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- “Até hoje nos cobram deveres e esquecem que somos detentores de direitos”, afirmou Renata Sangoranti
Em parceria com a Fundação do Livro e Leitura de Ribeirão Preto, fundadores e integrantes do Centro Cultural Orunmila (CCO), como Renata, participaram de encontro online realizado no dia 6 de novembro durante a 40tena Cultural. Live tratou de assuntos como cultura e resistência negra Ribeirão Preto (SP), 9 de novembro de 2020 – A Fundação do Livro e Leitura de Ribeirão Preto promoveu um encontro, na última sexta-feira (6/11), em parceria com o Centro Cultural Orunmila (CCO), em mais uma atividade do projeto “40tena Cultural”. Transmitida a partir das 19h, pelo aplicativo Zoom e também pelo site oficial da Fundação, a conversa foi mediada pela presidente interina da instituição, Adriana Silva, e teve como convidados Babá Paulo Ifatide Ifamoroti, Mãe Neide, Renata Sangoranti, Silas Nogueira e Rudah Felipe. O bate-papo abriu as portas para um debate sobre resistência, movimento negro, transformação, ancestralidade, expressões culturais diversas e muito mais. O Centro Cultural Orunmila foi fundado em Ribeirão Preto em 1994, tendo suas raízes na comunidade religiosa Egbe Awo Ase Iya Mesan Orun (Culto à tradição mãe dos nove mundos), que já existia desde 1983. Ele nasceu da necessidade da preservação e promoção da cultura negra, e atua como um instrumento de combate ao racismo ao promover a cidadania das populações negras e periféricas. Nestes 26 anos de atuação ininterrupta, oferece oficinas, seminários e cursos de formação, teóricos e práticos – como percussão, dança afro, culinária, indumentárias, capoeira, hip hop, construção de tambores, história, cultura e idioma yorubá – e é também o criador e mantenedor do Afoxé Omo Orùnmilá e da Biblioteca Temática Ile Lati Ede Dudu. Babá Paulo Ifatide Ifamoroti, que estava presente na conversa online, é estudioso da língua yorubá e fundador do Centro, tendo acompanhado a iniciativa desde que ela deu seus primeiros passos. Ele contou que a ideia do Centro sempre esteve muito atrelada à valorização da cultura negra e ao combate ao racismo. “Eu sempre fui ativista do movimento negro e sempre tive a percepção da importância de fazer o combate ao racismo através da cultura”, afirmou. Babá Paulo (ou “Pai Paulo”, como também é chamado) concebe o movimento negro em duas partes: a luta por ações afirmativas e o combate ao racismo. Abordando a questão do racismo, logo no início da conversa, ele disse que é importante entender no que consiste essa forma de discriminação e de que forma ela foi construída. “O racismo existe desde 1454, quando o Papa Nicolau V, através de uma bula, autorizou o tráfico de africanos para as Américas, gerando um desconforto na Igreja Católica. Os europeus passaram a se perguntar então como iam escravizar negros? A resposta que encontraram foi coisificar essas pessoas. Mas como é que se coisifica um portador de cultura?”, questiona. Babá Paulo afirmou que a violência dessa lógica ainda perpassa os dias de hoje e traz dados que o comprovam: no Brasil, morre um jovem negro a cada 23 minutos, assassinado majoritariamente pelas forças policiais. “Por causa dessa realidade, nós decidimos fundar o Centro como combate ao racismo, contra essa visão hegemônica. Não era fácil e não é fácil até hoje, porque somos taxados como violentos: não percebem a violência que vem de falas que ofendem profundamente os negros. Orunmila tem se prestado a isso: a falar sobre, denunciar e ser coerente com a nossa proposta”. Para manter um centro por tantos anos, Babá Paulo diz que foi preciso muita resiliência na luta e que muitas parcerias foram traçadas Brasil afora. “Orunmila é uma entidade reconhecida nacionalmente hoje graças a um trabalho que fizemos no Conselho Nacional de Cultura e em várias instituições pelo país”, conta. Neide Ribeiro, conhecida como Mãe Neide, também está presente desde a criação da comunidade Egbe Awo Ase Iya Mesan Orun, que depois deu origem ao Centro Cultural Orunmila. Ela falou especialmente do impacto que o Centro conseguiu deixar nos 26 anos em que esteve ativo. “Hoje com tantos anos de lutas, sou feliz por ter passado um pouco da nossa cultura e ter condição de ter visibilidade. Nós conseguimos falar do que é Axé e Afoxé através de todas as atividades que fizemos aqui”, afirma. Mãe Neide conta que tem muitas lembranças dos jovens que passaram pelo Centro e fica feliz de vê-los encaminhados. ”Encontro crianças por aqui que fazem capoeira, percussão e dizem: ‘eu ia no Centro desde criança, aprendi muito lá’. Isso é muito gratificante. E aqui sempre foi muito difícil, mas conseguimos colocar nossa cultura, mostrar que fazemos parte e queremos ser respeitados”. Para que isso fosse possível, Neide fala de resistência, e de como foi preciso todo um pessoal para se ter força de continuar. “Ainda falta muito, mas também é muito grande a ideia de que, ao longo de todos esses anos, conseguimos despertar o fato de que nossa cultura existe e precisa ser respeitada. São 6 mil anos de tradição. Isso me faz ter muita coragem, muita força, e agradecer por todos eles. Todos que passaram por aqui”. Renata Sangoranti, que é coordenadora do projeto, nasceu dentro do Orunmila, e diz que falar dele é o mesmo que falar de sua própria existência. “Eu sou filha desses dois baluartes [Pai Paulo e Mãe Neide] que todo mundo está vendo aí. É um privilégio para mim porque há muitos jovens negros que não têm a oportunidade de ver de perto essa cultura. E para nós que viemos de outra geração, é importante ter contato com os nossos ancestrais”, afirma ela. Rudah Felipe, que também compõe o projeto, é mestre da bateria e compositor do bloco carnavalesco Afoxé desde 2002 – sobre o bloco, Mãe Neide disse que “26 anos de Afoxé significou colocar o candomblé de rua ”. Hoje, Rudah realiza oficinas de percussão no Centro Cultural, mas ele veio de São Paulo. “Cresci numa escola de samba, Águia de Ouro e tive minha formação como musicista dentro dessa tradição. Foi através da minha vivência do Orunmila que pude ter contato com vários nomes importantes da música negra na esfera nacional. Isso me ajudou a me conectar com essa consciência e sabedoria ancestral”, contou. O último integrante da live, Silas Nogueira, também compõe o Centro e relata que chegou até lá no final dos anos 90. “Esse encontro foi muito significativo, porque ali eu encontrei uma fonte de conhecimento muito mais sedutora e interessante daquilo que existia na Academia, e com sacerdotes muito ricos. E percebi também que quem participa do Centro faz política muito além do formato partidário”. Proposta de parceria A presidente interina da Fundação do Livro e Leitura de Ribeirão Preto, Adriana Silva, lamentou que a instituição tenha ficado distante do Centro Cultural Orunmila por tantos anos e brincou: “A Fundação está pedindo o Orunmila em casamento, para essa parceria se estender por muito tempo ainda”. Depois da rodada de apresentações, a mediadora da conversa também instigou os participantes a discutirem sobre assuntos como representatividade, resistência e maneiras de se expressar culturalmente. Dentre essas maneiras, a presidente apontou a própria língua como uma fonte importante de resistência. Babá Paulo concordou com a abordagem. “A língua é o que dá a identidade cultural a qualquer grupo humano. Nós chegamos aqui com nomes africanos e fomos batizados com ‘João, Maria, José’. Isso é fundamental”. Paulo tem trazido africanos para dar aula de iorubá, fortalecendo o grupo com essas informações. Ele ainda teceu uma crítica à Lei 10.639, que torna obrigatório o ensino de "História e Cultura Afro-Brasileira e Africana" nas escolas brasileiras: “Temos uma preocupação com isso, porque quem sabe contar essa História não está na Academia, e isso cria um ´problemaço`, porque a Academia não se rende a essas outras concepções de saber”. Para além da Academia, também existe um problema com as próprias forças governamentais. Mãe Neide lembrou que o Centro não conta com verba pública, nem com o compromisso do Estado: “fazemos tudo na raça”. Renata Sangoranti concordou com essa visão. Segundo ela, houve várias oportunidades e vontades que o Orunmila perdeu porque “faltou vontade política”. “Tivemos que começar sempre a discussão de novo a cada nova gestão que se colocava no poder”, conta ela. Como jovem, Renata afirma que é de uma geração que tenta transformar aquilo de destrutivo que gerações anteriores construíram. “É um trabalho muito árduo, mas as coisas estão mudando. Nós encontramos dificuldades em nos conectar com algumas famílias negras por causa dessa onda massificante evangélica, mas sempre continuamos tentando conscientizar nosso povo e tentando quebrar essa barreira criada pela massificação”. Debate sobre educação Babá Paulo lembrou: “qualquer branco que queira combater racismo, tem que conhecer seu lugar de privilegiado pela branquitude, para começar a conversa”. Para ele, é preciso destruir alguns conceitos eurocêntricos que carregamos, já que “por trás de cada palavra criada pelo Ocidente, encontram-se milhares de mortes”. E, para isso, é importante romper uma barreira imposta na própria educação. “Existe uma dificuldade do branco de levar essa criação para a escola por causa de uma ignorância e soberba. E nisso, as crianças negras ficam sabendo de negros somente a partir da escravidão, do negro escravo”. Renata Sangoranti também comentou sobre o impacto que as mídias causam na criação de meninas e meninos negros, uma vez que sempre falta representatividade em meios como a televisão. “Eu venho de uma geração em que as referências que a gente tinha eram a Xuxa, Angélica ou a Eliana: mulheres brancas, loiras e magras. Então, costumo dizer que tenho privilégio de ter nascido num berço de cultura negra e acessar essas informações. Mas, ainda assim, ainda era muito afetada por essas referências da TV”, contou. Ela reforçou que, se para ela, que cresceu no Centro Cultural Orunmila, esse papel da mídia já era impactante, “quiçá as demais meninas que estão totalmente distantes dessa realidade”. Ela relembrou o processo de escravização pelo qual o povo negro passou e como o racismo é resultado dele. “Até hoje nos cobram deveres e esquecem que somos detentores de direitos”. Renata disse que a mídia sempre viabiliza imagens de negros como os “jogadores de futebol” ou “pagodeiros” e que isso gera distorções. “A questão é enxergar o negro e o papel do negro em todas as intâncias de poder. Estamos perto das eleições e convido as pessoas a pensarem em quem são seus candidatos e se eles têm pautas que falam dessas questões”. Ela aproveita também para divulgar que, na segunda-feira (9), às 19h30, o Centro Cultural Orunmila receberá em sua sede candidatos que tratam de pautas raciais. Para finalizar a live, o musicista Rudah Felipe cantou um trecho da “Louvação à Oxalá”, uma das músicas-tema do grupo Afoxé Omo Orùnmilá, que carrega críticas à discriminação racial. Confira letra abaixo: “Eu vou cantar pro meu pai baba Oxalá tocar tambor eu sou da nação Afoxé Orùnmilá Oxalá, sua pureza impera Oxalá, Orixa FunFun Oxalá, nós somos da paz Oxalá, A Irê Baba, Oxalá Oxalá criou a terra gerou a humanidade nos cubra com seu Alá nos traga prosperidade” 40 tena cultural A Fundação do Livro e Leitura de RIbeirão Preto é a principal responsável pela realização da Feira Nacional do Livro, a segunda maior feira a céu aberto do país. Em decorrência da pandemia do coronavírus, as atividades de sua primeira edição Internacional tiveram de ser adiadas para 2021. Com isso, a Fundação tem propiciado diversos encontros em plataformas digitais para que as atividades culturais não deixem de estar presentes, na chamada “40tena cultural”. O projeto também tem como proposta incentivar as pessoas a ficarem em casa durante o período de isolamento social. Semanalmente são divulgadas atividades que abrangem desde as transmissões ao vivo com artistas e convidados até contação de histórias para crianças, show, dicas e discussões de livros. O cardápio de eventos é bem diversificado e usa tecnologias diferentes, mas todas com acesso fácil. Para a diretoria da Fundação do Livro e Leitura, em todo este tempo de quarentena, a principal busca tem sido focada na continuidade das atividades promovidas, de maneira a assegurar os valores do DNA da instituição. A 40tena Cultural possibilitou à toda equipe da instituição continuar seu trabalho em home-office numa operação estruturada dentro dos protocolos da OMS (Organização Mundial de Saúde) e das autoridades brasileiras, em nível federal, estadual e municipal. Como acessar a agenda cultural A 40tena Cultural está sendo divulgada semanalmente nas redes sociais da Fundação do Livro e Leitura de Ribeirão Preto. Para participar, basta acessar os endereços online da instituição. Instagram (@fundacaolivrorp) Facebook (facebook.com/FundacaodoLivroeLeituraRP) Linkedin (fundacaolivrorp), Twitter (@FundacaoLivroRP) Youtube (FeiraDoLivroRibeirao) Site www.fundacaodolivroeleiturarp.com
- “Se você não se vê na literatura, escreva”, aconselha Ryane Leão em live da 40tena Cultural
Convidada pela Fundação do Livro e Leitura de Ribeirão Preto, a poeta e professora Ryane Leão conversou sobre o tema “Instapoetas – autocuidado: a poesia como reAÇÃO” - em bate-papo online, aberto e gratuito realizado no dia 27 de outubro. O projeto 40tena Cultural da Fundação do Livro e Leitura de Ribeirão Preto promoveu nesta terça-feira (27) o Bate-Papo com o tema “Instapoetas – autocuidado: a poesia como reAÇÃO”, com presença da poeta e professora Ryane Leão. Ryane é autora de dois best-sellers: “Tudo nela brilha e queima” (2017) e “Jamais peço desculpas por me derramar” (2019). A autora tem um trabalho pautado na resistência das mulheres e apresenta vários de seus escritos pelo perfil: Onde Jazz Meu Coração. Na live, a escritora contou que tem uma missão no mundo relacionada à palavra, falou das propriedades curativas dos poemas, e ainda acenou para o lançamento de um terceiro livro no início de 2021. Iniciado às 19h, o encontro gratuito e aberto foi transmitido pelo Instagram (@fundacaolivrorp) e também pela plataforma oficial da instituição. A mediação foi da curadora independente e arte educadora, Natália Marques, que tem uma produção ligada a questões étnico-raciais (em especial à mulher negra do interior paulista). Além disso, Natália é membro-fundadora e curadora do coletivo artístico literário Encontrão Poético - SP. Ryane Leão, que hoje recita poemas em saraus e slams pelo Brasil, iniciou a live contando que sua autodescoberta na literatura aconteceu pela internet: “Eu sempre digo que foi uma trajetória de caos e flores. Comecei há 12 anos publicando meus escritos em blogs, quando a internet ainda nem era tão forte. E esse foi um processo de aprendizado solitário, mas necessário... não era uma época muito simples para estar nas redes”. Ela conta que teve de ir aprendendo sozinha os horários de postagem, o que cabia ou não como publicação, e que isso acabou levando-a para vários caminhos na literatura: desde slams até o lançamento de seus dois livros. Por causa deles, a cuiabana já é considerada autora de best-seller, e conta que pretende lançar um novo trabalho no início do ano que vem. “Na pandemia, o processo de escrita tem sido diferente, mais difícil, mas já quero publicar um novo livro em breve. Ainda não sei o nome, porque ele sempre me vem depois”. A autora afirma que suas obras, embora independentes, fazem uma ponte entre si. “A primeira, Tudo Nela Brilha e Queima, era o início do meu recomeço, o ponto de partida de uma mudança, um fogo de artifício. O segundo já é um livro-água, eu já estava mergulhando, me derramando, já me via vento e já aceitava minhas quedas, preparando o chão para que eu pudesse cair confortavelmente. No segundo livro, eu sou exatamente quem eu gostaria de ser no primeiro”, afirma. Ryane diz que foi pela literatura (pelos saraus e batalhas de poesia) que sua palavra foi ouvida pela primeira vez. “Foi o primeiro momento em que senti que minha história estava sendo validada – e por mim mesma também. A gente espera por muito tempo que as pessoas legitimem a nossa vida e a nossa arte”. Para a escritora, as mulheres (principalmente mulheres negras) são vistas muitas vezes como ouvintes mais do que como comunicadoras. “O processo de escuta não pode abafar o processo de ser ouvida. Eu admito ser uma mulher que ouve, mas eu preciso ser ouvida; a minha história é importantíssima, assim como a de outras mulheres negras”. Natália Marques também pontuou que a literatura passada nas escolas não é representativa. “Esse processo estrutural é feito inclusive para nos distanciar dos nossos. Quando a gente vai em uma biblioteca, ainda tem muita dificuldade de encontrar livros que nos representem”, afirma a arte educadora. Ryane concorda: “A literatura que nos é apresentada no colégio é muito distante, não é uma literatura que conta a história da minha mãe, minha história: e o personagem negro nunca tem uma classe social bacana, nunca se sente bem consigo mesmo”. Ela contou que viveu anos sem saber da existência dessa literatura, mas hoje tem a sorte de estar dentro das escolas para falar disso. “Não tem como ser a mesma depois de ter contato com uma literatura em que você se vê. E se você não se vê nela, escreva”. A autora lembra o quanto é difícil que essas mulheres se vejam poetas, e como muitas vezes acabam calando suas escritas e vozes por razões sociais. “Temos que saber a diferença entre timidez e silenciamento. Você não está escrevendo seu texto na internet por que você foi silenciada ou por que tem vergonha? Muitas vezes é porque você foi silenciada”, afirma. Para ela, essa literatura é uma literatura de mudança. “Quando a gente lê algo que não se identifica, é uma pressão no peito. Quando a gente lê mulheres negras, a gente deságua”. Para ela, dentro dessa mesma literatura ancestral, há também um papel curativo. Ryane diz que no início de sua trajetória, escrevia para se salvar, mas hoje entende que a força da literatura está no seu compartilhamento. “Quando escrevemos, é algo tão forte que é como se a gente tivesse ervas sagradas nas mãos. A literatura precisa ser partilhada, não pode parar em mim. Se eu simplesmente escrever só para mim, não faz sentido, não estou conversando com nenhum ancestral e não estou deixando nenhum legado”. Recitando um de seus poemas, a escritora reafirma a missão de mundo que tem com a própria palavra. “Poemas são rezas apressadas. O poema tem algo de espiritual, é o momento do afago, o momento de compreender os abismos, de autoconhecimento, de se perdurar”. Ela diz que, quando começou a escrever na internet, estava sozinha entre muitos homens brancos e ficava incomodada pela literatura que “não era de vivência” e muitas vezes tinha um tom impositivo. "’Se ame’, eles diziam, mas eu queria saber como. E é aí que entra a literatura das mulheres negras: eu quero ser ponte. O meu compromisso não é falar da dor pela dor, é importante criar caminhos. Tenho um compromisso de escrever algo e encontrar essa doçura no final. O amargo já existe”. Como acessar a agenda cultural A 40tena Cultural está sendo divulgada semanalmente nas redes sociais da Fundação do Livro e Leitura de Ribeirão Preto. Para participar, basta acessar os endereços online da instituição. Instagram (@fundacaolivrorp) Facebook (facebook.com/FundacaodoLivroeLeituraRP) Linkedin (fundacaolivrorp), Twitter (@FundacaoLivroRP) Youtube (FeiraDoLivroRibeirao) Site www.fundacaodolivroeleiturarp.com
- “A palavra empodera e traz altivez”, afirmou a poetisa Elisa Lucinda em bate-papo online
Live foi realizada no Dia dos Professores (15) pela Fundação do Livro e Leitura de Ribeirão Preto para discutir o tema “Crítica na Poesia”. Elisa relembrou o papel transformador da educação e indicou que a poesia, sempre ‘anti-bélica’, tem de ser trazida para as salas de aula O projeto 40tena Cultural da Fundação do Livro e Leitura de Ribeirão Preto promoveu no dia 15 de outubro o Bate-Papo com o tema “Crítica na Poesia”, com a poetisa, escritora, jornalista, cantora e atriz, Elisa Lucinda. A autora já tem 18 livros publicados, entre eles “Menina Transparente”, que ganhou o selo “Altamente Recomendado” pela Fundação Nacional do Livro em 2002. Na live, ela falou sobre a força da poesia e da educação, contou sobre suas criações e explicou alguns de seus projetos educacionais. O encontro teve início às 19h pelo Instagram e plataforma oficial da Fundação, e foi mediado por Brenda Falcão, artista visual, tatuadora e integrante da coletiva de rua Sarau DisseMinas, que atua na divulgação da literatura marginal, arte e cultura local de Ribeirão Preto. Brenda Falcão Elisa Lucinda Elisa é reconhecida como uma das escritoras que mais popularizam a poesia atualmente, e sua atividade vai além da literatura: pode ser encontrada nos palcos de teatro, cinema e televisão. Por isso, não foi com surpresa que o público viu a live ser aberta com uma canção de Leci Brandão, cantada pela voz de Lucinda. “Sempre começo cantando, e canto por uma questão de ancestralidade: porque tenho muito indígena e muito preto na minha linha. Essa gente canta para tudo: para orar, para a vida, para a chuva, para a morte”, disse ela. Para Elisa, essa cultura dos povos originários faz muita falta na vida intelectual. “Quando a gente canta, recita um poema, a gente acessa outros lugares e afasta essa má-fama que os intelectuais têm. Os acadêmicos são muito chatos, muito arrogantes, muito pedantes, e não é para isso que a palavra serve”. Em comemoração ao Dia dos Professores, 15 de outubro, Elisa também prestou sua homenagem. “Antes de tudo, quero oferecer minhas palavras e meu máximo respeito ao professor hoje. Eu sei que há professores que são verdadeiros centros culturais, que fazem encontros, debates, teatros. E eu sei que não há resultado na sala de aula sem o afeto. É preciso coragem e amor”, afirmou. Elisa mencionou que é preciso toda uma aldeia para educar uma criança. Na visão dela, um professor ou professora é capaz de entender que a poesia é um incrível equipamento para acessar a empatia das crianças, e que por isso precisa voltar para a escola rapidamente. “Poema é conversa, ele flui. O professor precisa voltar para a sala de aula com essa potência. Precisa ser atraente, não pode ser a mesma aula de ontem. Nenhum aluno é obrigado a aguentar professor chato. Esse professor vivo é o que a gente não se esquece”. Elisa recomendou a professores que conheçam o Casa Poema (@casapoemaoficial), instituição de ensino que fundou junto com a atriz Geovana Pires. “Entre na sala de aula cantando poema. Professor que não sabe direito, pode conferir na nossa escola, que ensina a falar poesia de um jeito coloquial”. Ela explicou que sua escola ministra cursos online nesta fase de pandemia do Coronavírus. As aulas de poesia falada são para todos os públicos, de qualquer profissão. “Já tivemos moradores de rua, temos uma turma só de pessoas trans. O projeto é lindo e você prepara essa pessoa também para uma oportunidade de emprego”, contou. Entre suas reflexões, Elisa comentou que não se tem notícia de nenhum poema que mande matar as criancinhas e garantiu: “a poesia é anti-bélica”. Encontro com a poesia O contato da autora com a poesia veio cedo. Aprendeu o primeiro poema aos oitos anos, em seu colégio de freira [para você ver que não adianta nada”, brincou]. Os pais achavam que ela tinha que estudar declamação e foi assim que começou a ter aulas desde pequena. “Na base da minha subjetividade só tem poesia. Quando comecei a escrever, foi como se eu descobrisse uma mágica. Desde pequena eu tenho um espanto pelas coisas, no bom sentido: me espanto com o meu jardim, com uma flor que se abre e enche o meu coração, com o céu quieto e nublado. E quando eu comecei a escrever, eu percebi que tinha aprendido pelos poetas a ferramenta para me espantar. Com a poesia eu declaro o meu amor por todas essas coisas”. A escritora e professora vê também na poesia um papel social. Ela contou que já presenciou situações em que a pessoa não recebia uma educação real da escola ou dos pais, mas a poesia conseguiu acessá-la. “Esse cara que não é escutado e não tem lugar (a não ser que ele seja bandido, ganhe dinheiro e tenha um carrão), faz uma reviravolta com uma coisa invisível que é a palavra. Hoje moram nas favelas os filhos do sistema de cotas e eles transformaram suas famílias (continuam morando na periferia, mas criaram bibliotecas em suas casas). Então, acredito muito na palavra no Rap, da palavra do funk. A palavra empodera e traz altivez”. Elisa disse ainda que é importante que a periferia tenha acesso a todos os tipos de cultura. “Eu quero todas as vozes, não quero um lado só mandando no outro. O menino aqui da zona sul ouve o rap, mas o menino da periferia não ouve outras coisas, porque acha que não é para ele”. Ela terminou a live também cantando. 40 tena cultural A Fundação do Livro e Leitura de RIbeirão Preto é a principal responsável pela realização da Feira Nacional do Livro, a segunda maior feira a céu aberto do país. Em decorrência da pandemia do coronavírus, as atividades de sua primeira edição Internacional tiveram de ser adiadas para agosto de 2021. Com isso, a Fundação tem propiciado diversos encontros em plataformas digitais para que as atividades culturais não deixem de estar presentes, na chamada “40tena cultural”. O projeto também tem como proposta incentivar as pessoas a ficarem em casa durante o período de isolamento social. Semanalmente são divulgadas atividades que abrangem desde as transmissões ao vivo com artistas e convidados até contação de histórias para crianças, show, dicas e discussões de livros. O cardápio de eventos é bem diversificado e usa tecnologias diferentes, mas todas com acesso fácil. Para a diretoria da Fundação do Livro e Leitura, em todo este tempo de quarentena, a principal busca tem sido focada na continuidade das atividades promovidas, de maneira a assegurar os valores do DNA da instituição. A 40tena Cultural possibilitou à toda equipe da instituição continuar seu trabalho em home-office numa operação estruturada dentro dos protocolos da OMS (Organização Mundial de Saúde) e das autoridades brasileiras, em nível federal, estadual e municipal. Como acessar a agenda cultural A 40tena Cultural está sendo divulgada semanalmente nas redes sociais da Fundação do Livro e Leitura de Ribeirão Preto. Para participar, basta acessar os endereços online da instituição. Instagram (@fundacaolivrorp) Facebook (facebook.com/FundacaodoLivroeLeituraRP) Linkedin (fundacaolivrorp), Twitter (@FundacaoLivroRP) Youtube (FeiraDoLivroRibeirao) Site www.fundacaodolivroeleiturarp.com
- Bate-papo com Fernando Bonassi é destaque na 40tena Cultural
Convidado pela Fundação do Livro e Leitura de Ribeirão Preto para participar do bate-papo ao vivo com o tema “Ficções que ganham vida”, o roteirista Bonassi falou do papel central do cinema brasileiro em pautar as discussões na sociedade – tal como aconteceu com “Carandiru”, filme de que é co-roteirista A 40tena Cultural, evento realizado pela Fundação do Livro e Leitura de Ribeirão Preto, trouxe nessa terça-feira (13) o convidado Fernando Bonassi para o centro do bate-papo do tema “A arte de escrever: ficções que ganham vida”. Bonassi é romancista, dramaturgo, cineasta e roteirista premiado, tendo participado como co-roteirista dos filmes “Carandiru” e “Cazuza”. Na live, contou mais sobre seu processo de adaptação de livros para filmes, sobre suas impressões em relação à cultura nacional e também deu dicas a jovens roteiristas. O encontro foi mediado pela diretora e roteirista Paula Sacchetta, que trabalha com documentários há 10 anos e já dirigiu dois longas: "Precisamos Falar do Assédio" e "Verdade 12.528", além de duas séries de TV: "Eu, Preso" e "Famílias". A transmissão teve início às 19h pelo Instagram e plataforma oficial da Fundação, com acesso livre e gratuito. Paula abordou o tema “Carandiru” desde o início, obra cinematográfica que marcou Bonassi como co-roteirista. “Essa foi uma experiência política que não vai acontecer de novo na minha vida”, ele afirmou, contando que chegou a ler o livro 36 vezes enquanto escrevia o roteiro em conjunto com Héctor Babenco e Victor Navas. “Como você adapta um livro que já é muito lido?”, ele mesmo questionou e respondeu: “O critério tem de ser encontrar ali entre o que você gosta e entende como relevante. Nós lemos o livro várias vezes, opinando sempre sobre o que era bom ou ruim, o que era repetitivo, sempre contando com a possibilidade de fazer mudanças”. O filme “Carandiru” (2003), afinal, foi uma adaptação da obra literária “Estação Carandiru” (1999) de Drauzio Varela, que vendeu mais de 400 mil exemplares nas primeiras semanas de sua publicação. Fernando Bonassi afirma que esse foi um trabalho de relevância política inigualável em sua carreira. “Pude presenciar a entrada da periferia na cultura, porque essas histórias nunca tinham valido nada para a literatura e para o cinema até essa época”. Em seu comentário sobre a implosão do edifício, que foi reinaugurado como Biblioteca de São Paulo (BSP), Bonassi defendeu: “Eu fiz parte de um grupo de pessoas que achava que aquele espaço tinha que virar um memorial, porque o processo todo foi uma covardia. O nome ‘massacre’ é bem dado. Mas esse apagamento é um comportamento histórico do Brasil”. Para ele, é nesse sentido que o cinema brasileiro se ergue como uma arte tão importante. “Talvez o nosso cinema tenha feito mais pelas relações exteriores do Brasil do que a própria diplomacia. Acho que a gente fala de cadeia por causa do Carandiru, a gente fala de favela por causa do Cidade de Deus, e a gente fala de polícia por causa do Tropa de Elite. E o que fazem com o prédio do Carandiru é o que tentam fazer com a democracia brasileira”. Bonassi contou que, em seu processo de adaptações literárias para filmes, costuma assumir um papel mais ‘desapegado’. “Eu chego frio para fazer esse trabalho, porque eu vou tentar entender o que o diretor quer, e nós vamos ter uma conversa profunda sobre aquilo e a partir disso vamos trabalhar”. Para ele, essa relação com o diretor é fundamental para o bom andamento da obra. “Como roteirista, procuro encontrar a verdade principal daquela obra literária e aquilo que pode ser melhorado”. Ele também afirma que é importante que o roteirista se mantenha “fora do set”: que seu trabalho esteja pronto e muito claro para que não tenha que participar das etapas seguintes de gravação. “Precisa existir um material de ferro, com as passagens claras. Como roteirista, não gosto de improviso e acho que o que costuma desagregar uma boa obra de arte é ela não ter sido pensada antes”. Além disso, uma dica que dá a jovens roteiristas é sempre atualizarem seu repertório. “Eu leio um livro e vejo um filme por dia para criar repertório. Fora isso, é importante ouvir: abrir os olhos e fechar a boca, sempre entrar absolutamente interessado no que vai acontecer”. De todas as suas contribuições para o cinema e para a literatura, Fernando Bonassi não sabe definir a que mais o marcou. “Sem dúvida o Carandiru foi o mais intenso, mas, se tem uma coisa bacana na minha área, é que cada trabalho que faço me permite visitar profundamente uma coisa nova”, conclui. 40 tena cultural A Fundação do Livro e Leitura de RIbeirão Preto é a principal responsável pela realização da Feira Nacional do Livro, a segunda maior feira a céu aberto do país. Em decorrência da pandemia do Coronavírus, as atividades de sua primeira edição Internacional tiveram de ser adiadas para agosto de 2021. Com isso, a Fundação tem propiciado diversos encontros em plataformas digitais para que as atividades culturais não deixem de estar presentes, na chamada “40tena cultural”. O projeto também tem como proposta incentivar as pessoas a ficarem em casa durante o período de isolamento social. Semanalmente são divulgadas atividades que abrangem desde as transmissões ao vivo com artistas e convidados até contação de histórias para crianças, shows, dicas e discussões de livros. O cardápio de eventos é bem diversificado e usa tecnologias diferentes, mas todas com acesso fácil. Para a diretoria da Fundação do Livro e Leitura, em todo este tempo de quarentena, a principal busca tem sido focada na continuidade das atividades promovidas, de maneira a assegurar os valores do DNA da instituição. A 40tena Cultural possibilitou à toda equipe da instituição continuar seu trabalho em home-office numa operação estruturada dentro dos protocolos da OMS (Organização Mundial de Saúde) e das autoridades brasileiras, em nível federal, estadual e municipal. Como acessar a agenda cultural A 40tena Cultural está sendo divulgada semanalmente nas redes sociais da Fundação do Livro e Leitura de Ribeirão Preto. Para participar, basta acessar os endereços online da instituição. 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- A PALAVRA É: DISRUPTURA
“A disruptura talvez seja a nossa maior demanda” “Ser disruptivo é uma tarefa bem complicada. É um desafio muito grande”. Essa foi uma das reflexões da jornalista e educomunicadora, Adriana Silva, durante sua abordagem sobre a palavra disruptura – uma das 20 que estimularam a reflexão de escritores, pensadores e educadores durante a semana de 14 a 18 de setembro, direto do palco do Theatro Pedro II - com transmissão pela plataforma da Fundação do Livro e Leitura A palavra tem sido seu lugar de pesquisa há muitos anos e na última década, Adriana Silva, curadora do evento 20 Horas de Literatura e presidente interina da Fundação do Livro e Leitura, se encantou pelo termo disruptura. Na noite do dia 17 de setembro, a educomunicadora começou sua fala traduzindo seu envolvimento com as palavras: “Gosto das palavras, da sonoridade delas, do jeito que elas são gravadas”. Com disruptura não foi diferente. A expressão ganhou o seu olhar de pesquisadora para entender o reflexo desta palavra no mundo atual. Questionada pela mediadora Laura Abbad, pedagoga e mestre em Educação, por qual motivo disruptura entrou para a lista das 20 palavras do evento para representar as duas últimas décadas, que coincidem com a trajetória da FIL (Feira Internacional do Livro), Adriana Silva explicou que as palavras têm um sentido rico, com dimensão tão grande que dão conta de muitas mensagens. No caso do vocábulo disruptura, a palavra, de origem americana, é transitória e oscila de um significado para o outro, indicando o que interrompe, termina. “No campo da tecnologia, as disrupturas não são autônomas. São transitivas e precisam de outras palavras, de complementos para dar o tom que você quer dar pra ela”, explicou. O termo, segundo a palestrante, também se encaixa na sociologia. Adriana Silva relata no artigo que escreveu para o e-book “20 palavras – leituras sobre o agora”, obra produzida com apoio das Edições SESC, que sua relação com o termo disruptura ganhou força quando se deparou com a leitura do livro “Originais”, de Adam Grant. Já no subtítulo, ela percebeu o indicativo: “como os não-conformistas mudam o mundo”. A contracapa também chamou sua atenção pelo anúncio de que o autor era consultor de empresas como Apple, Google e Facebook e estudava a força das ideias disruptivas. Pouco depois, sua relação com essa palavra se estreitou em um dos grupos de pesquisa que faz parte e trabalha com a Teoria U. “Essa teoria é um conjunto de propósitos e sentidos que ajudam a pensar um pouco o mundo”, comentou. A Teoria U aponta como liderar pela percepção e realização do futuro emergente. É uma obra de Otto Scharmer, professor sênior da Sloan School of Management, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts e co-fundador do Presencing Institute. Segundo Adriana, diante do uso da Teoria U, o sujeito se faz algumas perguntas, como: “O que é preciso deixar pra trás para que uma nova coisa possa tomar lugar de uma coisa velha? O que nos impede de inovar? Fazer o percurso do U é o que a gente tem que deixar pra trás? Quando a gente não se livra de uma coisa velha, não deixa uma coisa nova entrar?” Colocar o ser humano em primeiro lugar é uma ideia disruptiva? A mediadora Laura Abbad trouxe à tona essa questão e Adriana respondeu que parece que não, mas definitivamente é. “Não seria óbvio colocar o ser humano em primeiro lugar? Mas como sobrepor às institucionalidades. As instituições são mais soberanas do que a própria humanidade. E isso é romper com que a gente tinha antes. Temos muitos exemplos de que não colocamos o ser humano em primeiro lugar, como por exemplo, a disputa entre EUA e África para entrega de medicamento da AIDS, um acordo econômico que não visou primeiro o ser humano”. Para a educomunicadora, a proposta disruptiva é justamente no sentido de reverter o que está aí - desde que que cada um faça o exercício cotidiano. Adriana enfatizou ainda que colocar o ser humano em primeiro plano é uma ideia disruptiva e tão difícil quanto ser disruptivo. “ A gente não faz isso nem com a gente mesmo: quantas vezes não nos colocamos em primeiro lugar? Adriana contou que chegou à conclusão, após leitura da pesquisa do chileno Humberto Maturana, que tudo é cultura e que toda cultura é uma rede de conversação que consolida o modo de viver das pessoas, seus hábitos e identidade, ou seja, “é quase que uma equação: os problemas são culturais e para resolver uma rede de conversação que quero me livrar, preciso criar uma outra”, analisou. Mas segundo a análise de Maturana, só a emoção muda. “E o que é que emociona? O amor”, respondeu Adriana. A educomunicadora comentou que nosso estágio de emoção é temporário, porque não é educativo. “Se fosse educativo nos transformaria, mas como é uma rede de conversação temporária, essa disruptura que a gente tem que fazer com nossas velhas redes de conversação são absolutamente necessárias para rever um novo modelo de sociedade”. Adriana comentou ainda que a pandemia não deu conta de trazer à humanidade uma disruptura de fato, mesmo com todas as tragédias vivenciadas neste ano. Na ótica dela, apesar dos impactos, a pandemia não foi suficiente para fazer a humanidade se transformar. “Achei que íamos mudar, mas veio maio, junho e julho e a gente monetizou a discussão. Perdemos uma chance fenomenal de disruptura. O aprendizado não foi suficiente para fazermos essa reversão tão importante”, afirmou. Sobre uma possível disruptura pedagógica, ela foi prática ao responder: “precisamos de uma educação integral e não em tempo integral”, concluiu. O evento foi uma ação comemorativa aos 20 anos da FIL (Feira Internacional do Livro de Ribeirão Preto). A programação permanece nos canais da Fundação para acesso livre e gratuito.
- A PALAVRA É: AGENDA
‘É preciso um debate democrático sobre a questão do livro e leitura no Brasil’ Galeno Amorim, jornalista, ex-presidente da Fundação Biblioteca Nacional e um dos criadores da Feira do Livro de Ribeirão Preto, defende a criação de uma agenda para debater a retomada de uma política de Estado para a área da leitura Agenda. Esta foi a última palavra debatida no evento “20 Horas de Literatura”, promovido pela Fundação do Livro e Leitura de Ribeirão Preto, em parceria com o Sesc SP e Prefeitura Municipal, entre os dias 14 e 18 de setembro. O tema foi debatido com mediação do professor Cristiano Barreira e o convidado Galeno Amorim, jornalista, ex-secretário municipal da Cultura, ex-presidente da Fundação Biblioteca Nacional e um dos criadores da Feira do Livro de Ribeirão Preto. Durante o diálogo, no palco do Theatro Pedro II, Galeno relembrou as condições que resultaram na criação da Feira, em 2001. “Foi o resultado de um sonho. Passei anos ouvindo o quanto Ribeirão Preto merecia ter um evento deste tipo, então, com o apoio de parceiros, lideranças e da população, que abraçaram este projeto, pudemos concretizar esta ideia. Em 2004, foi criada a Fundação e, assim, a população se sentiu ainda mais dona da Feira”, afirmou. Galeno falou da importância dos livros no processo de construção de uma cidade, lembrando que na primeira edição da Feira, 20 autores locais participaram do evento, número que saltou para 100 três edições depois. “Em 2001, pesquisas mostravam que cada morador da cidade lia dois livros por ano. Em 2004, este número já era de sete obras em um ano”, disse. Neste momento, em que o Brasil não conta com uma política pública para a área de leitura, como ocorreu entre 2004 e 2006, quando coordenou o Plano Nacional do Livro e Leitura, responsável pela abertura de mais de 1.700 bibliotecas pelo país, Galeno defende a necessidade da sociedade estar atenta sobre a importância da criação de uma agenda para discutir a questão. “Em momentos obscuros, muitas vezes aconteceram queima de livros em praça pública, censura a autores ou o desejo de sobretaxar os livros, como ocorre agora, elevando o preço das edições. É fundamental que se crie uma agenda, envolvendo toda a cadeia do livro e leitura, para a discussão da retomada de uma política pública para o setor, em âmbito municipal, estadual e Federal”, defendeu. “Neste sentido, é de grande importância que eventos como a Feira Internacional do Livro de Ribeirão Preto continue sendo palco destas discussões”, completou. A ação “20 Horas de Literatura”, promovida para comemorar os 20 anos da Feira do Livro de Ribeirão Preto, contou com palestras 100% on-line de 20 autores convidados para falar sobre 20 palavras relevantes para o Brasil e o mundo nas últimas duas décadas, com transmissão ao vivo pela plataforma de conteúdo da Fundação (www.fundacaodolivroeleiturarp.com) e por suas redes sociais, como Facebook e YouTube. As transmissões estão disponíveis pelos canais da Fundação, podendo ser ainda acessadas por interessados. Cada palestra conta com profissionais especializados em tradução e interpretação em Libras.
- A PALAVRA É: SELFIE
‘Vivemos uma disputa de narrativas em busca de reconhecimento’ Para o jornalista e professor Murilo Pinheiro, imagens pessoais sempre positivas nas redes sociais podem criar algo que não é real e, em algum momento, trazer frustração O jornalista e professor Murilo Pinheiro participou na noite de sexta-feira (18/9) do evento “20 Horas de Literatura”, promovido pela Fundação do Livro e Leitura de Ribeirão Preto, em parceria com o Sesc SP e Prefeitura Municipal. Durante uma hora, ele debateu com a fotógrafa Sheila Brandão os significados da palavra Selfie. “Eu por mim mesmo, ou selfie, é um conceito que se popularizou recentemente, em torno de 10 anos, com a ampliação do uso das redes sociais, impulsionada por aparelhos de telefone com câmeras modernas. Esta junção de elementos - pessoas, celulares, câmeras e redes sociais -, torna possível a difusão de uma visão própria de cada um. Nos tornamos todos narradores de nossa própria história”, avaliou Pinheiro. “E já que estou fazendo uma narrativa própria, vou postar somente imagens positivas, o que me leva ao risco de um descolamento da realidade. Criar uma imagem que não é real pode, em algum momento, fugir ao controle e nos levar à frustração”, completou. Para embasar sua fala e o texto que escreveu para o e-book “20 Palavras: Leituras sobre o Agora”, lançado em parceria entre a Fundação do Livro e Leitura de Ribeirão Preto e Edições Sesc, Murilo Pinheiro recorreu a autores como Mario Vargas Llosa e Zygmunt Bauman. “Na obra ‘A Civilização do Espetáculo’, Llosa fala sobre esta tentativa de construção de um mundo sem dor e sofrimento, quando, na verdade, a vida real é feita de conquistas e retrocessos, de alegrias e tristezas. Já em seus pensamentos sobre a ‘Modernidade Líquida’, Bauman nos lembra que, há poucos anos, era inadmissível alguém tentar invadir nossa privacidade, mas, com o advento das selfies e das redes sociais, as pessoas escancaram suas intimidades em busca do reconhecimento do outro”, disse. “Estamos presenciando um ato individual, mas que só se completa com o reconhecimento do outro”, completou Pinheiro, que admite o poder transformador das redes sociais, mas reconhece seus riscos: “Todo excesso é ruim. Cada pessoa tem que saber identificar seus limites, seus parâmetros. Ninguém tem o poder de julgar se este é um comportamento bom ou ruim, por ser algo ainda muito novo, mas quando a ação parte para o exagero, para a compulsão, cada um tem que parar e refletir sobre o que está fazendo”, aconselhou. A ação “20 Horas de Literatura”, promovida entre 14 e 18 de setembro, contou com palestras 100% on-line de 20 autores convidados para falar sobre 20 palavras relevantes para o Brasil e o mundo nas últimas duas décadas, com transmissão ao vivo pela plataforma de conteúdo da Fundação (www.fundacaodolivroeleiturarp.com) e por suas redes sociais, como Facebook e YouTube. O evento, na íntegra, ainda pode ser acessado pelo site ou pelas redes sociais da instituição. Toda a agenda conta com profissionais especializados em tradução e interpretação em Libras.
- A PALAVRA É: FAKE NEWS
“Quod sit verum?” “A essência da fake news é a distorção da verdade, que é algo muito mais sério”. Foi com base neste pensamento, que Lucas E. S. Galon, doutor e mestre em artes - filosofia da música, participou do debate sobre um dos temas mais espinhosos da atualidade, considerado por ele próprio, como um fenômeno psicossocial O debate sobre uma das palavras mais comentadas nos dias de hoje, fake news, começou com uma pergunta que existe há mais de 2 mil anos: “quod sit verum?” (o que é a verdade?), questionamento feito por Pôncio Pilatos a Jesus de Nazaré, segundo relato no Evangelho de São João (18:38). “A pergunta ecoa durante esse tempo”, disse o Dr. Lucas E. S. Galon, pesquisador em filosofia da arte, que esteve no palco do Theatro Pedro II, na noite da sexta-feira (18) – último dia do evento ‘20 Horas de Literatura’, ao lado da jornalista e professora universitária, Flávia Martelli, que mediou o encontro. “Ouvir a verdade e reconhecê-la sempre foi uma tarefa difícil. O próprio Jesus Cristo foi vítima de uma enxurrada de fake news: em meio ao clima de subversão política e incerteza”, mostrou o pesquisador após fazer uma narrativa histórica sobre a presença de histórias falsas, como na época do comunismo, com Joseph Goebbels, ministro da propaganda nazista de Adolf Hitler, durante a tentativa de genocídio na Alemanha nazista. Além da Alemanha, o professor lembrou ainda fatos falsos divulgados por Josef Stálin, que inaugurou a manipulação de fotos para fins políticos, e o massacre de Ruanda, resultando no pior genocídio pós-Segunda Guerra no mundo. “Fatos que acabaram em morte, influenciadas por notícias falsas e mal intencionadas. Esse é o fator mais triste da fake news”, mostrou. Para ele, uma mentira contada mil vezes, vira verdade, o mesmo que acontece hoje, através dos robôs e algoritmos. “É uma distorção da verdade do produto”. Flávia Martelli destacou as várias formas de verdade, não verdades ou pós-verdades. A verdade existe? Para Galon, existem noções que implicam numa verdade – em vários períodos do mundo. “O que existe agora é que a ideia de fake news é uma distorção de verdade desta tradição”, destacou. Funciona assim: a pessoa recebe uma mensagem no celular, sem data, sem referência. Ela acredita nesta verdade e propaga. “É a supremacia do emissor: ele não precisa nem falar quem é, e como a pessoa está propensa àquela verdade e ela crê”, mostrou. Segundo ele, há ainda uma noção um pouco fabulosa do fato, que é a pós-verdade. “É a era da mentira. A verdade existe, os fatos acontecem, mas eles são distorcidos e acabam sendo inacessíveis”. A mediadora Flávia Martelli fez um questionamento ao palestrante: como identificar uma fake news? De acordo com Lucas Galon, a ausência de um autor é uma delas, assim como a falta de data, do nome do jornalista que escreveu e os erros de português propositais. Para ele, nestes tempos atuais de disseminação de notícias falsas, principalmente neste período de pandemia e distanciamento social, o jornalista e a ciência viraram um monstro. “A imprensa está sendo demonizada, assim como a ciência. Só que agora eles se encontram no subterrâneo da internet”, alertou. É a militância da verdade alternativa, ou seja, a tribo das fakes. “E a pandemia veio bem nesta hora. Estamos vivendo um momento sem precedentes. Acho difícil nos recuperarmos disso, que potencializou muito a visão dos outros, porque todos estão nas redes sociais. E o fenômeno das fake news vai ganhando o status de correio das desgraças mundiais”, definiu. As palestras de 20 autores convidados para falar sobre 20 palavras relevantes para o Brasil e o mundo nas últimas duas décadas tiveram transmissão ao vivo pela plataforma de conteúdo da Fundação do Livro e Leitura de Ribeirão Preto (www.fundacaodolivroeleiturarp.com) e por suas redes sociais, como Facebook e YouTube. A agenda completa do evento contou com profissionais especializados em tradução e interpretação em Libras. O evento foi uma ação comemorativa aos 20 anos da FIL (Feira Internacional do Livro de Ribeirão Preto). Os participantes inscritos contaram com certificado online.
- A PALAVRA É: GOOGLAR
“Existem apenas duas indústrias que chamam seus clientes de usuários, a das drogas e a dos softwares” A 17ª palavra escolhida pela Fundação do Livro e Leitura de Ribeirão Preto foi “Googlar”. No palco do Theatro Pedro II, o jornalista Guilherme Nali, mediado pela também, jornalista Patricia Penteado, debateram sobre o termo, tão presente na vida das pessoas hoje “Nunca parei para pensar quantas vezes eu vou em um site de busca, como o Google, para ter algum tipo de informação. E parece que isso é automático na nossa vida”, relembrou Guilherme Nali, jornalista e apresentador do jornal da EPTV Ribeirão, um dos convidados do último dia do evento “20h de Literatura”, na sexta-feira, dia 18 de setembro. O encontro foi mediado pela jornalista e apresentadora do Programa Alto Astral, do Grupo Thathi de Comunicação, Patricia Penteado. O jornalista começou o encontro relembrando das enciclopédias, que eram a ferramenta de informação da época. “Usávamos na época do colégio para pesquisar biologia, história, literatura. Incrivelmente, hoje, esse processo, em função da tecnologia, está muito mais fácil. Você tem muito mais acesso à informação do que a enciclopédia poderia dar”, relembrou Nali. Fazendo referência ao cantor Raul Seixas, “será mesmo que temos de ter uma opinião formada sobre tudo?”, questionou Patricia Penteado. Para o jornalista, isso só se torna possível por conta do Google. Por conta disso, as pessoas sempre têm respostas na ponta da língua. “De repente vemos um tema que está bombando nas redes sociais. Um exemplo disso é o tanto de informações que estão circulando no meio de uma pandemia, sobre medidas de prevenção, vacina e medicamentos”, explicou. Outro ponto importante que Guilherme Nali lembrou foi como a internet conseguiu dar voz a quem, talvez, nunca tivesse essa oportunidade, quebrando assim o monopólio das grandes empresas de comunicação e o formato tradicional do jornalismo. “Foi uma grande vitória. Porém, não é necessariamente algo positivo, no sentido da forma como as pessoas estão se manifestando e que tipo de conteúdo elas estão colocando no ar. Por isso, acredito que ainda falta muito aprofundamento”, alertou. Para ele, ainda existe um grande abismo entre o online e o offline, destacando uma pesquisa que o Facebook fez, junto à ONU, em 2019, que constatou que 3.9 bilhões de pessoas não tinham acesso à internet rápida. “Se tinham acesso, era uma internet bastante precária, sem satisfazer as necessidades. Isso em países subdesenvolvidos ou países em desenvolvimento. Portanto, é claro esse abismo social econômico, de acesso, bastante proeminente”. Sobre a democratização da informação e a voz de todos na internet, Patricia Penteado, fez um alerta: “Entra neste contexto se a ferramenta de busca é vilã ou mocinha, porque fazemos isso tão automaticamente que não paramos para pensar como nós buscamos a nossa informação”. Nali complementou destacando que a ferramenta de busca mais utilizada, cerca de 94% de todo o tráfego da internet, passa pelo Google, e nada mais é do que um mecanismo que a própria sociedade e produtores de conteúdo (sites, empresas, corporações governos e estados) abastecem. “É possível dominar a ferramenta, para que cada vez mais sejamos livres para construir nossas opiniões e não estarmos alienados à uma informação pronta”. Funciona assim: quem tem mais informação, tem mais poder. A ação “20 Horas de Literatura” seguiu com agenda diária até o dia 18 de setembro, com quatro encontros noturnos, das 18h às 22h. O evento foi realizado pela Fundação do Livro e Leitura de Ribeirão Preto, em parceria com o Sesc SP e a Prefeitura Municipal de Ribeirão Preto. Foram oferecidas palestras 100% online que reuniram 20 autores convidados para falar sobre 20 palavras que marcaram o cenário brasileiro e o mundo nas últimas duas décadas. As transmissões foram ao vivo pela plataforma de conteúdo da Fundação (www.fundacaodolivroeleiturarp.com) e por suas redes sociais, como Facebook e YouTube. Toda a agenda contou com profissionais especializados em tradução e interpretação em Libras. O evento foi uma ação comemorativa aos 20 anos da FIL (Feira Internacional do Livro de Ribeirão Preto). A programação permanece nos canais da Fundação para acesso livre e gratuito.
- A PALAVRA É: HUMANIZAÇÃO
“Projetar valores humanos salvam o coletivo” Para César Nunes, um dos mais destacados palestrantes e conferencistas em educação no Brasil, o que desenvolve a humanização é a educação. Dentro dela, estão a ética e ao mesmo tempo a ação política no mundo O filósofo, historiador e pedagogo, César Nunes, doutor em educação pela Unicamp, esteve na quinta-feira (17) no palco do Theatro Pedro II, ao lado da jornalista e escritora Daniela Penha, para falar sobre humanização – tema foco de seus estudos ao longo de toda sua trajetória. A 15ª palavra do evento “20 Horas de Literatura”, é para o professor, uma tentativa de definir o ser humano. O debate deste penúltimo dia começou com uma reflexão do filósofo São Tomás de Aquino: “quereis alguém superior a um anjo, procurai um homem. Quereis alguém pior que um demônio, procurar um homem”. César Nunes ainda definiu o homem com a frase: “um ser histórico com valores pessoais subjetivos, com os quais ele lida com a família, com os pais, com o mundo. Mas, que vive sobre uma condição humana, que é uma condição construída”. O filósofo, que também é coordenador do Grupo de Estudos e Pesquisas PAIDEIA, explicou que a humanização é a construção continua da condição humana. “Porém, as ações procuram fazer a condição humana melhor”, disse exemplificando que esse processo é nítido no desenvolvimento infantil. “Deixe uma criança sozinha e ela não se desenvolve humanamente”. Segundo ele, a constituição do ser humano deve ser feita na narrativa de laços. “Uma criança deve ser elogiada, amada, orientada. A educação familiar deve ser pautada por essa palavração da afetividade”, orientou. Durante o bate-papo, a mediadora Daniela Penha lembrou que, em tempos atuais – de pandemia, redes sociais, imediatismo - a internet acabou aproximando as pessoas. E ao mesmo tempo, a consulta aos conhecimentos humanos perdeu um certo valor. “Este cenário atual, nos afasta, nos aproxima ou nos desumaniza?”, questionou a jornalista. César Nunes explicou que as relações humanas que se desenvolveram do século passado para cá, foram pautadas por um determinismo, ou seja, pelas relações do capital e da modernidade. “Essa perda feita por um desenvolvimento acelerado da industrialização e urbanização que deve ficar na pandemia. A pandemia, para mim, é filha da mercadoria, do capitalismo industrializado. Se nós não mudarmos a forma de viver, a médio e longo prazo, teremos um ‘big’ vírus que um dia poderá, inclusive, ameaçar a humanidade. O planeta não precisa de nós. Mas, se a gente conseguir compreender a biodiversidade e o ecossistema, poderemos mudar”. Nunes mostrou que a pandemia marca o começo do século XXI e disse que a solução após esse acontecimento é o ser humano encontrar um novo modelo de sociedade e cultura que diminua as desigualdades. “O ser humano para encontrar-se na totalidade, precisará fazer a crítica do modelo de cultura que tem feito até agora. E, se conseguirmos sair desta pandemia, com esta crítica, teremos ganhado nossa vida e nossa civilização”, alertou. Sairemos melhores? “Se quisermos ser revolucionários, teremos que ser no conteúdo e na forma. Fomos surpreendidos por um vírus. E não vemos hoje um movimento, no Brasil, para cuidar da nossa biodiversidade. Só poderemos mudar esse cenário se começarmos a fazer um debate, com crianças e jovens, sobre a causa da Covid e não dos sintomas”. Para ele, ainda existem discursos negacionistas, com orientações irresponsáveis que fazem com que soframos muito mais do que se tivéssemos tido uma orientação adequada. “Quem acredita, sempre alcança. Essa hora é a hora de acreditar na condição humana e nos valores humanos. Teremos que ressignificar”, destacou. O professor lembrou ainda que, neste cenário atual, a arte e a educação mantiveram seu papel, levando discussões e debates, mesmo que de forma online. “A esses profissionais, nós devemos nossa saúde psíquica”. As palestras de 20 autores convidados para falar sobre 20 palavras relevantes para o Brasil e o mundo nas últimas duas décadas foram transmitidas ao vivo pela plataforma de conteúdo da Fundação do Livro e Leitura de Ribeirão Preto (www.fundacaodolivroeleiturarp.com) e por suas redes sociais, como Facebook e YouTube e ainda podem ser assistidas. Toda a agenda contou com profissionais especializados em tradução e interpretação em Libras. O evento, que aconteceu de 14 a 18 de setembro foi uma ação comemorativa aos 20 anos da FIL (Feira Internacional do Livro de Ribeirão Preto). Os participantes que se inscreveram com antecedência vão receber certificados online.
- A PALAVRA É: RESILIÊNCIA
‘Resiliência é pensar no quanto podemos nos ajudar e ajudar ao próximo em uma cadeia de cocriação’ Marlene Trivellato Ferreira, psicóloga, professora titular do Centro Universitário Barão de Mauá e pesquisadora do Instituto Paulista de Cidades Criativas e Identidades Culturais (IPCCIC), fala como a resiliência tem sido vista a partir de uma ótica muito dualista, em que o indivíduo ou nasce com essa característica ou morre sem ela. Mas, para ela, a capacidade de adaptação atravessa uma noção forte de coletividade Trivellato Ferreira, psicóloga, professora titular do Centro Nessa quinta-feira (17/9), a psicóloga e professora Marlene Trivellato Ferreira participou do evento “20 Horas de Literatura” para analisar a palavra “Resiliência”. Marlene critica o uso que se faz hoje do termo, estando muito associado a uma ideia estática e determinante sobre um determinado indivíduo, ao invés de algo que se constrói em cada pessoa e a partir de uma rede de apoio. A palestra 100% digital faz parte de um circuito de debate promovido pela Fundação do Livro e Leitura de Ribeirão Preto, em parceria com o Sesc SP e a Prefeitura Municipal da cidade. O evento na íntegra será promovido até essa sexta-feira (18/9). Tanto Marlene como a cantora e jornalista Fernanda Marx tiveram suas imagens transmitidas diretamente do palco do Theatro Pedro II (local onde a Feira Internacional do Livro é realizada anualmente), mas desta vez com plateia online em função da pandemia de Coronavírus. Fernanda foi responsável por mediar a discussão, que foi transmitida pelas várias plataformas digitais da Fundação. “O indivíduo não é resiliente por si só”, introduz Marlene, quando perguntada sobre o significado dessa palavra. A professora titular do Centro Universitário Barão de Mauá tem uma longa experiência como coordenadora de escolas de educação Infantil e fundamental, e docência na área da Psicologia do Desenvolvimento e Tratamento e Prevenção Psicológica. Com base em seus estudos e vivências, afirma que, na verdade, a resiliência não funciona em uma ótica dual: “No senso comum, o termo é muito mal utilizado, porque ele entende a resiliência como um atributo fixo do indivíduo, ou seja: ou você é ou você não é resiliente. Está aí o grande problema, porque, na verdade, ela depende de vários fatores externos”. Para a psicóloga, o indivíduo tem, sim, um papel importante dentro do seu processo de adaptação às diversas realidades, tanto a partir de seu empenho como de sua motivação. Mas o resultado desse desenvolvimento está relacionado também com o cenário ‘macro’: com a cultura, com as relações interpessoais em que esse indivíduo está inserido. “Todo o conjunto nos afeta”, afirma. Esse conjunto não diz respeito apenas a relações mais imediatas entre indivíduos. A professora diz que é possível aplicar a resiliência a toda uma cidade. “Isso é algo que eu trabalho bastante com o Instituto Paulista de Cidades Criativas e Identidades Culturais aqui de Ribeirão Preto. Essa ideia de que, quando nós todos estamos compromissados com o outro, podemos ajudar a proporcionar as condições para a subsistência dele. Podemos olhar para o indivíduo e identificar suas potencialidades”, conta. A resiliência, para Marlene, tem uma relação muito forte com a capacidade não só do indivíduo, mas também de sua própria cidade de acolhê-lo e mostrar a ele como pode se adaptar a novos meios. Na própria pandemia, momento com dificuldade de adaptação para todos, Marlene percebe muito espaço para exercer resiliência. “Nessa condição em que a gente vive hoje, estressante, que gera angústia e pânico… a família pode ter um papel fundamental de ajudar, de tranquilizar. Não passamos por isso sozinhos, precisamos do outro”, lembra. Para ela, a iniciativa de olhar para as possibilidades e enxergar saídas é essencial em momentos como esse. “Precisamos ver as potencialidades no outro para sermos éticos, justos. É uma maturidade que precisamos assumir. Precisamos entender que fazemos parte daquilo”. A ação “20 Horas de Literatura” é promovida até sexta-feira (18/9) pela Fundação do Livro e Leitura de Ribeirão Preto, em parceria com o Sesc SP e a Prefeitura Municipal de Ribeirão Preto. As palestras 100% online de 20 autores convidados para falar sobre 20 palavras relevantes para o Brasil e o mundo nas últimas duas décadas têm transmissão ao vivo pela plataforma de conteúdo da Fundação (www.fundacaodolivroeleiturarp.com) e por suas redes sociais, como Facebook e YouTube. Toda a agenda conta com profissionais especializados em tradução e interpretação em Libras. O evento é uma ação comemorativa aos 20 anos da FIL (Feira Internacional do Livro de Ribeirão Preto). Os interessados em participar da programação podem ainda se inscrever pela plataforma e ao final do evento vão receber certificado online de participação.
- A A PALAVRA É: EMPODERAMENTO
‘É necessário que a gente reconte a história deste país a partir do empoderamento’ Para Amara Moira, escritora, travesti e professora de literatura, o debate do empoderamento é escorregadio se pensado em uma perspectiva individual e não coletiva A escritora Amara Moira participou nessa quinta-feira (17) de uma discussão sobre o significado da palavra “Empoderamento”, tão latente nas reflexões das últimas décadas. Para ela, a palavra está muito relacionada com as liberdades individuais e com a possibilidade de tornar possível que minorias se sintam confortáveis ao ocupar espaços públicos – e de maneira coletiva. Palestras como essa, 100% digitais e de uma hora de duração – com intervenções de vídeos artísticos ALMA (Academia Livre de Música e Artes), formaram o evento “20 Horas de Literatura”, promovido entre 14 a 18 de setembro. Mediada por Renato Alves, animador cultural e programador do Sesc Ribeirão Preto, a discussão foi apresentada pelas várias plataformas digitais da Fundação do Livro e Leitura de Ribeirão Preto. Com a parceria do Sesc SP e da Prefeitura Municipal de Ribeirão Preto, a Fundação é a principal organizadora desse evento promovido em comemoração aos 20 anos da Feira Internacional do Livro da cidade (FIL). Toda a agenda contou com profissionais em tradução e interpretação em libras. Amara é autora de dois livros: “E se eu fosse puta”, de 2016, e “Vidas trans: a coragem de existir”, de 2017. Ela contou que, em 2014, completou um processo de transição e se assumiu como travesti, sendo a primeira mulher trans a obter o título de doutora com o seu nome social pela Unicamp. Ela introduziu a palestra relatando que, quando terminou a faculdade de Letras e ainda não havia feito sua transição, teve uma facilidade maior de se inserir no mercado de trabalho do que hoje, quando já é mais velha, madura e já conta com graus maiores de formação. Partindo de sua experiência, Amara afirmou que o empoderamento tem uma relação forte com essa possibilidade de se aceitar e lutar por uma aceitação em espaços públicos (como o mercado de trabalho). Mas ela também ressaltou que, muitas vezes, o debate sobre o tema tem sido escorregadio. “O empoderamento não pode ser individual e sim de toda a sociedade. Não pode ser só eu olhando no espelho e dizendo para mim que sou bonita. Precisa ser uma luta para que todas as travestis possam entrar em espaços públicos e se sentirem confortáveis, sem necessitar agradecer por terem sido aceitas ali”, declara. Para ela, empoderamento são todas essas estruturas sociais que criam conforto para alguns indivíduos: “é a possibilidade de se inserir no mercado de trabalho, a possibilidade de uma pessoa não ser parada por um policial no meio da rua, a possibilidade de andar no espaço público sem ser assediada”. Os livros, para ela, são um espaço forte para essa transformação. Amara defende que é preciso conhecer mais do mundo pelos olhos das minorias – ouvindo, vendo e presenciando experiências que fazem parte de sua rotina. “Eu gosto muito desse papel da literatura de fazer o leitor conhecer o mundo pelas nossas palavras, pela nossa língua, pelo nosso sentido”. Apesar de todas as dificuldades, Amara entende que essa visibilidade tem ganhado mais importância com os anos. “O mundo tem querido conhecer mais do mundo pelos olhos dessa travesti, desse homossexual, dessa mulher. Essa dor não é mais só nossa, e até pouco tempo era”. Durante a palestra, Amara falou ainda sobre o papel que grandes autores nacionais, como Jorge Amado ou Mário de Andrade, tiveram dentro dessa questão: tanto por ignorá-la quando por criar personagens que fugissem da chamada ‘heteronormatividade’. A escritora também contou sobre como essa representatividade teve um papel importante inclusive para ela, para que pudesse concluir sua transição. “Uma das minhas dificuldades era justamente imaginar se eu conseguiria continuar a ocupar o espaço da universidade. A representatividade é muito importante por isso: para acostumar os olhos das pessoas, para que as minorias estejam nessa posição de admiração, de alguém a ser espelhado. Mas também é preciso, nesse processo de empoderamento, que a gente pense em formas de minar essas estruturas opressoras pela base”. A ação “20 Horas de Literatura” seguiu com agenda diária até o dia 18 de setembro (sexta-feira), com quatro encontros noturnos, das 18h às 22h. O evento foi realizado pela Fundação do Livro e Leitura de Ribeirão Preto, em parceria com o Sesc SP e a Prefeitura Municipal de Ribeirão Preto. Foram oferecidas palestras 100% online que reuniram 20 autores convidados para falar sobre 20 palavras que marcaram o cenário brasileiro e o mundo nas últimas duas décadas. As transmissões foram ao vivo pela plataforma de conteúdo da Fundação (www.fundacaodolivroeleiturarp.com) e por suas redes sociais, como Facebook e YouTube. Toda a agenda contou com profissionais especializados em tradução e interpretação em Libras. O evento foi uma ação comemorativa aos 20 anos da FIL (Feira Internacional do Livro de Ribeirão Preto). A programação permanece nos canais da Fundação para acesso livre e gratuito.
- A PALAVRA É: CIDADANIA
‘A indignação é o motor da cidadania’ Historiadora e professora Sandra Molina diz que a indignação frente aos problemas sociais é o que nos leva ao exercício pleno da cidadania Quando você toma conhecimento que um quarto da população brasileira vive abaixo da linha da pobreza e milhões de crianças passam fome no país, como reage? Acha que isso não é problema seu e que para resolver esta situação existem os governantes ou fica indignado, reconhece que este é um tema de Estado, mas que você também pode fazer a sua parte? Se você opta pelo segundo caminho, está na direção do exercício da Cidadania, palavra que foi o tema da conversa entre a historiadora e professora da Unaerp, Sandra Molina, e a jornalista Érica Amêndola, na noite de quarta-feira (16/9), dentro do evento 20 Horas de Literatura. “A maior dificuldade do exercício da cidadania na sociedade brasileira reside em pensarmos que alguém vai resolver todos os problemas por nós. Nos acostumamos a banalizar as questões sociais e a agir individualmente, esperando que algum salvador da pátria vá aparecer. Não temos uma consciência horizontal, mas, mais do que nunca, será preciso pensar no coletivo, no período que virá no pós-pandemia”, defendeu Sandra. Para a professora, a cidadania encontra na micropolítica e no engajamento em ações da sociedade civil organizada um campo fértil. “Mesmo em períodos mais difíceis da humanidade, como na escravidão, havia a capacidade de articulação, de exercício da cidadania entre aqueles que lutavam por seus direitos. Por quê, então, não conseguimos refletir sobre a atualidade, não conseguimos nos indignar com tanta coisa errada?”, questionou. “Exercitar a política no dia a dia, em nossas relações familiares e sociais, é a nossa articulação, é a nossa capacidade de encontrar saídas. É o nosso exercício de cidadania”, completou. A ação “20 Horas de Literatura” é promovida até sexta-feira (18/9) pela Fundação do Livro e Leitura de Ribeirão Preto, em parceria com o Sesc-SP e a Prefeitura Municipal de Ribeirão Preto. As palestras 100% on-line de 20 autores convidados para falar sobre 20 palavras relevantes para o Brasil e o mundo nas últimas duas décadas tiveram transmissão ao vivo pela plataforma de conteúdo da Fundação (www.fundacaodolivroeleiturarp.com) e por suas redes sociais, como Facebook e YouTube. Toda a agenda conta com profissionais especializados em tradução e interpretação em Libras. O evento foi uma ação comemorativa aos 20 anos da FIL (Feira Internacional do Livro de Ribeirão Preto). Os interessados em assistir a programação podem ainda acessar os canais da instituição. O acesso é livre e gratuito.
- A PALAVRA É: DEMOCRACIA
‘Democracia não é apenas um regime político’ Para o professor, filósofo e ex-ministro Renato Janine Ribeiro, a democracia é um valor ético essencial para eliminar fatores que possam impedir as pessoas de se realizarem Na terceira noite do evento “20 Horas de Literatura”, coube ao professor da USP, filósofo e ex-ministro da Educação (2015), Renato Janine Ribeiro, conceituar a palavra Democracia, em um diálogo online com a secretária da Cultura de Ribeirão Preto, Isabella Pessotti. Em sua fala, Janine lembrou do início da democracia em Atenas, quando ela era exercida de forma direta. Sem representantes, o povo ateniense se reunia em praça pública para, em assembleias, decidir questões pertinentes a todos. “Eram pelo menos 40 destes encontros por ano. Hoje, no Brasil, votamos a cada dois anos e muita gente ainda reclama”, comparou. Depois do período inicial do sistema democrático, ainda antes de Cristo, pode-se dizer que a fase moderna da democracia tenha surgido timidamente nos séculos 17 e 18, especialmente na Inglaterra, na França e nos Estados Unidos. “Demorou para emplacar. Quando da Primeira Grande Guerra, em 1914, com exceção dos franceses, dos britânicos e dos norte-americanos, todas as outras potências não eram democráticas. Tempos depois, com o fim da Segunda Guerra e a vitória do bem sobre o mal, o termo ganha valor e passa a ser visto de forma positiva, até por quem de democrata não tinha nada”, analisa Janine, ao lembrar que, no Brasil, Getúlio Vargas, apesar de comandar um regime autoritário, se referia ao seu governo como uma “democracia relativa” e países de regime comunista se auto intitulavam uma “democracia popular”. Para o professor, hoje, ainda com uma curta história de 35 anos no Brasil, desde a sua retomada, a democracia sofre ameaças, assim como acontece nos Estados Unidos da era Donald Trump, e em países como a Polônia e a Hungria. “São países comandados por governos contrários aos valores sociais, às liberdades e ao respeito, que fazem uso intenso da demagogia com a promessa de melhorar a vida dos mais pobres, como no Brasil que formam a maior parte da população”, analisou. Muito mais que um regime político, em que o eleitor, por meio do voto, pode escolher entre uma sociedade mais competitiva ou outra mais cooperativa e solidária, a democracia, segundo Janine, é um valor essencialmente ético. “Nós não somos iguais, somos diferentes, mas todos são iguais perante a lei, perante seus direitos. Temos a liberdade de escolher a nossa religião, de seguir a nossa orientação sexual. Tendo igualdade de direitos, podemos exercer as nossas diferenças. Neste sentido, a democracia é essencial para eliminar fatores que impeçam a realização das pessoas. Quando, em um período denominado democrático, as pessoas não estão se realizando, então quer dizer que a democracia está falhando e está ameaçada”, completou. A ação “20 Horas de Literatura” terminou na sexta-feira (18/9). O evento teve realização da Fundação do Livro e Leitura de Ribeirão Preto, em parceria com o Sesc SP e a Prefeitura Municipal de Ribeirão Preto. As palestras 100% online de 20 autores convidados para falar sobre 20 palavras relevantes para o Brasil e o mundo nas últimas duas décadas tiveram transmissão ao vivo pela plataforma de conteúdo da Fundação (www.fundacaodolivroeleiturarp.com) e por suas redes sociais, como Facebook e YouTube. Toda a agenda conta com profissionais especializados em tradução e interpretação em Libras. O evento comemorou os 20 anos da FIL (Feira Internacional do Livro de Ribeirão Preto). Os interessados ainda em assistir aos conteúdos podem acessar pelos canais da Fundação. O acesso é livre e gratuito.
- A PALAVRA É: INTOLERÂNCIA
‘A intolerância é a evidência do desconforto. Na tolerância, eu suporto, não transformo’ Para Patricia Teixeira Santos, historiadora e autora de dois livros, as noções de ‘tolerância’ e ‘intolerância’ vêm sempre acompanhadas de uma visão dualista de mundo, que separa pessoas e culturas entre o que é “bom” e “ruim” Em videoconferência realizada no dia 16/9, quarta-feira, a autora Patricia Teixeira Santos participou de uma discussão sobre o significado da palavra “Intolerância”, tão presente nos debates das últimas décadas. Apesar de todas as críticas que tem a fazer sobre o tema, a historiadora lembra que é a intolerância quem possibilita o confronto e, enfim, a transformação. “Essa palavra indigesta e complicada também traz o convite ao confrontar-se em busca de outros pactos políticos. A rever os processos eleitorais, a se reposicionar”, afirma. Palestras como essa, 100% digitais, de uma hora de duração e com intervenções de vídeos artísticos ALMA (Academia Livre de Música e Artes), compõem o evento “20 Horas de Literatura”, promovido até a sexta-feira (18/9). Mediada pelo bibliotecário Ciro Monteiro, cuja imagem estava sendo transmitida direto do Theatro Pedro II, a discussão foi apresentada pelas várias plataformas digitais da Fundação do Livro e Leitura de Ribeirão Preto. Com a parceria do Sesc SP e da Prefeitura Municipal de Ribeirão Preto, a Fundação é a principal organizadora desse evento promovido em comemoração aos 20 anos da Feira Internacional do Livro da cidade (FIL). Em primeiro lugar, foram as nuances da palavra “Intolerância” que precisaram ser debatidas por Ciro e Patricia. A historiadora, que além de docente de História da África na Universidade Federal de São Paulo, também é pesquisadora colaboradora do Centro de Investigação Transdisciplinar "Cultura, Espaço e Memória" em Portugal, explica que a ideia de tolerância está intimamente ligada a uma visão dualista de mundo. “Uma coisa que percebi na redação dessa palavra é que o movimento passa pela ideia do desconforto, de uma percepção de dualidade (entre bom e ruim). E a crença na dualidade leva à xenofobia. Então, processos de intolerância são binários, homogêneos, simplificadores. E é bom lembrar que, junto com a tolerância, vem sempre a sombra da intolerância”, afirmou. Patricia relembrou que o século XXI já começou sendo marcado pela palavra e, desde então, essa tem percorrido todos os campos da cultura. “Começamos esse novo século com o 11 de setembro, em que uma tragédia humana ocorreu e suas vítimas passaram a gerar novas vítimas”. Ela se refere a todos os países e culturas que foram estigmatizados depois do ocorrido. “Começamos a ver as fronteiras físicas, ideológicas, e de conhecimento se erguerem. Um aumento do racismo em relação a árabes, latinos e africanos”. Para ela, a construção da intolerância passa por questões difíceis de se resolver e de se equilibrar politicamente, em que fica muito evidente a fragilidade das políticas de consenso. “Essas políticas ainda não são consolidadas em modificações sociais, em políticas de promoção de equidade, de valorização da diversidade humana, como algo que promove desenvolvimento, progresso e inovação. Vivemos em um mundo que não aceita essa transformação”. Mas a historiadora imagina que esse seja um ano de convite à mudança. “2020 é um ano de redescoberta de solidariedade, de reflexão. A intolerância é um duro convite para que a gente se transforme, se questione e questione a vida. As instituições não devem ser toleradas e sim vividas”, destacou. A ação “20 Horas de Literatura” foi promovida pela Fundação do Livro e Leitura de Ribeirão Preto, em parceria com o Sesc SP e a Prefeitura Municipal de Ribeirão Preto. As palestras 100% on-line de 20 autores convidados para falar sobre 20 palavras relevantes para o Brasil e o mundo nas últimas duas décadas foram transmitidas ao vivo pela plataforma de conteúdo da Fundação (www.fundacaodolivroeleiturarp.com) e por suas redes sociais, como Facebook e YouTube. Toda a agenda pode ser ainda acessada pelos canais da instituição, de forma gratuita e conta com profissionais especializados em tradução e interpretação em Libras. O evento foi uma ação comemorativa aos 20 anos da FIL (Feira Internacional do Livro de Ribeirão Preto), que não pôde acontecer neste ano, em função da pandemia do Coronavírus.

















