 2025, cerca de 9 mil alunos mergulharam nas obras de autores convidados e  deram vida a novas formas de sentir e comunicar a literatura — reafirmando a força da palavra como ponte para múltiplas linguagens. Entre o livro e a cena Socorro Acioli no Combinando Palavras (Foto: Sté Frateschi) Para muitos dos estudantes envolvidos no projeto, subir ao palco foi a primeira experiência diante de uma plateia numerosa. Yasmin Alves Leite Corrêa ,  16 anos, da Escola Estadual Djanira Velho, lembra que já havia interpretado na escola, mas destaca a sensação de estar diante do público na FIL. “É totalmente diferente. Dá vergonha, mas também é muito especial. Depois do projeto, a leitura ganhou outra dimensão. Gostei muito”. Assim como Yasmin, outros alunos também descobriram novas conexões entre literatura e arte. Para Ryan Gomes da Costa, 15 anos, da mesma escola, o projeto abriu horizontes inesperados. “Foi uma alegria muito grande - minha primeira vez no teatro. Ver todo mundo aplaudindo foi especial. Eu já canto sertanejo e percebi que o  poema, o texto, tudo pode se transformar em música. A arte é muito linda e esse projeto mostra isso”. Se a música abriu caminhos para uns, a dança foi a linguagem escolhida por outros. Heylin Maria Faltão Calegari, aluna do 3º ano do Colégio Otoniel Mota, contou que transformar poemas em movimentos corporais exigiu improviso e sensibilidade. “Costumo dançar movida pela música, mas dançar também a partir de um poema foi muito diferente. A obra ajudou muito a entender sentimentos como mistério, tristeza, felicidade e empatia. Foi uma aprendizagem muito rica”. Socorro Acioli no Combinando Palavras (Foto: Sté Frateschi) Outros descobriram na literatura a porta de entrada para a criação autoral. Foi o caso de Denilson Oliveira , da Escola Estadual Jovem Felipe Gui Rocha,   que encontrou nos livros o impulso para escrever seus primeiros poemas. “Foi emocionante estar ao lado da autora. Eu comecei a fazer poemas a partir das leituras. Pretendo continuar, porque a literatura me inspirou a criar”. Para Matheus Rodrigues, também aluno da mesma escola, o processo coletivo foi o que mais marcou. “Trabalhar com a obra, do começo ao fim, trouxe repertório. Fizemos até uma canção autoral a partir do livro, com apoio da inteligência artificial para criar música com as palavras que escolhemos do texto. Foi uma experiência incrível”. Entre música, dança, teatro, cinema, poesia, artes plásticas e até artesanato, os estudantes mostraram que, quando a leitura encontra a criatividade, nascem novas linguagens, que emocionaram  não apenas os colegas e professores, mas também a própria autora. O olhar dos professores Socorro Acioli com os professores no Combinando Palavras (Foto: Sté Frateschi) Para os educadores, o projeto é também um exercício de transformação. A professora Débora Lino Giustin,da  Escola Estadual Jovem Felipe Gui Rocha admite que o início foi desafiador, já que os estudantes não conheciam a obra da escritora trabalhada. Mas, pouco a pouco, o envolvimento cresceu. “Eles se mostraram muito parceiros, dedicados e mergulharam na pesquisa sobre o livro e sobre a vida de Socorro Accioli. O resultado foi um trabalho emocionante”. O professor Alexandre Augusto dos Santos ,  da Escola Estadual Serra Azul, revela que a participação constante no Combinando Palavras tem proporcionado experiências únicas aos alunos. “Eles se transformam, se envolvem bastante e querem saber mais. Essa curiosidade gera muita criatividade na hora das releituras”. O professor  contou que, neste ano, em especial, eles ficaram fascinados pelo tom de mistério da obra de Socorro  e conseguiram relacioná-la com diferentes períodos da literatura, como a geração de 30, o pré-modernismo e a produção do Nordeste. “Foi muito rico acompanhar esse processo”. Já o professor Murilo Fernando Pereira, de Arte e Filosofia, da Escola Estadual Professora Neusa Maria do Bem, ressalta que o projeto foi além da leitura. “Os alunos não apenas leram, mas viveram o livro. Essa edição despertou a habilidade autoral dos alunos, que escreveram a Oração para Reaparecer  em resposta ao livro Oração para Desaparecer . Eles trouxeram de dentro o que tinham de mais íntimo”. Nesta quarta-feira (20) participaram das apresentações no Theatro Pedro II estudantes de diferentes cidades da região. De Ribeirão Preto, estiveram presentes alunos da Marista Escola Social Ir. Rui, da E.E. Professora Djanira Velho, da E.E. Alberto Santos Dumont, da E.E. Otoniel Mota, da E.E. Prof. Walter Ferreira, da E.E. Jovem Felipe Gui Rocha, da E.E. Vicente Teodoro de Souza e da E.E. Vereador Orlando Vitaliano. Também marcaram presença a E.E. Profª Neusa Maria do Bem, de Serrana, a E.E. Serra Azul, de Serra Azul, a E.E. Abel dos Reis, de Cássia dos Coqueiros, e a E.E. Dr. Washington Luís, de Batatais. A emoção da autora Apresentação dos alunos no Combinando Palavras (Foto: Sté Frateschi) Nascida em Fortaleza, Ceará, em 1975, Socorro Acioli é jornalista, mestre em Literatura Brasileira e doutora em Estudos de Literatura. Reconhecida pela produção de livros infantojuvenis premiados e traduzidos em diversos países, ela venceu o Prêmio Jabuti com Ela tem olhos de céu e também é autora de obras como A bailarina fantasma, A cabeça do Santo e Oração para desaparecer. Professora da Universidade de Fortaleza, onde coordena a especialização em Escrita e Criação, atua ainda como tradutora, ensaísta e palestrante. Com a experiência de quem conhece tanto o silêncio da escrita quanto a expectativa da recepção de um livro, Socorro se emocionou ao ver suas obras ganhando novas leituras pelos estudantes. “Estou muito admirada com a coragem de todos que subiram ao palco. A vida de um escritor é solitária, a gente escreve sem saber como o livro vai ser recebido. E hoje eu vi vocês reinventando as histórias, deixando os livros muito melhores do que são. Ninguém fez exatamente o que está no livro, todos recriaram, trouxeram para a realidade. Isso mostra que o livro foi lido e sentido. Só tenho a agradecer”. A autora homenageada pelo projeto Combinando Palavras reconhece que esse encontro teve um peso especial também para sua trajetória. “Para mim, esse momento é ainda mais importante do que para os estudantes.  O que eles fazem é o que realmente importa: ler e recriar. Ver essa semente germinar é o maior presente que posso levar dessa experiência”. Uma grande celebração da palavra O Combinando Palavras  confirma, ano após ano, que a literatura é um fio condutor capaz de costurar mundos e linguagens. “O projeto cresceu com a FIL e se tornou uma das nossas ações mais potentes. Ele cria vínculos reais entre os jovens e a literatura, formando professores e alunos como mediadores culturais em suas comunidades”, destaca Adriana Silva, curadora da FIL e vice-presidente da Fundação do Livro e Leitura de Ribeirão Preto. Para a gestora executiva da Fundação, Priscilla Altran, que conduz os encontros do projeto nesta edição da FIL, no palco do Theatro Pedro II, é nítido o crescimento que a experiência proporciona aos alunos. “Entre a leitura silenciosa e a criação coletiva, nasce a celebração da palavra. É o momento onde a solidão do autor provoca uma explosão criativa nos alunos. É um processo orgânico, multifacetado  e transformador”, conclui.

botao_fixo.png
logo.png
  • Instagram
  • Facebook
  • Preto Ícone LinkedIn
  • Twitter
  • YouTube

Rua Professor Mariano Siqueira, 81

Jardim América - Ribeirão Preto SP

Fale conosco

Telefone: (16) 3900-0284 | 3911-1050

WhatsApp: (16) 98201-2389

contato@fundacaodolivroeleitura.com.br

Horário de Funcionamento

De segunda a sexta, das 9h às 18h

*Consulte nossos horários especiais de funcionamento durante a Feira Internacional do Livro e demais eventos.

Receba nossa News e fique por dentro de todos nossos eventos e notícias

Obrigado pelo envio!

bottom of page